Bloco de Notas

- A musa e os musaranhos
Para chegar aos cem milhões de reais que pretendiam embolsar, Roberta Luchsinger atuava lado a lado com Lulinha e Fernando Bittar de olho num contrato de mais de seiscentos milhões de reais com o Ministério da Saúde, no qual o trio de lobistas ficaria com 20% de comissão.
O plano era dispensar licitação para vender produtos de canabidiol, extraído da planta da maconha, ao SUS.
Não é a primeira vez que o entorno petista se aproxima da prima-irmã da maconha como oportunidade de negócio: em 2020, no auge da pandemia, o Consórcio Nordeste contratou a Hempcare, originalmente voltada para produtos à base de cannabis, para comprar 300 respiradores pulmonares por R$ 48,7 milhões.
Para surpresa de ninguém, a empresa não tinha qualquer histórico no ramo, os equipamentos nunca chegaram e o dinheiro jamais voltou. Um dos petistas envolvidos justificou a escolha da fornecedora dizendo, candidamente, que não sabia falar inglês…
Outro detalhe revelador das intenções de Lulinha, Roberta e Bittar é o nome que eles escolheram para o grupo de WhatsApp onde tramavam a negociata: Musaranhos. Pode-se dizer que Roberta é a musa do título: bonita, articulada, do tipo que abre porta em Brasília só de entrar na sala — mas é o musaranho, não a musa, quem melhor descreve a gangue. O bicho é um mamífero de dez centímetros e quinze gramas que, apesar do tamanho, mata e devora presas duas vezes maiores que ele.
Precisa comer o equivalente ao próprio peso a cada três horas, sob pena de morrer de fome — algumas espécies quase não dormem para não perder tempo de caça. O coração bate 1.200 vezes por minuto, doze vezes mais rápido que o de um ser humano.
Quando se sente ameaçado, libera um odor comparável ao do gambá, e suas glândulas salivares produzem veneno tão potente quanto o de certas serpentes.
Resumindo: um roedor voraz, fedorento como gambá e peçonhento como cobra. Não foi preciso nenhuma investigação para descrever o trio; bastou deixá-los batizar a si mesmos, e deixar a musa, no fim das contas, com o apelido menos lisonjeiro do grupo.
- Educação pública do Paraná encosta na rede privada
Enquanto o país segue discutindo educação em tom de promessa de campanha, o Paraná decidiu apresentar planilha. Pela terceira edição consecutiva do Ideb, o estado lidera o ranking nacional nas três etapas da educação básica, com 6,9 nos anos iniciais do Fundamental, 5,8 nos anos finais e 5,1 no Ensino Médio — único estado do país a ultrapassar a marca de cinco pontos nessa etapa, historicamente a mais resistente a qualquer melhora.
O dado mais expressivo, porém, é o que há décadas soa quase utópico no Brasil: a distância de qualidade entre escola pública e escola privada está encolhendo de verdade no Paraná. Só entre 2023 e 2025, o hiato no Médio recuou de 1,2 para 0,8 ponto, uma redução de um terço em apenas dois anos, com a rede estadual avançando em ritmo superior ao da rede particular.
O avanço tem explicação concreta: desde 2019, foram 1.286 obras em escolas, R$ 1,9 bilhão investido em infraestrutura, mais de 665 mil itens de mobiliário entregues e R$ 900 milhões aplicados em inovação educacional, incluindo ferramentas de inteligência artificial aplicadas ao ensino de matemática.
Somente em 2025, 4.427 professores e pedagogos ingressaram na rede estadual, e a frequência escolar no Ensino Médio chegou a 86,6%, a maior do país, seis pontos acima da média nacional.
É o tipo de resultado que dispensa adjetivo e sobrevive a qualquer disputa ideológica: o aluno da escola pública paranaense está, ano após ano, mais perto do colega da escola particular, e o que sempre foi tido como diferença natural entre as duas redes começa a parecer, cada vez mais, uma questão de gestão — não de destino.
- Um jantar com Mendonça no cardápio
Reaproximar Lula e Davi Alcolumbre, rompidos desde a rejeição do nome de Jorge Messias ao STF pelo Senado, custou um jantar de três horas na casa de Alexandre de Moraes, no início do mês, fora de qualquer agenda oficial. Cristiano Zanin ajudou a temperar a reconciliação. Só que, segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o cardápio da noite trazia um prato extra: o que fazer para enfraquecer o ministro André Mendonça, relator de dois dos processos mais sensíveis do momento no Supremo — o do Banco Master e o das fraudes do INSS, ambos com potencial de complicar a reeleição de Lula.
Mendonça soube que seu nome circulou entre os talheres daquela noite e recebeu o alerta como se recebe aviso de tempestade: sem convite, mas plenamente incluído na pauta.
Reunir os desafetos e discutir como neutralizar o fiscal do momento na mesma refeição é uma economia de agenda digna de nota.
- A fraude que prendeu Felipe Martins
Está confirmado, e agora por fonte americana: não houve erro no registro de entrada de Filipe Martins nos Estados Unidos, houve fraude. O juiz Gregory Presnell, do Distrito Central da Flórida, indicado por Bill Clinton e sem qualquer vínculo com Donald Trump, reconheceu formalmente que o documento falso prejudicou consideravelmente uma pessoa, que o próprio governo americano admite a falsidade e a gravidade do episódio, e que Martins tem o direito de saber quem fez isso e por quê.
Filipe Martins, ex-assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência no governo Bolsonaro, é réu no núcleo da suposta trama golpista acusado de ter apresentado ao então presidente uma minuta de decreto prevendo, entre outras medidas, a prisão de ministros do STF — incluindo Alexandre de Moraes — sob o pretexto de questionar o resultado das eleições de 2022.
É essa acusação que o mantém no centro do inquérito que também investigou um suposto passaporte falso e uma viagem a Orlando que, segundo a própria geolocalização do celular de Martins, nunca aconteceu.
Foi justamente nesse registro fraudado de entrada nos Estados Unidos que Moraes se baseou para decretar sua prisão preventiva, em fevereiro de 2024. O ônus da prova acabou invertido, recaindo sobre o próprio preso: Martins reuniu passagens aéreas, corridas de aplicativo e deslocamentos rastreados entre Brasília, Curitiba e Ponta Grossa para provar que nunca saiu do Brasil no período da suposta viagem. Não adiantou. Ficou preso mesmo assim, baseado num indício que sequer chegava a ser prova.
Agora, a Justiça americana promete investigar quem fabricou o documento, esteja essa pessoa onde estiver — inclusive, dizem as autoridades, se estiver no Brasil.
Falta saber se o Supremo terá o mesmo interesse em revisar a decisão que esse documento sustentou.
- Frimesa: o doce de leite que ninguém esquece
Em meio a tanta notícia carregada de escândalo e operação policial, sobra espaço para uma nota sobre reconhecimento de mercado conquistado do jeito antigo: com produto de qualidade e trabalho sustentado.
A Frimesa, uma das maiores cooperativas de alimentos do país, é a marca mais lembrada espontaneamente pelos consumidores paranaenses na categoria doce de leite, com 12,9% das citações no Top of Mind Awareness Paraná 2026, estudo da Intelbrand realizado com 614 consumidores em oito cidades do estado. “Estar na liderança de uma categoria tão competitiva e disputada confirma um trabalho consistente de proximidade com o consumidor e de fortalecimento da marca no Paraná”, resume o presidente-executivo Elias José Zydek.
A cooperativa reúne famílias associadas à Copagril, Lar, Copacol, C.Vale e Primato, é a quarta maior processadora de suínos do Brasil, com mais de 560 produtos no portfólio e 48 mil clientes entre supermercados, atacado e indústria.
Fechou 2025 com faturamento bruto de R$ 7 bilhões, crescimento de 7% sobre o ano anterior, 26% vindos de exportação para quatro continentes. Quase 13 mil colaboradores sustentam a operação, distribuída em seis unidades industriais e 15 centros de distribuição. Uma potência do agro brasileiro.
- Já pode chamar de genocida?
A pergunta é do senador Flávio Bolsonaro, feita ao compartilhar reportagem da revista Veja sobre as mortes de indígenas na Terra Yanomami durante o governo Lula.
A provocação recupera, propositalmente, o termo que críticos de Jair Bolsonaro usaram à exaustão durante a pandemia. Os números, dessa vez levantados pelo próprio Ministério da Saúde e enviados ao Congresso, mostram 1.121 óbitos de indígenas na Yanomami entre 2023 e 2025, superando os 951 registrados em período equivalente da gestão anterior.
As causas seguem as mesmas de sempre: malária, pneumonia, desnutrição, somadas ao avanço do crime organizado sobre o território.
A gravidade da situação levou o presidente do STF, Edson Fachin, a procurar a senadora Damares Alves, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, para articular uma missão conjunta à Yanomami nas próximas semanas.
Além do quadro sanitário, os senadores pretendem investigar se parte dos mais de R$ 2 bilhões destinados à proteção do território durante o atual mandato simplesmente desapareceu no caminho.
A violência completa o retrato: 651 indígenas assassinados nos três primeiros anos de governo Bolsonaro, contra 677 sob Lula.
Moral da história: chumbo trocado não dói.
- A delação que ninguém quer receber
A defesa de Daniel Vorcaro tentou adiar o depoimento marcado para esta semana, na esperança de ganhar tempo para uma terceira tentativa de acordo de delação premiada sobre o escândalo do Banco Master. O pedido não vingou, e Vorcaro depôs mesmo assim — mas o apetite por delatar segue de pé, à espreita da próxima janela.
A Polícia Federal mantém a postura de sempre: não recusa nenhuma proposta de colaboração, desde que ela seja produtiva e traga fatos novos à investigação.
O detalhe curioso é que praticamente ninguém em Brasília parece ansioso para recebê-la.
Governo e oposição, esquerda e direita, políticos e membros do próprio Judiciário têm, cada um a seu modo, algo a perder caso Vorcaro decida contar tudo o que sabe sobre os bastidores do escândalo.
Raramente uma delação premiada reuniu um coro tão amplo e silencioso torcendo para que ela nunca se concretize — prova de que, no fim das contas, o segredo é o único patrimônio que ainda une gregos e troianos em Brasília.
- Lar Cooperativa reforça hospitais do Oeste do Paraná
Por meio de Termos de Reinvestimento firmados com a Secretaria de Estado da Saúde e a Secretaria da Fazenda, dentro do programa Paraná Competitivo, a Lar Cooperativa destinou R$ 519.247,00 para equipar dois hospitais filantrópicos da região.
O Hospital e Maternidade Nossa Senhora da Luz, em Medianeira, que atende cerca de 150 mil habitantes de sete municípios e destina 60% de sua capacidade ao SUS, receberá R$ 219.500,00 para um ventilador pulmonar, um carrinho de anestesia e um bisturi eletrônico, reforçando o centro cirúrgico e a UTI. Já o Hospital e Maternidade Padre Tezza, em Matelândia, mantido pela Associação Filhas de São Camilo e responsável por atender quase 100% de pacientes do SUS, receberá R$ 299.747,00 em equipamentos de diagnóstico por imagem, mamografia e assistência neonatal.
A execução dos projetos deve se estender até o início de 2027. É o tipo de investimento que não gera manchete nem operação com nome criativo, mas que se traduz, na prática, em diagnóstico mais rápido e cuidado mais digno para quem depende exclusivamente da saúde pública — um lembrete de que nem toda transferência de recursos no Brasil termina em inquérito.
- Pobre Lulinha, condomínio com quatro piscinas
O vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, garantiu que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, vive em “condições espartanas, precárias” na Espanha — e completou dizendo que, se os filhos de Lula tivessem cometido ilicitudes ao longo de três mandatos, “hoje era para esse cara estar rico”.
As imagens do condomínio Jardín de La Moraleja, nos arredores de Madri, reveladas pelo Metrópoles, sugerem uma definição bastante particular de austeridade: 40 mil metros quadrados de área, quatro piscinas externas, piscina interna aquecida, spa, sauna, sala de leitura, coworking, sala de dança e um espaço gastronômico de 115 metros quadrados, com direito a tobogãs e tirolesas nas áreas de lazer.
O aluguel de um apartamento ali gira em torno de 5 mil euros, cerca de R$ 30 mil.
A conta chega a se tornar mais interessante quando somada às denúncias de que parte das despesas do filho do presidente estaria sendo custeada pelo esquema de lobby de Roberta Luchsinger junto a empreiteiros e fornecedores do governo.
Se isso for austeridade espartana, os manuais de história precisam de uma revisão urgente — em Esparta, ao que se sabe, ninguém tinha coworking.
- O juiz natural que só existe para o filho do chefe
A Procuradoria-Geral da República pediu ao ministro André Mendonça que remeta à primeira instância um dos três inquéritos que investigam Fábio Luís Lula da Silva por tráfico de influência — o que trata das negociações de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde, envolvendo também Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, a lobista Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”.
A justificativa é técnica e, em tese, correta: nenhum dos investigados tem foro privilegiado, e o princípio constitucional do juiz natural determina que o caso corra fora do STF.
O problema é que esse princípio, tão lembrado agora, foi solenemente ignorado em incontáveis outros processos — o inquérito das fake news, a repressão aos atos de 8 de janeiro, o caso do Eduardo Tagliaferro, o entrevero no aeroporto de Roma.
Nem a cabeleireira Débora, nem os manifestantes, nem os empresários investigados por conversas de WhatsApp, nem os jornalistas com passaporte revogado tiveram o privilégio de permanecer na primeira instância; todos foram parar direto no colo do STF, seja sob a gestão de Augusto Aras, seja sob Paulo Gonet.
Que Gonet redescubra os incisos XXXVII e LIII do artigo 5º da Constituição justamente quando o investigado é filho do presidente é uma reversão de amnésia que mereceria investigação neurológica própria.
A Lava Jato, aliás, provou que é perfeitamente possível conduzir um caso sensível fora do Supremo. O que fica evidente é o duplo padrão: rigor absoluto do juiz natural para uns, prerrogativa ampliada de Moraes para os “inimigos da democracia” — e memória seletiva de sobra para todo o resto.
- Os irmãos Batista agora também vendem canhão
Joesley e Wesley Batista, donos da J&F, grupo controlador da JBS, compraram, por meio da gestora de investimentos Globe, 100% da Avibras, maior indústria bélica do país e responsável pelo sistema de foguetes Astros usado pelo Exército brasileiro e exportado para quase uma dezena de países, entre eles Indonésia e Malásia.
A Avibras está em recuperação judicial desde 2022, e Joesley já vinha se aproximando do negócio desde abril, quando assinou contrato para participar do funding da empresa por meio do Fundo Brasil Crédito, que levantou R$ 300 milhões com investidores privados e hoje é o principal credor da companhia.
A operação, que ainda depende de aprovação do Cade, chega bem na esteira dos discursos recentes de Lula sobre a necessidade de reequipar as Forças Armadas, que segundo o presidente não podem seguir sucateadas.
Coincidência ou faro apurado, os irmãos Batista — historicamente hábeis em identificar para onde o dinheiro público está prestes a fluir — não abandonam o boi, apenas ampliam o cardápio: da proteína animal para a munição, sem largar nenhuma das duas pontas.
A guerra, mesmo distante, mesmo apenas anunciada em discurso, segue sendo um dos negócios mais previsíveis do mundo, e os irmãos Batista raramente deixam um bom negócio passar em branco.
- E o coro para enquadrar o Supremo só aumenta
Elena Landau e José Roberto Mendonça de Barros não integram nenhum dos lados da polarização política brasileira, e é exatamente por isso que o diagnóstico dos dois sobre o Supremo Tribunal Federal pesa mais do que o de tantos outros: a Corte atravessa uma crise de credibilidade que já justifica debate aberto sobre o processo de impeachment de seus ministros.
“Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro”, afirmou Landau, durante o quarto debate da série promovida pelo Estadão sobre os desafios econômicos do próximo governo.
“Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia.”
Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da MB Associados, foi na mesma direção: “No caso específico do Supremo, eu acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno.”
Os dois renomados economistas também demonstraram pessimismo com os rumos fiscais do país, independentemente de quem vencer a eleição de 2026.
São vozes reconhecidas justamente pela distância que mantêm dos extremos, sem vínculo com qualquer legenda ou bandeira — o que torna ainda mais difícil descartar o alerta como manobra política.
Quando o centro isento chega ao mesmo diagnóstico que a periferia da polarização, o mais sensato costuma ser parar de discutir se o paciente está doente e começar a discutir o tratamento.
- O nome que tirou o sono do Planalto
Uma das fases da investigação sobre tráfico de influência e lavagem de dinheiro envolvendo Lulinha recebeu o nome “Elli” — e a escolha caiu especialmente mal entre aliados do presidente, a ponto de gerar animosidade entre o governo e uma ala da própria Polícia Federal.
O motivo é a leitura que se espalhou pelo entorno presidencial: a suspeita de que o nome seria uma referência velada ao “Faz o L”, gesto e bordão que se tornou marca registrada das campanhas eleitorais de Lula, batizando justamente uma operação que investiga seu filho às vésperas de eleição.
A Polícia Federal, fiel ao hábito de não explicar os critérios por trás dos nomes de suas operações, não se pronunciou sobre o significado escolhido — que também pode remeter a um termo de origem hebraica associado a “luz” ou “meu Deus”, sem qualquer investigado com esse nome nos autos.
A defesa de Lulinha, pelo advogado Marco Aurélio Carvalho, classificou a escolha como “infeliz” e “criminosa”, chegando a cobrar explicações formais da corporação e ameaçar levar o episódio à investigação.
Pode ser coincidência semântica, pode ser homenagem bíblica. Ou pode ser que, depois de anos batizando operações com nomes carregados de simbolismo, a Polícia Federal tenha finalmente encontrado, sem querer ou querendo, a ironia mais fina de sua carreira.



