Opinião

Grande imprensa ignora prêmio concedido aos jornalistas da Vaza Toga. Medo da censura?

Alguns prêmios apenas celebram. Outros, sem querer, expõem — e foi o que aconteceu quando o Free Speech Courage Award saiu da Inglaterra rumo ao Brasil e, no caminho, parece ter se perdido.

Um prêmio internacional pela defesa da liberdade de expressão deveria ser, por definição, notícia. Quando o prêmio reconhece justamente uma investigação que expôs abusos do próprio Judiciário brasileiro, deveria ser ainda mais. Pois bem: no Brasil, ele quase não foi notícia nenhuma. E esse silêncio, mais do que omissão, é resposta.

Há poucos dias, em Londres, dois jornalistas brasileiros subiram a um palco que muitos por aqui sequer sabem que existe.

Pisaram no Westminster Free Speech Forum, hoje em sua terceira edição, organizado pela Civilization Works, a entidade fundada pelo americano Michael Shellenberger — nome que, no jornalismo investigativo sobre censura, dispensa qualquer cartão de visitas.

Ali, sob as regras de Chatham House, que permitem que se discuta o indiscutível sem o peso da exposição pública, David Ágape e Eli Vieira receberam o Free Speech Courage Award. Ao lado deles, também homenageado, o deputado federal Marcel Van Hattem, do Novo gaúcho.

O motivo do prêmio não é trivial nem decorativo. Reconheceu-se o trabalho da Vaza Toga 2, investigação que expôs documentos internos do Judiciário brasileiro revelando como publicações em redes sociais foram transformadas em munição para justificar prisões e manter detenções ligadas aos episódios de 8 de janeiro.

Não é pouco: é a radiografia de um sistema que decidiu que postagem se pune como insurreição, e que indignação nas redes — por mais deselegante, por mais infeliz que possa ser — se converte, por decreto togado, em ameaça ao Estado.

Ao recolher a honra, Ágape dedicou o prêmio às vítimas do 8 de janeiro e a todos que continuam pagando o preço de simplesmente buscar a verdade. Não foi um gesto de vaidade. Foi uma homenagem devolvida ao próprio país que mal soube que a recebeu.

E aqui está o ponto que interessa, o verdadeiro nervo exposto desta história: a repercussão no Brasil foi praticamente nula.

Não por falta de furo, não por irrelevância do fato — um prêmio internacional concedido por liberdade de imprensa é, por definição, notícia.

A omissão foi seletiva, cirúrgica, quase artesanal.

A Folha de S.Paulo, avisada com antecedência pelo próprio Van Hattem sobre os três nomes premiados, preferiu noticiar apenas o parlamentar, ilustrando a matéria com uma fotografia antiga dele ao lado de Jair Bolsonaro — o bastante para encaixar o fato numa gaveta política já catalogada, e o suficiente para apagar os jornalistas da fotografia e da história. Van Hattem pediu a correção. O silêncio, esse sim, foi atendido prontamente: o pedido foi ignorado.

Não se trate de procurar aqui inveja corporativa ou disputa de audiência — seria explicação cômoda e, convenhamos, infantil.

O portal A Investigação, por mais relevante que seja seu trabalho, não compete em alcance com os grandes conglomerados de comunicação do país. Não havia concorrência a temer, não havia espaço a disputar. Havia, isso sim, uma escolha. E escolhas, ao contrário de acidentes, revelam caráter.

É exatamente nesse ponto que a omissão deixa de ser desinteresse editorial e se torna prova documental.

Porque a censura mais eficiente nunca foi aquela que se anuncia com aparato de Estado, com mordaça visível, com toga batendo o martelo. A censura mais eficiente, a mais covarde e a mais bem-sucedida, é a que a própria imprensa exerce sobre si mesma, antes que qualquer ordem precise ser dada.

A autocensura não precisa de despacho judicial: ela já antecipou o medo, internalizou o risco, calculou o custo de incomodar quem incomoda. E se calou.

Um país em que os grandes veículos preferem o vazio à notícia incômoda não está apenas escolhendo o que noticiar — está revelando, com toda clareza, quem ainda tem medo de falar.

A tarefa de registrar o que deveria ser manchete nacional sobrou para a imprensa independente — Gazeta do Povo, Revista Oeste, Diário do Poder.

E foi nas redes sociais, esse purgatório bagunçado que tanto incomoda os arquitetos do silêncio institucional, que a notícia finalmente escapou pelas frestas que o silêncio profissional não conseguiu vedar por completo.

A ironia é cruel e perfeita: o prêmio que celebra a coragem de falar foi, no Brasil, recebido com o exato comportamento que ele denuncia.

Neste episódio, o silêncio dos que deveriam ter falado grita mais alto que qualquer manchete. E o diagnóstico mais sombrio sobre o estado da liberdade de imprensa no Brasil não precisou de testemunha, de processo ou de inquérito relatado por ministro algum: bastou a própria imprensa confirmá-lo, calando-se.

David Ágape resumiu, com a sobriedade de quem já entendeu o jogo, o que continuará fazendo: investigar o que tentam esconder, publicar o que os documentos mostram e deixar que os fatos falem por si.

É curioso — e revelador — que, justamente por isso, tantos tenham preferido fingir que não ouviram nada..

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