Opinião

O ciúme americano do Pix

Há invenções que incomodam não por serem ruins, mas por serem boas demais. O Pix é uma delas.

E o desconforto que provoca em Washington diz muito mais sobre os interesses que o governo americano representa do que sobre qualquer irregularidade brasileira.

Na última segunda-feira, o escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos — o USTR, sigla que nos últimos anos virou sinônimo de pressão tarifária — concluiu uma investigação aberta em julho de 2025 por ordem do presidente Donald Trump. O instrumento utilizado foi a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um mecanismo que autoriza o governo americano a punir, unilateralmente e sem precisar do aval do Congresso, países acusados de práticas comerciais “injustas ou discriminatórias”.

A punição proposta: uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Entre os réus do processo, o principal é um aplicativo de celular que o brasileiro usa para pagar o almoço, dividir a conta do bar e transferir dinheiro para a mãe no domingo à noite.

O Pix, para quem ainda não se familiarizou com a discussão diplomática da semana, é o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, desenvolvido a partir de 2018 e lançado oficialmente em novembro de 2020.

Em menos de cinco anos, tornou-se o método de pagamento preferido de 175,3 milhões de brasileiros — o equivalente a 80% da população.

Enterrou, no caminho, modalidades que pareciam eternas, como o TED e o DOC: transferências que custavam, demoravam e só funcionavam em horário comercial, como se o dinheiro precisasse de hora de almoço.

A acusação americana, em linguagem técnica mas de intenção bastante prática, é a seguinte: o Banco Central teria concedido ao Pix vantagens injustas — visibilidade nos aplicativos, disponibilidade permanente, isenção de tarifas — que os concorrentes estrangeiros não teriam.

Em outras palavras, Washington alega que o Brasil discriminou empresas americanas ao criar uma ferramenta pública melhor do que os produtos privados que essas empresas oferecem.

É uma tese criativa. Mas os especialistas ouvidos pelo Estadão em elucidativa reportagem publicada esta semana a desmontam com uma facilidade que beira o constrangimento.

“Sempre fomos vanguardistas nessa parte de pagamentos; eles deveriam estar pensando em vir aprender com a gente”, disse Marco Saravalle, economista e estrategista-chefe da Krivo Capital.

Para ele, as críticas têm como verdadeiro mote a defesa dos interesses comerciais de gigantes americanas, não qualquer prejuízo concreto ao mercado. E vai além: “O Pix deixou a economia mais aquecida, bancarizada e legalizada. Tudo isso, em algum momento, acaba também estimulando o crescimento das transações nos cartões.”

Há ainda um argumento histórico que derruba a narrativa americana com simplicidade cirúrgica. O Brasil não inventou as transferências eletrônicas com o Pix. O TED existe há décadas. O DOC também.

Durante todo esse tempo, nenhuma bandeira de cartão, nenhum documento do USTR, nenhuma voz em Washington apontou o Brasil como praticante de concorrência desleal no setor de pagamentos.

O Pix não criou uma categoria nova de problema — apenas a resolveu melhor. “Agora que temos uma alternativa mais moderna e dinâmica, apareceram as reclamações. É difícil entender os pontos do governo americano”, completou Saravalle.

O pesquisador Adrian Kemmer Cernev, do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV EAESP, é mais direto sobre o que está em jogo: há um risco real para Visa e Mastercard — não no Brasil apenas, mas no mundo.

Um estudo publicado pela Harvard Kennedy School revela que 1 em cada 11 pessoas no planeta já utiliza pagamentos instantâneos. À medida que outros países adotam sistemas similares, a fatia de mercado do duopólio global de cartões encolhe.

E a conta é simples: cada transação via cartão de crédito custa ao lojista entre 2% e 5% em taxas de intermediação. O Pix custa zero. Para o consumidor, para o comerciante, para a economia.

Esse é o “crime” brasileiro — ter construído uma infraestrutura pública que funciona e que prova, de quebra, que o modelo privado sustentado em bilhões de tarifas não é uma fatalidade, mas uma escolha.

Não por acaso, o mesmo documento do USTR que condena o Pix menciona o WhatsApp Pay como evidência de “ingerência” do Banco Central. A versão americana é que o BC atrasou o lançamento da ferramenta da Meta para favorecer o sistema brasileiro.

O que o documento omite convenientemente é que o próprio Conselho Administrativo de Defesa Econômica — o Cade, órgão antitruste brasileiro — também suspendeu o lançamento, por enxergar riscos reais de concentração de mercado. Detalhes.

O Brasil, aliás, não está sozinho nessa trajetória. A Índia tem o UPI, lançado em 2016, que hoje domina o comércio eletrônico daquele país e responde por mais da metade das transações online. África do Sul, México e Colômbia seguiram caminhos similares.

São 51 países que já implementaram sistemas de pagamentos instantâneos — um mercado que movimentou US$ 266 bilhões em 2023 e deve chegar a US$ 575 bilhões em 2028.

O Pix, que começou do zero há menos de cinco anos, já movimenta valores equivalentes a quase três vezes o PIB brasileiro anualmente.

Brasil e Índia chegaram a discutir a integração direta entre Pix e UPI para transações sem conversão em dólar — o que, em linguagem diplomática, significa os dois maiores sistemas de pagamento instantâneo do mundo estudando como conversar entre si sem passar por Wall Street. Talvez seja aí que resida o incômodo mais profundo.

Para Cernev, a pressão americana não tem chance de impactar o funcionamento do sistema. “O Pix é economicamente e tecnicamente viável e caiu nas graças do brasileiro. Seria suicídio político. É irreversível.”

A Febraban também se manifestou, afirmando que as conclusões do USTR foram baseadas em informações incompletas sobre os objetivos e o funcionamento da plataforma.

O que o governo Trump faz, portanto, não é defender o livre mercado — é proteger um oligopólio. Não está combatendo uma prática desleal — está protestando contra uma inovação pública bem-sucedida que ameaça a renda de intermediação de empresas americanas.

A Seção 301, instrumento criado para combater dumping e pirataria, está sendo acionada contra um aplicativo gratuito que permite ao brasileiro pagar o café da manhã sem pagar taxa para a Visa.

“Dizer que o Pix é anticompetitivo não é verdade. Mas que o Pix afrontou os interesses de empresas estrangeiras — isto, certamente”, resumiu Cernev, com a precisão de quem não precisa de ironia para ser devastador.

O Brasil inventou algo bom. Tão bom que o mundo copiou. Tão bom que incomoda quem lucrava com o que havia antes.

Em Washington, chamam isso de concorrência desleal. No resto do planeta, chamam de progresso.

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