Opinião

Um país craque em fazer gol contra

Há uma certa unanimidade em se atribuir o atraso econômico do Brasil a uma combinação de incompetência, ineficiência, populismo e corrupção.

Há quem acrescente ainda mais um ingrediente, sintetizado pelo ex-ministro Roberto Campos com precisão implacável: “Deus errou — limitou a inteligência e não limitou a burrice.”

No sertão do Ceará, a 200 quilômetros de Fortaleza, todos esses elementos se encontram numa única jazida.

Em 1976, o Brasil descobriu no sertão do Ceará uma das maiores reservas de urânio do mundo.

Cinquenta anos depois, não foi extraída uma tonelada sequer. A jazida de Santa Quitéria, no município cearense a pouco mais de 200 quilômetros de Fortaleza, guarda também enormes depósitos de fosfato — matéria-prima essencial para fertilizantes, insumo que o Brasil importa em volumes crescentes para sustentar justamente o agronegócio que alimenta o mundo.

O país dorme sobre um tesouro duplo e acorda todo dia para comprar do vizinho o que tem debaixo dos próprios pés.

A reportagem de Geraldo Samor e Luciano Costa, publicada pelo Brazil Journal na semana passada, narra o verdadeiro calvário que vive o Projeto Santa Quitéria.

O Consórcio formado pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e pela Galvani acumula 22 anos de idas e vindas no Ibama. A licença prévia foi negada em 2019. Nova solicitação foi protocolada em 2020. Em 2024, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) aprovou a instalação do beneficiamento de urânio — mas esse aval não se sobrepõe ao licenciamento ambiental, que segue parado.

O mais recente entrave é digno de nota: a Funai quer promover um debate com comunidades indígenas antes de emitir sua manifestação. A reserva indígena mais próxima fica a 33 quilômetros. A legislação só exige consulta prévia em casos de proximidade de até 3 quilômetros. “Tem dez vezes mais distância, e mandaram o processo para a Funai”, resumiu uma fonte ao Brazil Journal.

Enquanto isso, o Brasil importa urânio e fertilizantes fosfatados.

Quem ganha com isso, é a pergunta que o texto deixa no ar — e que ninguém em Brasília parece interessado em responder.

Santa Quitéria não é uma anomalia. É um retrato fiel do país.

O mesmo mecanismo que paralisa uma mina estratégica no Ceará opera com eficácia demolidora em outros setores.

O agronegócio — maior gerador de divisas do Brasil, responsável por sustentar o equilíbrio da balança comercial em anos em que tudo mais falha — convive com um cerco permanente.

ONGs financiadas por governos estrangeiros produzem relatórios sob encomenda, alimentam campanhas de boicote na Europa e fornecem munição para que blocos comerciais imponham barreiras sanitárias e ambientais ao produto brasileiro.

A finalidade raramente é proteger florestas. O motivo é proteger mercados. E dentro do próprio país, organizações ideologicamente alinhadas à esquerda reproduzem esse trabalho com dedicação, atacando o setor que mais emprega, mais exporta e mais gera riqueza real na economia nacional.

A indústria sofre por outra via. A abertura indiscriminada às importações chinesas — produtos feitos com mão de obra quase escrava e vendidos a preços que nenhuma fábrica brasileira consegue competir, dada a carga tributária que a corrói — vai eliminando linhas de produção, fechando plantas, dispensando trabalhadores.

Não há política industrial que resista a um ambiente onde o Estado tributa o produtor local até o limite do impossível e simultaneamente abre as fronteiras para quem não joga sob as mesmas regras.

A reforma tributária, que chegou anunciada como solução — ou ao menos como simplificação de um manicômio fiscal que há décadas afasta investidores do país —, trouxe consigo a promessa de que os impostos não aumentariam. Essa promessa já não se sustenta. Os especialistas convergem: a carga vai crescer.

Em um país que já figura entre os que mais tributam em relação ao retorno que oferecem ao contribuinte, isso não é detalhe — é sentença.

Há, porém, uma coisa que funciona no Brasil com invejável sucesso: a impunidade. O escândalo do Banco Master — crime organizado de colarinho branco em escala sistêmica — já tem a pizza no forno.

O sistema se movimenta com a agilidade que nunca dedicou ao licenciamento de Santa Quitéria: blindar os figurões, esvaziar as investigações, transformar escândalos bilionários em processos intermináveis que morrem de velhice nas gavetas do Judiciário.

Não é novidade. A Lava Jato, operação que chegou a fazer o país acreditar que a impunidade tinha prazo de validade, foi meticulosamente desmontada — condenações canceladas, multas anuladas, réus reabilitados.

No front do crime organizado, a leniência de décadas permitiu que facções criminosas se expandissem de Norte a Sul, cruzassem fronteiras e se tornassem, com toda a vergonha que isso carrega, um dos mais sólidos artigos de exportação do país.

O resultado acumulado de tudo isso tem nome: autossabotagem.

Não a sabotagem praticada por um inimigo externo identificável, mas a mais perversa das formas — aquela que vem de dentro, que se disfarça de cautela ambiental, de proteção social, de isonomia tributária, de respeito às minorias.

O Brasil é um país que, quando encontra um caminho para prosperar, trata de cercar esse caminho de obstáculos, criar comitês para estudar os obstáculos, acionar instâncias para revisar os estudos dos comitês, e ao final constatar, com falsa perplexidade, que o caminho continua bloqueado.

Em Santa Quitéria, o urânio está lá desde antes de o Brasil ter terminado de se descobrir. Daqui a cinquenta anos, se nada mudar, continuará lá — intacto, inerte, inútil.

Uma riqueza perfeita para um país que aprendeu a se conformar com o que poderia ter sido.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo