Opinião

E agora, doutor Armínio?

Um dos mais renomados economistas brasileiros, Armínio Fraga concedeu entrevista às Páginas Amarelas da revista Veja descrevendo a atual situação do país em duas palavras: quadro desastroso.

O problema é que ele próprio, ao lado de outros colegas de ofício, acadêmicos de alta estirpe e ilustres personalidades da sociedade civil, ajudou a endossar a candidatura de Lula ao terceiro mandato em 2022, sobretudo por temor a uma fantasiosa ameaça de ruptura democrática por parte de Jair Bolsonaro.

Mas o maior pecado de Armínio é que ele sabia do que poderia vir. Conhecia o histórico dos governos petistas de desprezo pelo controle das contas públicas — e é justamente esse desprezo que está na base da declaração que ele mesmo dá agora.

Ex-presidente do Banco Central do Brasil, Armínio foi convocado recentemente por Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, para participar da força-tarefa que vai revisar a comunicação do banco central americano, ao lado de Mervyn King, ex-Banco da Inglaterra.

Por isso, quando uma voz com tamanho prestígio resume o Brasil nesses termos, o estrondo é assustador.

Armínio não poupa números. Mais de oitenta milhões de brasileiros inadimplentes, empresas enroladas em dívida que não conseguem rolar, um governo que encurta o prazo dos próprios papéis porque não encontra quem financie a União a trinta anos — sinal, nas palavras dele, “claríssimo” de que o cenário é grave.

Tanto que não descarta a possibilidade de recessão em 2027.

E o conselho que ele dá a quem pergunta o que fazer nesse momento é de uma sobriedade quase clínica — não tomar dinheiro emprestado, porque o alívio é passageiro e a conta, fatal.

O economista também rebate, sem citar nome mas sem deixar dúvida, o discurso oficial de que o Brasil já viveria sob austeridade fiscal excessiva. Lembra que o gasto público saiu de um quarto para um terço do PIB em quarenta anos e questiona: que austeridade é essa?

O problema, diz, nunca foi falta de dinheiro entrando — foi falta de prioridade na hora de gastar, e um sistema tributário tão avesso a critério que permite a duas pessoas de mesma renda pagarem alíquotas de oito e vinte e sete por cento.

Elogia o primeiro mandato de Lula, quando o país respeitou controles fiscais, e descreve o que veio depois como um trem que saiu dos trilhos e nunca mais voltou.

A expressão que escolhe para resumir esse trecho da história é a mais precisa possível: o atual governo chutou o pau da barraca. Não fala em erro de rota, em desajuste técnico, em conta que não fechou.

Fala em insensatez deliberada, o tipo de atitude de quem decide, conscientemente, que não está mais nem aí para as consequências.

E completa o retrato com a comparação que mais dói: o terceiro mandato de Lula guarda semelhança perigosa com a era Dilma, quando as contas públicas foram estouradas para garantir a reeleição e o país recebeu de volta a maior recessão econômica de sua história recente.

Não há como tapar o sol com a peneira nesse ponto — o roteiro se repete porque funcionou como estratégia eleitoral antes, não porque alguém tenha errado a mão sem querer.

Crédito consignado liberado em ritmo recorde, programas sociais turbinados, despesa pública inflada às vésperas da eleição: nada disso é acidente de política econômica. É cálculo, com data para render dividendo nas urnas e conta a vencer depois delas.

Nesse contraste é que entra Milei, citado por Fraga como exemplo oposto: herdou um país destruído por décadas de peronismo e escolheu encarar o rombo de frente, em vez de empurrá-lo para o mandato seguinte.

Até aqui, diagnóstico técnico, incontestável. A contradição mora em outro ponto: o próprio Fraga reconhece, na mesma entrevista, que os sinais de descontrole fiscal já apareciam desde o segundo mandato do petista e se aprofundaram no desgoverno Dilma — ou seja, o padrão já estava dado, documentado, disponível para quem quisesse ler antes de assinar embaixo, em 2022.

Não havia mistério algum sobre o que um terceiro mandato do mesmo partido tenderia a repetir em matéria de gasto público e populismo fiscal.

A ruptura que nunca veio por um lado chegou por outro caminho, o que os números sempre contam sem precisar de bravata: o Brasil paga hoje o preço do aval que Armínio ajudou a validar.

Resta saber se o economista que hoje descreve o quadro como desastroso terá a mesma disposição de fazer um mea culpa como um dos co-responsáveis pela trágica volta do PT ao Palácio do Planalto.

Pelo menos isso, já que não dá para consertar o estrago.

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