Fracasso no combate à criminalidade impõe sucessivas derrotas à esquerda na AL

Em pouco mais de um ano, sete países latino-americanos foram às urnas para eleger presidente — e os sete escolheram a direita.
É difícil lembrar de um pêndulo regional que tenha oscilado com tamanha velocidade. Com exceção do Brasil e do México, praticamente todo país de peso na América Latina hoje tem à frente um líder que corteja Donald Trump ou que, ao menos, compartilha ideias dele.
O mais recente é o colombiano Abelardo de la Espriella, declarado presidente eleito em 24 de junho após disputa apertadíssima — autodenominado “El Tigre”, com a promessa de “caçar” gângsteres “em seus esconderijos”.
Seria conveniente, e também enganoso, descrever esse fenômeno como simples devoção ao trumpismo. Não é.
O que se vê é o esgotamento de uma paciência: eleitores cansados de gangues, do crime organizado avançando sobre territórios inteiros, da imigração ilegal descontrolada — e de governos de centro e de esquerda que, diante desses temores, não souberam oferecer resposta.
Populistas de direita chegaram com discurso de linha-dura, e a lógica é simples de entender: se Trump pode deportar em massa, por que nós não poderíamos? Se ele pode atacar embarcações de narcotráfico, por que deveríamos seguir sendo tolerantes? A mensagem vendeu — e, de bônus, ainda agrada à vaidade do próprio Trump, que recebe a imitação como elogio.
O exemplo mais eloquente desse apelo é Nayib Bukele. Em El Salvador, o presidente prendeu legiões de suspeitos sem julgamento e transformou o país de capital mundial do homicídio em um lugar tão seguro quanto o Canadá.
Se funcionou ali, por que não funcionaria em outros territórios sequestrados pelo crime? É essa pergunta — não a admiração por um líder estrangeiro — que está movendo o voto latino-americano.
Há também a dimensão econômica, e ela pesa mais do que se costuma admitir. A região depende do comércio com os Estados Unidos, e países alinhados com Washington colhem vantagens concretas: isenção das tarifas mais pesadas e, em alguns casos, ajuda direta.
A Argentina é o exemplo mais claro. As reformas de Javier Milei, dolorosas mas necessárias, dificilmente teriam sobrevivido sem uma Casa Branca favorável — o Tesouro americano concedeu ao país uma linha de crédito de US$ 20 bilhões justamente para evitar uma crise cambial. Alinhamento ideológico, nesse caso, converteu-se em oxigênio fiscal.
E há, por fim, a frente militar — talvez a mais subestimada das três.
Desde que Trump substituiu o ditador venezuelano por sua vice, mais maleável, forças americanas vêm ajudando o governo da Venezuela a retomar minas de ouro que estavam nas mãos de quadrilhas criminosas.
É um resultado concreto, palpável, do tipo que não cabe em discurso de campanha.
Não por acaso, os países andinos que produzem e exportam a maior parte da cocaína mundial — Bolívia, Colômbia, Equador e Peru — estão hoje ideologicamente mais próximos de Washington do que em qualquer momento desde a década de 1970.
Todos já mantém ou buscam cooperação militar com os americanos.
Convém a ressalva: não se trata de onda esmagadora, e o Brasil e o México lembram que o pêndulo ainda encontra resistência. Mas a tendência vem se confirmando eleição após eleição, e seria ingenuidade tratá-la como acidente estatístico.
O padrão que se repete na Colômbia, no Peru, em El Salvador e na Argentina encontra eco direto na realidade brasileira, onde pesquisas mostram, de forma esmagadora, uma população exausta de ver o crime organizado prosperar enquanto políticas de combate se mostram inócuas — não é coincidência, é repetição de causa e efeito.
A América Latina não está copiando os Estados Unidos. Está, isto sim, fazendo as contas: de um lado, décadas de promessas brandas que não venceram o crime; do outro, resultados — ainda que parciais, ainda que contestáveis — que se podem medir em minas retomadas e em capitais que deixaram de liderar rankings de homicídio.
Entre discurso e resultado, o eleitor latino-americano já escolheu o que prefere pesar na balança.



