Dívidas e bets: como empobrecer uma nação

Há uma nova praga corroendo silenciosamente a economia brasileira. Ela não destrói plantações como a geada, não fecha fábricas de um dia para o outro nem provoca manchetes tão impactantes quanto uma crise bancária. Age em silêncio, todos os dias, dentro da tela de um celular.
É ali que bilhões de reais deixam de irrigar a economia real para alimentar um sistema cuja matéria-prima é a esperança e cujo produto final é o endividamento, a dependência e a frustração.
A excelente reportagem publicada pela revista Forbes escancara uma realidade inquietante. O Brasil convive hoje com um recorde histórico de inadimplência, que já alcança 83,5 milhões de pessoas negativadas. Ao mesmo tempo, o crédito fácil se multiplica, o consignado avança e as apostas online passaram a movimentar dezenas de bilhões de reais todos os meses.
O dinheiro que antes comprava alimentos, roupas, medicamentos, eletrodomésticos ou movimentava supermercados, padarias, farmácias, restaurantes e o comércio das cidades agora desaparece em plataformas digitais de jogos de azar.
Não produz riqueza. Não fortalece a indústria. Não amplia investimentos. Não gera desenvolvimento. Apenas muda de endereço.
O drama, porém, vai muito além da economia. As empresas já começam a pagar a conta. Funcionários chegam ao fim do mês com o salário comprometido antes mesmo de recebê-lo. Crescem o estresse financeiro, o absenteísmo, a perda de produtividade e até os furtos internos motivados pelo desespero das dívidas.
A ludopatia — o vício em jogos — deixou de ser um problema individual para transformar-se em uma questão de saúde pública e também de competitividade empresarial. O prejuízo já não está apenas no bolso de quem aposta; ele aparece no caixa das empresas, no comércio, na arrecadação e na atividade econômica do país.
O mais perverso é que nada disso acontece por acaso. As plataformas são concebidas para manter o usuário permanentemente conectado. Psicólogos comportamentais descrevem há décadas mecanismos como recompensas variáveis, reforço intermitente, bônus oferecidos logo após perdas e estímulos permanentes que alimentam a liberação de dopamina e prolongam o ciclo da aposta.
Trata-se de uma engrenagem sofisticada, construída para reduzir a racionalidade e estimular a permanência do jogador. Não é exagero qualificá-la como um sistema diabólico: quanto mais o apostador perde, maiores são os incentivos para que continue acreditando que a próxima aposta mudará sua sorte. E, quase sempre, muda apenas o tamanho da dívida.
Nem mesmo os recursos destinados às famílias mais vulneráveis escaparam desse fenômeno. O avanço das apostas entre beneficiários de programas sociais levou o Supremo Tribunal Federal a determinar medidas para impedir o uso desses recursos em bets, e o próprio governo passou a adotar restrições mais severas ao setor, inclusive exigindo advertências explícitas de que apostar faz perder dinheiro e pode causar dependência.
Quando o Estado precisa impedir que verbas assistenciais sejam desviadas para jogos de azar, é sinal de que a situação ultrapassou, há muito tempo, qualquer limite aceitável.
É aí que emerge a maior contradição política dessa história. As apostas esportivas já haviam sido previstas em lei anos atrás, mas foi o atual governo que consolidou a regulamentação do setor, estruturou o modelo de exploração, criou o sistema de autorizações, ampliou a tributação e transformou esse mercado em mais uma importante fonte de arrecadação para os cofres públicos.
Somente depois que os efeitos sociais começaram a se tornar incontornáveis é que vieram as declarações do presidente Lula afirmando que, se dependesse dele, as bets seriam fechadas.
É difícil não enxergar aí uma mistura de cinismo e hipocrisia. Primeiro regulamenta-se a atividade, organiza-se sua exploração, comemora-se a arrecadação e incorpora-se essa receita ao orçamento. Depois, diante da explosão do endividamento, da ludopatia e do impacto sobre as famílias, o discurso muda e veste as roupas demagógicas do arrependimento, exposto unicamente para render dividendos eleitorais.
Mas o falso arrependimento do demiurgo petista, agora fantasiado de paladino da moral e dos bons costumes, não devolve o salário perdido, não recompõe a renda das famílias, não reaquece o comércio, nem cura a dependência de quem foi capturado por uma indústria construída para transformar esperança em receita.
O Brasil precisa decidir se continuará tratando os jogos de azar como um bom negócio para o Tesouro ou se finalmente reconhecerá que nenhuma arrecadação compensa quando o preço é a destruição silenciosa da economia doméstica e da dignidade de milhões de brasileiros.



