Política

No caso Master, até agora, é o lado do governo que está mais enrolado

Daniel Vorcaro fez o que poucos conseguem em Brasília: tornou-se indispensável a todo mundo ao mesmo tempo. Ministros do Supremo, auxiliares do Planalto, operadores do Congresso, figuras da oposição — o dono do Banco Master costurou uma teia de relações tão vasta que, quando ela começou a se desfazer, não havia Poder da República que não sentisse o tranco.

O banqueiro está preso. Negocia delação premiada. E enquanto o lobo não vem — enquanto o conteúdo dessa delação não ganha forma oficial e suas revelações não passam pelo crivo da comprovação —, o rastro que ele deixou já conta uma história com endereço razoavelmente definido.

Convém lembrar: delação, por si só, não é prova. O que Vorcaro apresentou até agora é um cardápio preliminar, os capítulos iniciais de uma história que só se sustentará se vier acompanhada de comprovação factual — documentos, registros, provas físicas que conectem cada nome delatado aos fatos ilícitos denunciados.

Mas enquanto o país aguarda esse momento, os elementos já conhecidos, apurados pela imprensa e confirmados por investigações oficiais, bastam para desenhar o mapa da devastação. E esse mapa tem um centro de gravidade.

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada dias atrás traduz em números o que a crônica política já vinha desenhando a olho nu. Perguntados sobre quem estaria mais envolvido no esquema do Master, 39,5% dos brasileiros apontam aliados do presidente Lula. Outros 28,3% associam o caso a pessoas próximas de Bolsonaro. O Centrão aparece com 12,9%. E 14,6% enxergam todos os grupos igualmente implicados. Os números não absolvem ninguém — e não é essa a questão. O que eles revelam é que, na percepção pública, o centro de gravidade do escândalo pende para o lado do governo e de seus associados. E essa percepção não nasce do vazio. Ela é filha dos fatos.

Comecemos pelo Planalto. Em dezembro de 2024, Vorcaro foi recebido pelo presidente Lula em reunião que não consta da agenda oficial da Presidência. O banqueiro chegou ao gabinete conduzido por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, que à época recebia do Master a módica quantia de R$ 1 milhão por mês como “consultor”.

A contratação de Mantega — cujos pagamentos podem ter alcançado R$ 16 milhões — foi articulada por Jaques Wagner, líder do governo no Senado e elo entre o PT baiano e o banco. A missão do ex-ministro era facilitar a venda do Master ao BRB, o banco público de Brasília, operação que o Banco Central viria a barrar. Na reunião com Lula, estavam também Augusto Lima, então CEO do Master e amigo pessoal de Rui Costa, ministro da Casa Civil, além de Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, e Gabriel Galípolo, já indicado para presidir o Banco Central. O encontro não foi um café casual.

O circuito petista do Master não se esgotava em Mantega, uma vez que Jaques Wagner também indicou ao banco o escritório de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF e, à época, ministro da Justiça de Lula. O contrato previa R$ 250 mil mensais por “consultoria jurídica e institucional de caráter estratégico”. Lewandowski participou de apenas duas reuniões do Comitê Estratégico do banco durante todo o período. Quando assumiu o ministério, transferiu o contrato aos filhos — mas os pagamentos continuaram fluindo, totalizando cerca de R$ 6,5 milhões, dos quais R$ 5,25 milhões já na vigência do cargo de ministro. O contrato, aliás, é apontado por integrantes do próprio governo como uma das razões que apressaram a saída de Lewandowski da pasta da Justiça.

No Supremo Tribunal Federal, a contaminação é ainda mais explícita — e recai sobre ministros historicamente alinhados ao governo. Dias Toffoli, primeiro relator do caso Master, deixou a função em fevereiro depois que a Polícia Federal encontrou seu nome no celular de Vorcaro, além de conversas diretas entre os dois. A saga do resort Tayayá, no Paraná, com repasses de R$ 35 milhões à empresa dos irmãos de Dias Toffoli acrescentou uma camada de constrangimento que nenhuma nota oficial conseguiu dissipar.

Antes de se tornar relator, Toffoli voou para Lima, no Peru, em jato particular ao lado de um advogado que representa um diretor do banco. Já na relatoria, decretou sigilo, convocou acareação heterodoxa com o diretor de Fiscalização do Banco Central — da qual recuou — e protagonizou seguidas quedas de braço com a Polícia Federal.

Alexandre de Moraes acumula um dossiê próprio. O contrato de R$ 129 milhões entre o banco e o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes — R$ 3,6 milhões por mês durante três anos —, já era suficiente para levantar sobrancelhas. Somaram-se as seis ligações telefônicas no mesmo dia para o presidente do Banco Central, as mensagens trocadas com Vorcaro no exato 17 de novembro, dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez, e a nota de resposta que gerou mais perguntas do que respostas.

Agora, reportagem da Folha de S.Paulo, publicada nesta semana a partir de cruzamento de dados da Anac, do Decea e do Registro Aeronáutico Brasileiro, revelou que Moraes e sua esposa utilizaram jatos executivos de empresas ligadas a Vorcaro em pelo menos oito ocasiões entre maio e outubro de 2025. Sete dos voos foram em aeronaves da Prime Aviation, da qual Vorcaro era sócio por meio do fundo Patrimonial Blue. O oitavo, num Falcon 2000, pertence a uma empresa de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. O ministro nega. O escritório diz que contratou serviço de táxi aéreo e que nenhum voo contou com a presença de Vorcaro ou Zettel. Os pagamentos, segundo a banca, foram compensados com honorários contratuais. A explicação pode ser tecnicamente possível. Politicamente, é mais uma camada de fumaça num incêndio que já não permite a ninguém fingir que não há fogo.

Nunes Marques completa o tríptico no Supremo. Documentos do Coaf revelam que o Master e a JBS repassaram R$ 18 milhões a uma empresa de consultoria que fez pagamentos ao filho do ministro — uma empresa que declarava faturamento de R$ 25,5 mil. A desproporção entre o faturamento declarado e os valores recebidos fala por si, com a eloquência dos números que dispensam adjetivos.

Há envolvimento do outro lado do espectro político? Evidentemente. A teia de Vorcaro não respeitava alinhamentos ideológicos — essa era, aliás, a engenharia do esquema, sua apólice de seguro contra a alternância de poder. Mas o que os fatos reunidos até aqui desenham, e o que a percepção da população confirma, é que a densidade do envolvimento é assimétrica.

São mais contratos, mais valores, mais ligações telefônicas, mais mensagens, mais jatinhos, mais reuniões fora da agenda, mais constrangimentos institucionais acumulados no flanco governista do que em qualquer outro. Mantega, Lewandowski, Jaques Wagner, Rui Costa, Toffoli, Moraes — a lista de nomes que gravitam em torno do governo e de seus associados históricos não é uma coincidência estatística. É um padrão.

O país já sabe de que lado o bicho pesa mais. A única dúvida que resta é o tamanho exato da conta — e o que acontecerá quando o lobo finalmente abrir o bico.​​​​​​​​​​​​​​​​

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