Faça o que eu digo, não faça o que eu faço

Ao discursar, em São Paulo, na convenção do PL que lançou a candidatura de Flavio Bolsonaro ao Palácio do Planalto, o libertário Javier Milei não deu, obviamente, nenhuma aula de civilidade ao chamar Lula de “ladrão” e “presidiário” e o ministro do STF Alexandre de Moraes de “lixo careca”.
Mas isso já era mais que esperado: o presidente argentino é assim mesmo, sem freio na língua, tosco e efetivo à sua maneira, goste-se ou não dele.
O episódio, é claro, causou dupla irritação no governo Lula: tanto pelos xingamentos quanto, principalmente, pela interferência nas questões internas da pátria amada de um chefe de Estado estrangeiro, que veio apoiar um adversário do petista na disputa de outubro.
Contudo, a indignação com os desaforos de Milei soa frágil vinda de alguém que, também, historicamente, nunca primou pela delicadeza com adversários.
Há poucos dias, em cerimônia oficial, dirigindo-se a seus críticos, Lula fez o famoso gesto obsceno do dedo médio — mandando, sem meias palavras, quem discordasse dele para aquele lugar.
No lançamento da candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, em 25 de julho, avisou: “quem quiser de fora se meter nas eleições brasileiras já vou avisando logo, vão apanhar muito aqui”.
Semanas antes, no encerramento do G-7, já havia mandado recado semelhante a Trump, para que “não se metesse” nas eleições do Brasil. O presidente norte-americano certamente não está dormindo de preocupação.
A diferença entre os insultos de Milei e os de Lula não está na educação — está apenas em quem tem microfone oficial para travestir grosseria de soberania bravateira.
A ameaça, porém, é seletiva: quando a interferência estrangeira favorece o lulopetismo, o discurso muda de figura inteiramente.
Em depoimento à Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, o ex-funcionário do Departamento de Estado Mike Benz afirmou que o governo de Joe Biden interferiu nas eleições brasileiras de 2022, por meio da Usaid, da CIA e de outras organizações, para favorecer Lula e prejudicar Jair Bolsonaro, financiando uma rede de checagem, universidades e sindicatos que ajudava STF e TSE a remover conteúdo das redes sob o rótulo de combate à desinformação.
Em 2025, em evento empresarial em Nova York, o próprio Luís Roberto Barroso, então presidente do TSE, confirmou a espinha dorsal da denúncia com naturalidade: disse ter recebido “decisivo apoio dos Estados Unidos à institucionalidade e à democracia brasileira em momentos de sobressalto”, relatou encontros recorrentes com o encarregado de negócios americano e contou ter pedido, por três vezes, declarações de Washington em defesa da “democracia brasileira” — lembrando, sem constrangimento, que os militares brasileiros “não gostam de se indispor com os Estados Unidos, porque é aqui que obtêm seus cursos e equipamentos”.
Interferência, para o Planalto, só é crime quando muda de destinatário.
Nem foi a única fricção diplomática recente provocada pelo boquirroto “estadista” de Garanhuns. Na sexta-feira (24), em visita à fábrica da Avibras, em Jacareí, ao defender maiores investimentos em defesa, Lula disse que “não podemos esquecer que, um dia, o Paraguai decidiu invadir o Brasil, invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina” — numa referência à Guerra do Paraguai (1864-1870), tratada no país vizinho como uma tragédia nacional que matou mais da metade de sua população, e que os livros de história paraguaios contam de forma bem diferente da versão brasileira.
A resposta veio rápido: o governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro em Assunção para receber a nota de protesto, o presidente Santiago Peña ligou pessoalmente para Lula, o Congresso do Paraguai aprovou nota de repúdio acusando o petista de “distorcer e minimizar a dimensão histórica” do conflito, e o vice-presidente paraguaio cobrou publicamente a devolução ao país do canhão El Cristiano e de relíquias levadas como troféu de guerra, hoje expostas no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
Antes de cobrar comedimento verbal dos vizinhos, seria prudente praticá-lo.
A militância eleitoral do PT fora do Brasil também tem nome e sobrenome na estrutura que a viabilizou.
Entre 2003 e 2014, o marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, atuaram em campanhas de esquerda por toda a América Latina — Argentina, Venezuela, Peru, República Dominicana e El Salvador —, e a Lava Jato revelou que parte desse trabalho internacional foi paga com recursos desviados de obras da Odebrecht financiadas pelo BNDES na região; o casal foi preso em 2016 por receber parte desse dinheiro via offshore ligada à empreiteira.
A Argentina concentra o retrato mais completo do método. Em 2023, com Sergio Massa perdendo terreno para Milei, Lula enviou os marqueteiros do PT para socorrer a campanha peronista, enquanto ministros e dirigentes do partido repetiam que a vitória de Milei seria “um risco para o Mercosul” — usando a máquina do governo brasileiro como instrumento de pressão em eleição estrangeira.
Em maio daquele ano, já havia recebido Massa e Alberto Fernández em Brasília prometendo um financiamento do Banco do Brics para as reservas argentinas, que não saiu por falta de amparo estatutário; em agosto, a ministra Simone Tebet — sob pressão do próprio Lula, segundo relatos da época — liberou um empréstimo de US$ 1 bilhão do CAF mesmo com a Argentina no limite de crédito, e o governo brasileiro ainda articulou junto ao FMI a liberação de US$ 7,5 bilhões aos “hermanos”, além de anunciar financiamento do BNDES ao gasoduto de Vaca Muerta.
Em 2019, ainda preso em Curitiba, Lula enviara cartas de apoio a Fernández, que o visitaria na cela após vencer o pleito; em 2015, subira ao palanque de Cristina Kirchner e de seu candidato Daniel Scioli, atacando o adversário Mauricio Macri — que venceu assim mesmo.
Com a Venezuela, o padrão é o mesmo desde 2012, quando Lula gravou vídeo para a campanha de Hugo Chávez prometendo que “sua vitória será a nossa vitória” e elogiando o tratamento dado às classes populares sob o regime; em 2013, repetiu a dose para Nicolás Maduro, afirmando que “Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou”.
Mais de dez anos depois, em 2024, em meio a denúncias de fraude nas atas eleitorais, Lula preferiu jogar parado: nunca exigiu a apresentação dos documentos, evitou chamar o país de ditadura e classificou a contestação do resultado como “nada de grave” e “briga normal”, enquanto o PT saudava, em nota oficial, a “jornada eleitoral pacífica e democrática” que reconduziu Maduro ao poder.
O apoio direto a candidaturas de esquerda se repetiu na Colômbia, em 2022, com vídeo pedindo voto para o ex-guerrilheiro Gustavo Petro; no Chile, em 2021, pedindo que se “votasse em Gabriel Boric” para ajudar o país a integrar o “bloco de governos progressistas” da região; e na Bolívia, onde Lula chamou de “extraordinária” a eventual vitória de Evo Morales já em 2005 e, em 2014, discursou ao lado dele em Santa Cruz de la Sierra elogiando o “modelo social boliviano” — o mesmo Evo que, anos depois, nacionalizaria ativos da Petrobras no país, com o Brasil abrindo mão da indenização que lhe seria devida.
No Paraguai, a gratidão dos “companheiros” eleitos se traduziu em renegociação dos preços de energia de Itaipu em termos favoráveis a Assunção. O apoio a candidatos de esquerda também alcançou, em algum grau, pelo menos mais cinco países: Uruguai — onde Lula já recomendara votos para Tabaré Vázquez em 2003 e para Pepe Mujica em 2009 —, Equador, Panamá e Honduras.
A lista extrapola a América Latina: na eleição americana de 2024, convém lembrar, Lula torceu abertamente pela candidata democrata Kamala Harris e chegou a associar Trump ao risco da implantação do “nazismo” nos Estados Unidos. Não é à toa, portanto, que o governo americano retribua agora a “gentileza” torcendo pela vitória do filho de Jair Bolsonaro. Chumbo trocado não dói.
Com a Nicarágua de Daniel Ortega, a cumplicidade é ainda mais antiga e mais grave, porque não envolve apenas apoio eleitoral, mas blindagem a um ditador que já nem finge fazer eleições.
Desde a Revolução Sandinista de 1979, Lula chama Ortega de “meu amigo”, disse ter “orgulho” de ter celebrado o aniversário do regime, recebeu-o em Brasília com honras de Estado e, em 2021, recusou-se a condenar a onda de prisões de opositores que garantiu ao nicaraguense o quinto mandato.
Em 2023, o Brasil nem aderiu à declaração de 55 países na ONU que denunciava crimes contra a humanidade do regime sandinista.
Agora que Ortega anunciou o fim das eleições no país, o Itamaraty levou quatro dias para dizer que estava “preocupado” — sem uma palavra de condenação. E não nos esqueçamos da eterna devoção petista à tirania assassina fundada por Fidel Castro e Che Guevara que há mais de seis décadas massacra o pobre povo cubano.
Diante de tanto material, a indignação seletiva do governo soa a hipocrisia pura — o cinismo de quem cobra dos outros exatamente aquilo que nunca praticou, na linha da célebre confissão de Dilma Rousseff de que, na eleição, vale “fazer o diabo” para vencer.
Não se trata de avaliar se a interferência externa é, em tese, admissível — trata-se de constatar que o PT ajudou a escrever esse manual décadas antes de reclamar dele.
Insultos podem ser mais ou menos grosseiros, mas continuam sendo insultos: o de Milei veio cru, gritado em praça pública; o de Lula chega com o gesto agressivo do dedo médio mandando adversários tomarem naquele lugar, com ameaças de palanque e, como conduta regular e não exceção, com declarações de amor a déspotas sanguinários ou silêncio diante das atrocidades que eles cometem.
A diferença entre os dois nunca esteve na natureza do ataque — só no tom.



