Opinião

Segue o baile

Não fosse o grau de promiscuidade que hoje marca as relações entre os Poderes do Brasil — essa mistura despudorada de interesses públicos e privados — e não fosse a consolidação, nos últimos anos, de um consórcio entre o governo Lula e seus ministros no Supremo Tribunal Federal para comandar o país, o momentoso jantar da última terça-feira (4), em Brasília, não passaria de simples curiosidade registrada em coluna social.

O ágape, de mais de três horas, reuniu na casa do ministro Alexandre de Moraes, do STF — anfitrião da noite —, o presidente Lula, o presidente do Senado Davi Alcolumbre e o colega de Corte Cristiano Zanin. Nenhum dos quatro registrou o compromisso em agenda oficial. Perguntado sobre o teor da conversa, Alcolumbre resumiu tudo com a elegância protocolar de quem não deve satisfação a ninguém: “segredo”.

O pano de fundo já era conhecido: a relação entre Lula e Alcolumbre andava cortada desde a derrubada da indicação de Jorge Messias ao Supremo, o que travara também a pauta eleitoreira do fim da escala 6×1.

Reatar essa costura seria a hipótese mais previsível para a reunião na calada da noite. Mas, como observou Rodolfo Borges, no site O Antagonista, essa é justamente “a hipótese menos grave e mais prosaica” de todas — e num país onde o óbvio raramente é o que está em jogo, isso já deveria acender um alerta.

Há hipóteses piores. Borges lembra que o mesmo trio já fora especulado tratando das investigações que cercam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, hoje distribuídas entre os ministros André Mendonça e Flávio Dino.

E o quadro ficou ainda mais espesso com o caso do ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que deixou o cargo — hoje na campanha de reeleição de Lula — após admitir ter recebido recursos que diz serem empréstimo de Roberta Luchsinger, lobista amiga de Lulinha e também ligada, por vias empresariais, ao “Careca do INSS”.

Fernando Schüler, ao comentar o episódio no Estadão, foi direto ao ponto que ninguém quis explicar: o chefe de gabinete é a pessoa de maior intimidade com o presidente no dia a dia, aquela que cuida dos contatos mais pessoais — e é justamente essa proximidade que torna o empréstimo tudo, menos banal.

Some-se a isso o caso do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, alvo de busca e apreensão sob suspeita de ter recebido um apartamento de luxo avaliado em R$ 2,5 milhões, negociado por um ex-sócio de Daniel Vorcaro, em troca de atuação parlamentar favorável aos interesses do Banco Master.

É aqui que o Brasil institucional se revela naquilo que de fato é: um arranjo bem servido, onde convivem lado a lado o Planalto e boa parte do Supremo — a ala petista majoritária, mais os agregados de peso Moraes e Gilmar Mendes, com Fux, Nunes Marques e Mendonça ocupando o apartamento dos fundos, sem chave do salão principal.

Nesse condomínio, os desentendimentos entre sócios não se resolvem em audiência pública, mas à mesa de um anfitrião togado, com generosas doses do melhor uísque — como não deixou de notar, com precisão cirúrgica, Agenor Mendes Pedreira, pseudônimo satírico que um jornalista utiliza para assinar, com a liberdade que só o humor permite, seus artigos no portal Hoje Paraná.

Ele descreveu o encontro como uma sessão de “terapia de casal institucional”, com Moraes atuando, nas horas vagas, como “despachante de luxo entre o Planalto e o Senado”.

A pergunta que Pedreira faz, e que ninguém em Brasília parece disposto a responder, é simples: desde quando ministro do Supremo virou estrategista de reconciliação política? A resposta, evidentemente, também é segredo.

Como o próprio colunista resume, com aquele tempero que só o bom humor consegue dar à indignação, o silêncio dos cozinheiros só aumenta o cheiro da linguiça escondida sob a farofa.

A verdade é que não existe rusga entre Planalto, Congresso e Supremo — existe desentendimento de compadrio, ajuste de contas entre parceiros que discutem a partilha, nunca a dissolução da sociedade.

O Congresso reclama, vota contra, barra indicação, mas volta à mesa assim que o interesse mútuo reaparece. O Supremo censura, decide, avança sobre competências alheias, mas não hesita em receber a visita de quem deveria fiscalizar.

E o Planalto atravessa tudo isso incólume, porque sabe que, no frigir dos ovos, ninguém ali tem interesse em derrubar a mesa — só em redistribuir os talheres.

Não é crise institucional o que o Brasil vive: é sociedade em plena saúde, girando em torno de um único sócio-gerente, que também é, a depender da ocasião, cliente, réu e anfitrião.

Em suma, a jornada gastronômica que juntou Moraes, Lula, Alcolumbre e Zanin na semana passada mostrou que não há nada de novo com que nos devamos preocupar: nossas instituições estão funcionando normalmente.

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