Bloco de Notas

- Lula não convence eleitor sobre combate ao crime organizado
Uma pesquisa não muda o Brasil, mas às vezes revela o que ele já sabe de si mesmo. É o caso do levantamento BTG/Nexus recentemente divulgado que colocou lado a lado a percepção dos eleitores sobre Lula e Flávio Bolsonaro em segurança pública. O resultado é desconfortável para o Planalto: no combate ao crime organizado, o senador é apontado como mais capaz por 53% dos entrevistados, contra 34% do presidente. Na segurança pública em geral, a distância se repete, 53% a 38%. No combate à corrupção, 44% a 37%.
O mais revelador é a geografia da rejeição. A dificuldade não se limita ao eleitorado hostil ao petismo. Ela aparece também no Nordeste, reduto historicamente fiel a Lula, onde Flávio ainda vence por 48% a 43% no quesito crime organizado. No Sul, a diferença é de 59% a 23%. O que a pesquisa mede, sem dizer, é o preço de duas décadas de um projeto de poder que preferiu tratar o crime organizado como problema social a ser compreendido, e não como ameaça a ser combatida. O bandido, nessa gramática, é sempre vítima antes de ser autor. A conta chegou, e chegou até no Nordeste.
- US$ 11 bilhões em 30 dias: a empresa mais lucrativa do planeta não tem dono
Não fabrica produto. Não tem folha de pagamento de atletas. Não corre risco esportivo e não perde faturamento quando o favorito é eliminado antes da hora. A receita já estava contratada antes do primeiro apito. Essa empresa se chama Fifa, está registrada na Suíça como entidade sem fins lucrativos, e deve faturar entre US$ 9 bilhões e US$ 11 bilhões apenas com a Copa do Mundo disputada em junho e julho nos Estados Unidos, no México e no Canadá, a primeira a reunir 48 seleções.
O que a Fifa vende não é futebol. É atenção simultânea de seis bilhões de pessoas espalhadas por praticamente todos os fusos horários do planeta durante 39 dias. Esse ativo não se replica, não se substitui e não tem concorrente à altura, o que explica toda a engenharia de precificação construída em torno dele: ingresso com preço dinâmico, mercado de revenda oficial, hospitalidade VIP com ticket que rivaliza com private banking, licenciamento digital, eSports.
O produto em campo é o mesmo de sempre, 22 jogadores correndo atrás de uma bola. A diferença é que a Fifa aprendeu, em três décadas, a cobrar cada vez mais caro pelo direito de assistir a essa cena repetida. Poucas empresas do mundo têm o luxo de vender a mesma mercadoria há cem anos e ainda assim bater recorde de faturamento a cada edição.
- A Fiesp não fez cerimônia
Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de duzentos anos de cooperação bilateral. A frase não é de um analista de oposição nem de um deputado adversário do Planalto. É da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, em nota divulgada após a confirmação da sobretaxa de 25% sobre exportações brasileiras ao mercado americano.
A Fiesp lamentou, com profunda preocupação, a medida, e foi além: disse que a retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma condução técnica e pragmática das negociações, algo que a própria entidade afirma ter buscado nas audiências públicas realizadas nos Estados Unidos ao longo do último ano. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, lembrou que o mercado americano é o principal destino dos produtos brasileiros de maior valor agregado, e que esse novo pedágio se soma a uma realidade que a indústria nacional já conhece bem, carga tributária elevada e juros reais entre os mais altos do mundo.
O que a nota da Fiesp expõe, sem procurar eufemismo, é que muito do que hoje se ouve em off dos corredores empresariais finalmente ganhou palco público. Enquanto o marketing eleitoral do Planalto perceber que a narrativa da soberania rende voto, a corda entre Brasília e Washington só vai continuar sendo esticada.
- No Brasil, até o passado é incerto
A falência do Banco Santos foi decretada em 2005. Vinte anos depois, o processo ainda consegue surpreender. O corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, suspendeu a falência e afastou o administrador judicial responsável pela massa falida, Vânio César Pickler Aguiar, além de mais de trinta integrantes da equipe da ADJUD Administradores Judiciais. A decisão, tomada em caráter liminar a pedido do espólio do banqueiro Edemar Cid Ferreira, morto em 2024, impede, até nova determinação, qualquer venda de bens ou pagamento a credores.
Os motivos listados por Campbell não são triviais: oscilações contábeis sem justificativa técnica, ausência de auditoria independente, contratação de empresas ligadas ao próprio administrador, possíveis conflitos de interesse e questionamentos sobre ativos e passivos bilionários.
Há ainda a sombra nunca totalmente explicada de um incêndio que destruiu documentos do processo. “Permitir a continuidade da marcha processual sob a batuta de uma gestão sobre a qual pesam indícios robustos de opacidade, favorecimento familiar e quebra do dever de fiscalização geraria prejuízos de impossível reversão”, escreveu o corregedor. Duas décadas de litígio, dezenas de credores na fila, e o Judiciário brasileiro só agora descobrindo que talvez estivesse vigiando a própria falência com um olho fechado.
A frase de Pedro Malan sobre o passado incerto do país nunca pareceu tão atual, e tão cara para quem espera havia vinte anos por um pagamento que talvez nunca tenha sido calculado corretamente.
- A guerra dos agentes
A próxima disputa entre as empresas de pagamentos não será apenas por cartões ou carteiras digitais, mas por quem vai controlar os agentes de inteligência artificial capazes de comprar em nome dos consumidores. É a aposta declarada de Giancarlo Greco, presidente da Elo, em entrevista à Forbes Brasil. Segundo ele, a próxima revolução do setor será feita por softwares capazes de pesquisar preços, comparar produtos, negociar condições e fechar a compra, tudo mediante autorização prévia do usuário, sem que ele precise abrir um aplicativo ou preencher um formulário.
A tese já saiu do papel. Em parceria com a Decolar, a Elo testa um concierge digital baseado em inteligência artificial agêntica que organiza toda a jornada de uma viagem, da escolha de voos e hotéis ao pagamento, dentro de uma única conversa. O botão de comprar, nesse horizonte, é o próximo a desaparecer.
Quem hoje disputa a atenção do consumidor com aplicativo bonito e cashback vai disputar, em breve, a confiança de um assistente artificial que decide sozinho onde gastar o dinheiro de outra pessoa.
O consumidor dorme, sonha com a praia, e o agente compra a passagem por ele. Fica a pergunta que a reportagem não faz, mas que qualquer usuário deveria fazer antes de dormir tranquilo: de quem é a lealdade desse agente quando o interesse do banco e o interesse do cliente não coincidem?
- Uma em cada dezenove
Em mais de duas décadas, apenas 5% das ações penais envolvendo políticos e autoridades com foro por prerrogativa de função no Supremo Tribunal Federal terminaram em condenação. O número, levantado pelo Estadão a partir de dados do próprio STF, analisou 1.766 inquéritos abertos entre 2002 e 2025. Apenas 92 chegaram ao recebimento de denúncia. Das 544 ações penais analisadas, só 28 terminaram em condenação, uma em cada dezenove.
O índice baixo não nasce do julgamento em si. Nasce antes, num funil que começa na investigação e se estreita a cada etapa: 71% dos processos abertos entre 2002 e 2016 nunca tiveram a acusação julgada pelo Supremo, seja porque foram enviados a outra instância, seja porque a prescrição consumiu o prazo legal. “Se um juiz de primeira instância começa a deixar casos prescreverem, ele vai sofrer sanções. Se um ministro do Supremo faz isso, ou a PGR, não acontece nada”, resume o pesquisador Ivar Hartmann, do Insper.
A matéria não precisa dizer o que qualquer leitor atento já percebeu: por trás da estatística fria está uma Corte que convive, há anos, com empresários, políticos e figurões de proximidades pouco republicanas, e que descobriu, na morosidade, a forma mais elegante de nunca precisar dizer não a ninguém.
Impunidade, no Brasil, não é falha do sistema. É o próprio sistema funcionando como projetado.
- Camboriú quer ainda mais céu
A cidade catarinense que já ostenta alguns dos maiores prédios do mundo vai ficar ainda mais vertical. A prefeita Juliana Pavan deve sancionar nos próximos dias o novo Plano Diretor de Balneário Camboriú, que amplia as zonas onde é permitido erguer os arranha-céus que hoje dominam a orla e transformaram o município na réplica brasileira mais convincente de Dubai.
O que estava concentrado na Avenida Atlântica agora se espalha para os bairros, com corredores de desenvolvimento autorizados a receber torres de até 150 metros em terrenos maiores. A justificativa oficial fala em descongestionar a orla e financiar infraestrutura com o próprio dinheiro da verticalização, através da outorga onerosa.
Na prática, significa mais torres riscando o horizonte, mais gente disputando a mesma faixa de areia e mais fila de carros parados nas avenidas em janeiro. Há algo de misterioso nesse apetite que segue atraindo compradores de apartamento mesmo sabendo que no verão não se anda, não se estaciona e às vezes não se sai de casa.
Talvez o segredo de Camboriú não seja a vista do mar, mas a vista dos vizinhos, o espetáculo de ver, da própria varanda, quem também conseguiu comprar um pedaço daquele céu cada vez mais disputado.
- Conhecimento, cultura e solidariedade no Dia do Cooperativismo
Julho reservou à Lar Cooperativa mais do que uma data comemorativa. O Dia do Cooperativismo, celebrado no Lar Centro de Eventos, em Medianeira, reuniu lideranças, mulheres, jovens associados e filhos de associados em torno de um balanço que é também um convite ao futuro. “Além da celebração, esse encontro foi importante para avaliarmos o que precisamos fazer para seguir em evolução, pois sempre podemos melhorar em algum aspecto”, resumiu o diretor-presidente da Lar, Irineo da Costa Rodrigues.
A programação teve como ponto alto a palestra da presidente executiva do Sistema OCB, Tânia Zanella, que tratou da força do cooperativismo nacional e do papel das mulheres e dos jovens na continuidade dos negócios do campo. “Somos 12% da população brasileira, ou seja, 28 milhões de cooperados distribuídos nas mais de 4.300 cooperativas do país.
Quando olhamos para a grandiosidade desses números, estamos falando de família, porque o cooperativismo é pensar e agir de forma coletiva”, disse Zanella.
O evento também teve seu momento de solidariedade concreta: 796 itens arrecadados entre alimentos e produtos de higiene, destinados ao Lar dos Idosos. Em tempos de tanto discurso vazio sobre coletividade, uma cooperativa agroindustrial de Medianeira acaba de mostrar, sem precisar de palanque, o que significa dividir de verdade.
- O mimo que ninguém pediu
Encontros diplomáticos costumam terminar com fotos protocolares e comunicados morrendo ainda no primeiro parágrafo. A cúpula da Otan em Ancara preferiu terminar com armas de fogo. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan presenteou cada chefe de Estado e de governo com um revólver Magnum personalizado, a Gümüşay, apresentada como a primeira arma do tipo produzida na Turquia, acompanhada de seis cartuchos e de uma nota isentando o brinde dos controles de exportação.
As reações foram um estudo à parte sobre como cada líder lida com um constrangimento diplomático. O premiê do Canadá, Mark Carney, entregou a arma à polícia e brincou que seu próprio presente, um pote de xarope de bordo, havia sido “um tanto insuficiente”. Keir Starmer deixou a pistola na Turquia, já que importá-la seria ilegal no Reino Unido. A Bélgica encaminhou o revólver direto para a delegacia do aeroporto. Alemanha e Países Baixos preferiram deixar as armas nas próprias embaixadas em Ancara. Ursula von der Leyen agradeceu, mas destinou o presente a um museu militar, destino também escolhido pela Grécia. Giorgia Meloni foi a mais pragmática, incorporou a arma ao patrimônio oficial do Palazzo Chigi. Já o croata Zoran Milanović só descobriu o presente depois de voltar para casa e resumiu com a ironia possível a quem governa um país que já viu muita guerra: “Eu não aceitei. Atiro com armas diferentes.” Da Casa Branca, nenhuma palavra sobre o destino do revólver de Donald Trump.
Diplomacia é isso, um jogo de gestos onde até uma arma engatilhada pode ser embrulhada em papel de presente.
- Cem anos depois, o futebol volta para casa
Em 8 de junho de 2030, a Copa do Mundo abrirá sua partida inaugural exatamente onde tudo começou, o Estádio Centenário, em Montevidéu. A escolha não é acaso, é celebração. Foi no Uruguai que, em 1930, treze seleções disputaram o primeiro título reconhecido pela Fifa, encerrando a era em que o futebol olímpico, disputado desde 1900, era o único campeonato relevante do esporte.
A final daquele ano, em 30 de julho, levou 68.346 pessoas ao Centenário e foi disputada com duas bolas diferentes, uma escolhida por cada seleção para cada tempo. A Argentina venceu o primeiro tempo por 2 a 1, mas o Uruguai reverteu no segundo e fechou em 4 a 2, conquistando o que a imprensa local chamou, à época, de terceiro título mundial, somando as duas conquistas olímpicas anteriores, em Paris e em Amsterdã.
O Brasil, para quem gosta de lembrar que nem sempre foi favorito, perdeu a estreia por 2 a 1 para a Iugoslávia e terminou o torneio na sexta colocação. Um século depois, o centenário será celebrado com uma Copa espalhada por seis países e três continentes, abertura no Uruguai, um jogo cada na Argentina e no Paraguai, e o restante disputado em Espanha, Portugal e Marrocos.
E já se fala que o número de seleções habilitadas poderá saltar das 48 deste para 64 no próximo torneio. Mais do que esporte, a Copa é um grande business.
- A elegância que a Argentina esqueceu em campo
A Argentina fez em campo tudo o que se espera de uma seleção que chega a uma final de Copa do Mundo, resiliência, capacidade de reação, aquele sangue nos olhos que só o futebol dos hermanos sabe produzir em doses tão concentradas. E destruiu tudo isso em poucos minutos, logo depois do apito final.
Derrotada por 1 a 0 na prorrogação, em gol de Ferran Torres, a seleção viu o lateral Nahuel Molina acertar um soco no peito do capitão espanhol Rodri, e o meio-campista Leandro Paredes provocar uma confusão generalizada ao empurrar Eric García e atingir Gavi.
Minutos depois, na cerimônia de entrega da taça, toda a delegação argentina atravessou o gramado e ficou de costas para o pódio espanhol, voltada para a própria torcida, ignorando o protocolo que reserva ao vice-campeão o papel de testemunha da consagração do rival. O jornal espanhol As chamou o gesto de desprezo e resumiu a final como uma partida em que a Argentina “se dedicou mais às jogadas desleais do que ao futebol”.
Fora de campo, o quadro não foi menos constrangedor. A Fifa abriu investigação sobre episódios de racismo envolvendo torcedores argentinos contra o influenciador americano IShowSpeed, hostilizado por vestir a camisa de Cabo Verde e, depois, alvo de um gesto explícito imitando um macaco durante a campanha da seleção rumo à final.
Um país lindíssimo, com uma história riquíssima e um povo que, em sua maioria, não merece ser resumido pelo pior momento de uma minoria inflamada, viu de novo sua imagem internacional manchada por quem trocou o futebol pela provocação e a grandeza pela birra.
Fica a piada, cruel e precisa, que o papa Francisco, ele mesmo argentino, eternizou ao descrever uma conhecida característica da personalidade de seus compatriotas. Numa conversa descontraída com a imprensa, ele perguntou a uma repórter se ela sabia como um argentino se suicida, e respondeu: “Ele sobe em cima de seu ego e se joga lá de cima.”
Raras vezes uma anedota resumiu tão bem uma noite de derrota.



