Opinião

Bloco de Notas

1 – O dedo do meio da República

Um gesto, às vezes, vale mais que mil discursos — e o presidente Lula, sempre um homem de recursos escassos quando o assunto é sofisticação, escolheu um dos mais eloquentes do repertório humano para expressar sua visão de mundo: o dedo do meio, erguido em pleno Palácio do Planalto, durante cerimônia sobre o programa Brasil Sorridente. “Aqui para eles”, disparou, endereçando o gesto a quem, segundo ele, “acha que pobre não gosta de coisa boa”.

A frase seguinte foi digna de nota: “Nós queremos tudo de primeira: comida de primeira, roupa de primeira, viajar de primeira, dentista de primeira, médico de primeira.” Um inventário de desejos absolutamente legítimos, é bom que se diga — o problema nunca foi o que o pobre quer, mas o que o poder público entrega. E o que se entrega, historicamente, é sempre menos discurso e mais gesto: no caso, literalmente.

O curioso é que o presidente ainda emendou uma aula de economia doméstica ao afirmar que quem tem plano de saúde particular “paga” o benefício com a dedução do Imposto de Renda, e que, portanto, “quem paga somos nós que deixamos de receber o dinheiro”. A lógica é tão elástica quanto o próprio gesto: por essa régua, todo benefício fiscal do país é pago pelo contribuinte que abre mão de arrecadar — o que, aliás, é rigorosamente verdade, só que o presidente parece achar que essa regra vale só para o vizinho.

Fica o gesto, fica a frase, fica o ano eleitoral pesando em cada aparição pública. E fica, sobretudo, a certeza de que o debate sobre desigualdade no Brasil segue sendo tratado, no mais alto escalão da República, com o vocabulário e a elegância de um botequim depois da meia-noite.

2 – Fiel à linha: a Band e a defesa de quem gera emprego

A Band tem uma característica que a diferencia — para o bem — da maioria das emissoras de TV aberta: seus editoriais costumam olhar com atenção para o lado do setor produtivo, do empresário que gera renda, emprego e riqueza para o país. Não é acaso, é linha editorial consistente. E o editorial ao ar em 9 de junho, batizado “Uma armadilha para o trabalhador”, é mais um capítulo dessa coerência — só que, dessa vez, tratando de um tema em que aplaudir seria o caminho fácil e politicamente correto: a redução da jornada de trabalho, a tal escala 6×1.

Segundo o texto do Grupo Bandeirantes, “uma grande armadilha está sendo preparada contra o trabalhador por uma união de forças que junta posições contraditórias e até adversários, todas alimentadas por um ponto comum: enganar o eleitor com uma promessa falsa, traiçoeira e demagógica”. A palavra “demagógica” chama atenção justamente por ser rara em editoriais de TV aberta, que normalmente evitam atrito com qualquer pauta batizada de “popular”, mesmo quando ela é, na prática, um estelionato eleitoral.

O editorial vai além do diagnóstico e também mira o comportamento da classe política em torno do tema: fala em “políticos pusilânimes e oportunistas” que formam “uma quase unanimidade covarde e destituída de qualquer resquício de vergonha” ao patrocinar ou aderir à ideia da redução de jornada, mesmo sabendo — porque é impossível não saber — que o resultado se voltará contra o próprio trabalhador e contra toda a sociedade. É a foto exata do oportunismo eleitoral: vender hoje uma vantagem que se paga caro depois.

O que a Band teve a lucidez de dizer é o que qualquer aluno de economia básica sabe e a maioria dos políticos prefere fingir que não sabe: engessar e encarecer a contratação tem preço, e esse preço não é pago pelo empresário que supostamente “explora” — é pago pelo próprio trabalhador, em forma de menos vaga, menos formalização, menos oportunidade. A conta vem depois, como sempre vem, e vem para quem menos pode pagar.

O editorial termina com uma frase que devia ser moldura em toda redação disposta a fazer jornalismo e não militância: “Este voto que querem conquistar com mentiras pode eleger uma tragédia na vida real do eleitor.” Numa imprensa brasileira em que a unanimidade costuma pender para o lado contrário, é bom registrar quando alguém, com uma trajetória editorial coerente, tem a disposição de nomear as coisas pelo nome certo.

3 – Uma mulher no time dos vikings

Enquanto o Brasil lambia as feridas da eliminação, a Noruega vivia um dos capítulos mais bonitos da sua história recente no futebol, voltando a um Mundial depois de 28 anos de jejum. E por trás dessa reconstrução está uma figura pouco comentada pela imprensa esportiva brasileira: Lise Klaveness, 44 anos, ex-jogadora da seleção norueguesa, advogada e, desde 2022, a primeira mulher a presidir a Federação Norueguesa de Futebol (NFF) em mais de 120 anos de história da entidade.

O currículo de Klaveness explica bem o tipo de gestão que ela imprimiu. Como atleta, disputou 73 partidas pela seleção norueguesa e duas Copas do Mundo. Ao pendurar as chuteiras, formou-se em Direito pela Universidade de Oslo, atuou como advogada, foi juíza assistente em Oslo e trabalhou como assessora jurídica do Banco Central da Noruega. Tornou-se, ainda, a primeira mulher a comentar futebol masculino na televisão norueguesa — função em que precisou enfrentar comentários maldosos sobre sua aparência, e que, segundo ela mesma contou à Financial Times, transformou em combustível. Da TV, migrou para a gestão esportiva: primeiro como diretora técnica das seleções masculina e feminina, depois, em 2022, eleita presidente da federação. Hoje também integra o Comitê Executivo da UEFA.

À frente da NFF, colocou ordem numa casa que vinha de anos discretos: reformulou a estrutura de formação de jovens talentos, fortaleceu o futebol de base sem retirar precocemente os jogadores de seus clubes de origem, e devolveu à seleção masculina — hoje estrelada por Erling Haaland — a competitividade que faltava desde 1998. Não abriu mão, no caminho, de posições firmes: cobrou da Fifa responsabilidade sobre trabalhadores imigrantes mortos nas obras do Catar e questionou a entrega, sem aval do conselho, de um prêmio da Fifa a Donald Trump.

É uma nota pequena diante do tamanho da história, mas vale o registro: enquanto por aqui a novela de sempre — bastidores, egos, escândalos de arbitragem — segue dominando a pauta do futebol nacional, lá fora há federações sendo geridas com competência técnica, planejamento de longo prazo e resultado em campo. Detalhe que devia incomodar mais do que incomoda.

4 – O Paraguai que continua roubando a cena — e as fábricas

Já não é novidade por aqui, mas o tema volta com força total: empresas brasileiras continuam de olho, e cada vez mais de mala pronta, para instalar operações industriais no Paraguai. Depois de nomes como Lupo e Döhler, que já abriram caminho, outros grupos avaliam com seriedade os incentivos fiscais e a estrutura de custos do país vizinho, segundo reportagem do Valor Econômico.

A receita paraguaia é simples e, por isso mesmo, incômoda: impostos mais baixos, energia abundante e barata — o país é dono de uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, Itaipu, dividida justamente com o Brasil, e ainda assim sobra energia de sobra para atrair indústria —, além de burocracia mais enxuta e regras trabalhistas mais simples. Nada de segredo industrial, nada de vantagem que dependa de sorte ou geografia — é política pública, decisão de Estado, resultado de quem entendeu que atrair capital produtivo exige competitividade, não discurso.

O caso de empresas como Lupo e Döhler, que já se instalaram no país vizinho, não é mais exceção: é sinal de tendência. Outros grupos brasileiros avaliam, com seriedade cada vez maior, transferir parte ou toda a operação industrial para lá, atraídos por uma combinação que o Brasil insiste em não oferecer — carga tributária competitiva, previsibilidade regulatória e custo de energia que não pesa no balanço.

O Brasil, enquanto isso, segue tratando a “guerra fiscal” como se fosse uma disputa entre estados brasileiros, quando na verdade a disputa real já é continental. Cada fábrica que migra para o Paraguai é uma vaga de emprego que não se cria aqui, um imposto que não se recolhe aqui, uma cadeia produtiva que se desloca — silenciosamente — para o país vizinho. E o pior: sem que isso pareça provocar qualquer reação de política industrial à altura do desafio. A concorrência não está esperando educadamente a nossa vez.

5 – Larry Ellison “empobrece” 100 bilhões de dólares — e o mundo sobrevive

Nem toda perda de fortuna merece condolências, e esta é prova disso. A Forbes registrou que Larry Ellison, cofundador e presidente do conselho da Oracle, viu seu patrimônio encolher cerca de 100 bilhões de dólares em poucas semanas — o suficiente para cair da 2ª para a 7ª posição no ranking dos mais ricos do mundo, ultrapassado por Mark Zuckerberg.

Para se ter a exata dimensão do tombo: no início de junho, Ellison havia superado brevemente a marca de 300 bilhões de dólares, chegando a ser, por instantes, o segundo homem mais rico do planeta, atrás apenas de Elon Musk. Bastaram algumas semanas de queda nas ações da Oracle — o papel teve seu pior desempenho semanal desde 2001 — para sua fortuna recuar a cerca de 192 bilhões de dólares, ficando atrás dos 194,1 bilhões de Zuckerberg. Perder 100 bilhões de dólares e ainda assim continuar entre os dez homens mais ricos do planeta: para qualquer mortal comum, isso nem entraria na categoria de tragédia.

Vale o esclarecimento, para não alimentar ilusões: não é como se 100 bilhões de dólares tivessem “saído da conta” de Ellison. Trata-se de valorização de mercado — ações da Oracle, das quais ele detém cerca de 40%, que sobem e caem ao sabor do humor dos investidores. O dinheiro nunca existiu fisicamente para sumir; é papel que engorda e desincha o patrimônio no papel. Mas se para ele isso já é motivo de manchete internacional, imaginem para nós, mortais que sentimos no bolso de verdade cada centavo que sobe no preço do quilo do arroz. No reino dos bilionários, “empobrecer” é uma categoria própria — que não guarda relação alguma com o significado que essa palavra tem para o resto da humanidade.

6 – O legado que ninguém quer herdar: a dívida pública nas alturas

A dívida pública brasileira não cresce por conta própria, como se fosse um organismo vivo e autônomo — ela é fruto direto de um governo que trata o equilíbrio fiscal com desprezo. Em modo eleitoral acelerado, o Planalto torra recursos em programas de propaganda disfarçados de política pública, multiplica gastos obrigatórios e novos benefícios, e gasta sistematicamente mais do que arrecada. Alguém está segurando a torneira aberta, e esse alguém tem nome, mandato e discurso. É nesse cenário que a dívida subiu acima do esperado e já supera 81% do PIB, com déficit primário de R$ 56,1 bilhões só em maio, enquanto a despesa com juros consome uma fatia cada vez maior do orçamento.

Esse desequilíbrio fiscal não fica restrito às planilhas do Tesouro: é combustível direto para a inflação e para os juros nas alturas que todo brasileiro sente no bolso. Quando o governo gasta além do que arrecada e o mercado passa a duvidar de sua disciplina fiscal, o Banco Central precisa manter a Selic elevada por mais tempo só para conter os efeitos dessa gastança sobre os preços. A Selic nas alturas, o crédito caro, a parcela do financiamento que não cabe no orçamento da família — tudo isso tem uma origem comum, e ela está na irresponsabilidade fiscal do Planalto, não no acaso.

Não é exagero chamar isso de legado — no sentido mais perverso da palavra. Cada real gasto para pagar o serviço da dívida é um real que não vai para investimento, para infraestrutura, para políticas públicas de fato transformadoras. É dinheiro que se esvai das contas do país por causa de uma administração que escolheu gastar sem freio, sem inauguração, sem placa, sem cerimônia — mas com efeito concreto e duradouro sobre a vida de quem paga a conta: o contribuinte.

Há projeções — e o leitor pode conferir por conta própria a robustez desses números, que variam segundo a fonte e o cenário considerado — de que, mantida a trajetória atual de irresponsabilidade fiscal, em poucos anos o espaço do orçamento fique cada vez mais estreito, dedicado quase que exclusivamente a despesas obrigatórias e ao pagamento de juros, sobrando cada vez menos para o que realmente importa. Não é profecia catastrofista: é aritmética. E aritmética, ao contrário de discurso político, não tem lado — mas tem sempre um responsável

7 – A ponte que não existe e o cano sem água: o ridículo em dose dupla

A pressa eleitoral explica coisas que a razão jamais explicaria. Lula se expôs ao ridículo ao “inaugurar” — entre aspas, porque a palavra aqui perde todo o sentido — uma ponte que não existe e um cano sem água, ambos às vésperas do início do período que veda esse tipo de palanque governamental.

A cena da ponte foi eternizada por uma placa que, ao mesmo tempo, anunciava que “a ponte chegou” e que “a maior obra da história da Bahia está começando”. Um paradoxo tão gritante que dispensa qualquer comentário adicional — a própria placa se autodenuncia. A Ponte Salvador-Itaparica, a maior sobre o mar na América Latina, tem previsão de conclusão em 2031. Ou seja: mesmo que Lula seja reeleito para um quarto mandato, ele não estará lá para cortar a fita de verdade.

Já o cano sem água — o túnel Major Sales, que deve levar água do rio São Francisco ao Rio Grande do Norte — rendeu um episódio digno de comédia de costumes. Diante da ausência do líquido prometido, Lula repreendeu publicamente o engenheiro responsável e sugeriu que a população local ficasse à meia-noite à beira do túnel, “fazendo festa”, para receber a água que, segundo prometido, chegaria àquela hora. Pediu, inclusive, que tudo fosse filmado.

O ápice, porém, foi a confissão do próprio presidente sobre os limites — e o desprezo por eles — da legislação eleitoral: “A partir de amanhã, eu não posso inaugurar mais obra por causa das eleições. Mas eu posso visitar obra.” E arrematou, sobre a vedação legal: “Isso é uma papagaiada desgraçada.” Papagaiada desgraçada é, de fato, uma boa definição — só que não para a lei, e sim para o espetáculo de inaugurar o que não está pronto, só para não perder a oportunidade de aparecer.

8 – Um ingresso, três anos de trabalho: o retrato cruel da produtividade brasileira

Um levantamento do Instituto Millenium trouxe um número que resume, com uma crueza quase didática, o tamanho do abismo que separa a economia brasileira das economias desenvolvidas: um trabalhador brasileiro que recebe um salário mínimo precisaria acumular mais de três anos de renda integral — sem gastar um centavo com mais nada — para comprar um ingresso premium para a final da Copa do Mundo, estimado em US$ 10 mil. Um trabalhador alemão precisaria de apenas quatro meses.

A explicação, segundo o CEO do instituto, Ricardo Gomes, não tem nada de mistério nem de conspiração contra o pobre: salários refletem produtividade, e produtividade se constrói com capital, tecnologia, educação e ambiente regulatório eficiente. “Ninguém vai contratar por R$ 10 mil um funcionário que produz R$ 2 mil”, resume ele, com uma objetividade que a demagogia política raramente tolera.

O ponto mais importante do levantamento, porém, é o que ele desmonta: a ideia de que a solução para essa discrepância seria simplesmente decretar salário mínimo mais alto. Como bem lembra o próprio instituto, aumentar salário por decreto é fácil; o difícil — e o que realmente resolveria o problema — é criar condições para que o poder de compra cresça de forma sustentável. E isso, some-se à nossa análise, tem relação direta com um mercado de trabalho mais flexível e produtivo, não mais engessado — o que nos leva de volta, não por acaso, à discussão sobre a escala 6×1 que abre este bloco de notas.

9 – A Noruega de novo: o país mais produtivo entre os que foram à Copa

Se o adversário do Brasil na Copa não deixou saudade, ao menos deixou uma lição. Segundo levantamento do colunista Pedro Fernando Nery, do Estadão, a Noruega lidera o ranking de produtividade entre os países que disputaram o Mundial — Brasil, Paraguai, Marrocos, Haiti, Japão, Canadá, Alemanha, França, Suíça, Suécia, Bélgica, Holanda e Estados Unidos inclusos.

A produtividade do trabalhador norueguês, segundo o levantamento, é de cerca de R$ 300 por hora — seis vezes a média brasileira, de R$ 50, e trinta vezes a do Haiti, o país de menor produtividade entre os participantes. Nery faz uma ressalva importante: ser produtivo não significa ser mais esforçado. A Noruega é fortemente dependente do petróleo, que responde por mais da metade de sua pauta exportadora, e isso ajuda a explicar por que a hora de trabalho ali vale tanto — não porque o norueguês trabalhe mais, mas porque o ambiente econômico ao redor dele — capital, tecnologia, boas escolas, boas universidades — multiplica o valor de cada hora trabalhada.

A pergunta que o próprio colunista levanta é honesta e incômoda: a Noruega é produtiva porque é rica, ou é rica porque é produtiva? Provavelmente as duas coisas, alimentando-se uma da outra. E é exatamente esse círculo — investimento, capital humano, ambiente institucional — que o Brasil, entre debates de jornada de trabalho e promessas eleitorais, segue empurrando para depois.

10 – Rita Lobo e a comida de verdade que nossos pais e avós já comiam sem medo

Há um cheiro que a memória não esquece: o do feijão cozinhando devagar na cozinha da infância, sem pressa e sem rótulo. É a esse cheiro que Rita Lobo, cozinheira, escritora e empresária, dedica a vida como uma das principais vozes do movimento por “comida de verdade” — aquele que combate o avanço dos ultraprocessados e resgata hábitos alimentares simples, os mesmos que nossos pais e avós praticavam sem culpa, sem contagem de macronutrientes.

A trajetória de Rita Lobo tem um quê de conversão: ex-modelo, circulou por passarelas e aeroportos do mundo até descobrir que o que realmente a encantava não eram as vitrines, e sim as mesas e os mercados de cada cidade que visitava. De volta ao Brasil, trocou a carreira nas passarelas por cursos de gastronomia e, em 2000, criou o Panelinha — hoje, quase 25 anos depois, uma plataforma multimídia com escola de culinária, editora de livros, produtora de conteúdo e mais de 5 milhões de acessos mensais ao site. Rita também comandou por 12 anos o programa “Cozinha Prática”, do GNT, antes de se dedicar em tempo integral ao próprio projeto.

Seu argumento central é simples e, por isso mesmo, difícil de contestar: comida de verdade é a que se faz com as próprias mãos, a partir de ingredientes reconhecíveis — o feijão que é só feijão, o iogurte que é só leite e fermento — e não o produto industrial pronto para consumo, carregado de aditivos que nem sequer sabemos pronunciar. Ela chegou a levar essa bandeira a Londres, para o lançamento de uma série da revista científica The Lancet sobre os riscos dos ultraprocessados à saúde global — um reconhecimento e tanto para quem começou escrevendo receitas num blog.

Há algo de simbólico nesse movimento: muitas dessas comidas — o feijão bem-feito, o arroz sem aditivo, o tempero fresco — foram, ao longo das últimas décadas, deixadas de lado em nome da praticidade e da moda nutricional de ocasião, para depois retornarem, agora com aura de sofisticação, como “descoberta” de quem busca qualidade de vida. Rita Lobo é uma das vozes mais consistentes nesse resgate, e merece o registro por insistir numa causa que é, ao fim, uma causa de saúde pública.

11 – A piada de Zelensky que resume a guerra melhor que qualquer editorial

Para fechar com humor — ainda que um humor de guerra —, a cúpula da Otan em Ancara ofereceu um dos momentos mais espirituosos da diplomacia recente. Ao ser informado por Donald Trump de que Vladimir Putin sugerira um encontro em Moscou para discutir o fim da guerra, e questionado se aceitaria ir, Volodymyr Zelensky respondeu, sem titubear: “É difícil. Há muitos drones ucranianos lá. É perigoso.” A resposta arrancou risadas de todos ao redor, inclusive do próprio Trump, que concordou: “Sim, está difícil ir a Moscou.”

A piada não é gratuita — é dado de realidade. A Ucrânia realizou ataques de drones à própria capital russa e a São Petersburgo, demonstrações de força de um país invadido há três anos que insiste em provar que ainda tem iniciativa na guerra, mesmo diante do desequilíbrio de forças. E o timing da piada não poderia ser mais oportuno: Trump, que dias antes irritara-se com a resistência de Zelensky aos planos de paz draconianos propostos por Putin — que, na prática, equivaliam à rendição ucraniana —, mudou novamente de tom, elogiando abertamente o desempenho do presidente ucraniano e sua eficácia no uso do equipamento militar americano.

A lição vem embrulhada em piada: negociar com quem invadiu seu território não é exatamente um convite ao chá da tarde. E Zelensky, com uma frase só, resumiu isso melhor do que qualquer análise geopolítica de mil palavras.

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