Opinião

Fábio Luís, o preço de um sobrenome

Uma lobista que guarda no celular o mapa de um esquema bilionário de fraudes contra aposentados e pensionistas é, também, o retrato mais fiel do papel que o filho do presidente ocupa dentro do governo do pai.

Não é força de expressão: é o que emerge, camada após camada, da reportagem que a revista Veja publicou nesta quinta-feira (20), fechando uma semana em que Globo, Estadão e Poder360 já vinham entregando, diariamente, novos fragmentos de conversas recuperadas pela Polícia Federal — inclusive mensagens que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, apagou do próprio celular e que só voltaram à luz graças a um software forense.

O relatório da PF, sob relatoria do ministro André Mendonça no Supremo, descreve a existência de um “núcleo de atuação permanente e coordenada” formado por três nomes: Roberta Luchsinger, Lulinha e Fernando Bittar, velho sócio do filho do presidente e figura que carrega, desde a Lava Jato, o rótulo de dono formal do sítio de Atibaia.

O trio, segundo os investigadores, existia para intermediar interesses privados junto a órgãos da administração pública federal. Lulinha aparece descrito como figura de “elevada relevância” nas tratativas — beneficiário indireto, sempre mantido a salvo da linha de frente. “Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar”, escreveu a lobista.

A cena mais reveladora, porém, é a mais banal: um problema na Telebras. Kalil Bittar, irmão de Fernando, teria usado o nome de Lulinha para tentar vender facilidades à estatal — “vendendo você e a grande influência dele para o presidente da Telebras”, nas palavras de Roberta.

Diante do vazamento, a orientação do próprio filho do presidente foi desmentir que tivesse autorizado o uso do nome. Não desmentir o esquema. Desmentir a autoria.

Nem tudo, porém, ficou em intenção vaga de moeda de troca. A investigação recuperou uma minuta concreta de contrato: a venda, sem licitação, de 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, por até R$ 626 milhões — negócio arquitetado pela World Cannabis, empresa do “Careca do INSS”, e enviado por Roberta diretamente a Marco Aurélio Santana, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula.

Em áudio recuperado pela PF, a lobista já desenhava o caminho jurídico da dispensa: “É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações (…). Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação.”

O negócio não se consumou, mas o roteiro — minuta pronta, justificativa de urgência fabricada, entrega direta ao Palácio — é o retrato mais nítido do método que a PF atribui ao núcleo.

Chama atenção, aliás, que os episódios revelados até aqui — o problema na Telebras, a minuta do canabidiol — sejam majoritariamente negócios que não saíram do papel: tratativas, dispensas de licitação desenhadas, contratos que não avançaram.

Fica a dúvida que nenhuma reportagem, até agora, esclareceu: quantos negócios desse mesmo esquema chegaram a ser efetivamente fechados, assinados, executados — e simplesmente ainda não vieram a público?

Se o que se conhece hoje é só a parte que fracassou, o que se desconhece pode ser exatamente a parte que funcionou.

Há, aliás, indício concreto nessa direção: a PF já identificou o repasse de R$ 1,5 milhão de uma empresa ligada ao Careca do INSS para a RL Consultoria e Intermediações, a empresa de Roberta.

Ela atribui o valor a serviços prestados pela própria consultoria — mas, dentro da lógica do esquema que a própria PF descreve, tem todo o perfil de pagamento por negócios já em curso, quando não integralmente fechados.

Roberta Luchsinger não escondia a ambição. Em mensagens de 2024, fixou a meta pessoal de faturar R$ 100 milhões naquele ano; questionada se estava desmotivada, respondeu com o deboche de quem sabe que está protegida: “Sou modesta”.

Contou a um empresário que Lula, pessoalmente, a chamou para lhe oferecer qualquer cargo no governo — ela preferiu recusar e seguir livre, “na minha sociedade com Fábio e Fernando”.

Alugou, desde 2024, uma mansão de 2.110 metros quadrados no Lago Sul de Brasília, em nome de terceiro, para reuniões discretas — entre elas, segundo a investigação, encontros ligados ao esquema de fraudes apurado na Operação Sem Desconto e ao personagem batizado “Careca do INSS”.

Ali, dizia ela em mensagem de março de 2024, o grupo vivia “outro nível”: “Nosso futuro é Suíça”. O trio se chamava, no WhatsApp, “Musaranhos”.

Nada disso é, propriamente, novidade de personagem. Lulinha construiu a própria biografia sob a sombra generosa do pai desde o primeiro mandato, quando trocou o posto de monitor no Zoológico de São Paulo por uma ascensão meteórica ao empresariado de games — auge simbolizado no aporte milionário que a Telemar/Oi injetou em sua empresa, a Gamecorp.

De lá para cá, seguiu costurando negócios cuja marca registrada nunca foi a transparência.

É essa continuidade que interessa marcar. Houve o Lula do mensalão, primeiro mandato, quando se comprou apoio parlamentar com dinheiro de contratos públicos. Houve o Lula do petrolão, quando Petrobras e empreiteiras viraram fonte comum de propina para o sistema político. Houve o intervalo de Dilma Rousseff — sem o mesmo protagonismo pessoal em esquemas de corrupção comprovada, mas com uma gestão econômica que, pedalada fiscal atrás de pedalada fiscal, quebrou o país e produziu a pior recessão da história recente.

E há, agora, o Lula do terceiro mandato: o INSS, o Banco Master, e o filho no centro de um esquema de tráfico de influência que os próprios investigadores tratam como o mais escancarado de todos.

Porque não é só Lulinha. É o presidente recebendo Daniel Vorcaro no Planalto, fora da agenda oficial, em dezembro de 2024, por articulação do ex-ministro Guido Mantega — quadro histórico do PT, contratado como “consultor” do Master por R$ 1 milhão mensais.

É o escritório da família de Ricardo Lewandowski, outro nome de origem petista, indicado ao próprio Supremo por Lula em 2006 e depois chamado ao Ministério da Justiça no atual governo, recebendo R$ 6,5 milhões do banco enquanto ocupava a pasta.

É o ministro Dias Toffoli, obrigado a abrir mão da relatoria do caso Master no Supremo depois que a PF encontrou, no celular de Vorcaro, ligações, convite de aniversário e rastros de pagamento ligados a um resort da família do próprio ministro.

E é o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, com um contrato de R$ 129 milhões assinado com o mesmo Vorcaro — Moraes não vem dos quadros do PT, mas é hoje a peça que mais sustenta o consórcio de poder entre o Supremo e o Palácio do Planalto, aliado de primeira hora tão relevante para este governo quanto qualquer legenda da base.

O denominador comum não é mais um personagem isolado: é um método.

Se o terceiro mandato já revela esqueleto desse tamanho, a pergunta que não quer calar, sem nenhuma acusação antecipada, é uma só: o que mais restaria por vir, em matéria de fraude e roubalheira, caso Lula garanta um quarto mandato?

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