Triste, mas verdade: a seleção é o espelho da alma brasileira

Toda Copa devolve ao Brasil a mesma pergunta incômoda, disfarçada de resultado esportivo: quem somos nós, afinal, quando o apito toca?
A resposta desta edição veio dura e sem anestesia. Não se trata de tática, nem de escalação, nem de adversário difícil. Trata-se de constatar, mais uma vez, que a seleção brasileira jogou sem entrega, sem espírito de luta, sem aquilo que não se ensina em treino.
Foi essa a leitura que o jornalista Alexandre Garcia, em artigo publicado na Gazeta do Povo, teve a lucidez de fazer, tratando a eliminação não como acidente de percurso, mas como sintoma.
Reuniu o inventário de vícios que analistas e ex-treinadores atribuíram à equipe — lentidão de raciocínio, despreparo, ausência de comando, fragilidade emocional justamente nos momentos que exigiam serenidade, escassez de liderança nas horas decisivas — e concluiu que aquele time não é anomalia. É retrato em tamanho natural do eleitor que, direta ou indiretamente, também escolhe quem manda no país.
O retrato ficou ainda mais nítido ao lado da Argentina. Não se trata de comparar talento — o Brasil também tem craques, também tem nomes de nível mundial. A diferença apareceu em outro lugar, mais difícil de escalar: no patriotismo que transforma um time em pátria com chuteiras.
Ao longo de toda a trajetória que a levou à final contra a Espanha, a marca registrada da seleção argentina não foi só a qualidade de seus grandes atletas — foi a garra, foi a paixão com que jogaram cada minuto, foi a inesgotável força interior que os empurrava a continuar quando o placar já mandava desistir.
Não é currículo que explica isso. É a camisa pesando mais do que o marcador. E é exatamente isso que falta ao Brasil ver em si mesmo — em campo e fora dele.
Coração antes de nome, entrega antes de vaidade: é isso que a seleção brasileira não teve, e que o eleitor brasileiro, no espelho que Garcia propõe, também não costuma exigir de si mesmo nem de quem escolhe para representá-lo.
A apatia e o descaso com que se escolhem vereadores, prefeitos, governadores e presidentes — e depois se esquece até em quem se votou — são a assinatura mais reconhecível do próprio eleitor brasileiro, que trata o voto como detalhe e cobra resultado como se não tivesse parte na escalação.
A ilusão, aliás, não é exclusividade do futebol: milhões de brasileiros, no dia da eleição, preferem viajar para a praia, e depois reclamam do destino do país como se dele não tivessem sido, por omissão, também autores.
É a alienação que o próprio Garcia identifica ao recorrer à parábola do semeador, no Evangelho de Mateus: os que olham e não veem, ouvem e não escutam. A semente cai à beira da estrada, entre pedras e espinhos, porque ninguém cuidou do solo antes de lançá-la.
Houve um tempo em que isso não era assim. A Copa de 1970 foi conquistada com um time que era, de fato, retrato do melhor do país: raça, vibração, coragem, entrega, entusiasmo sem estrelismo.
Faltam poucos meses para as urnas decidirem o emprego, os impostos, a segurança, a picanha e a escola dos filhos de cada brasileiro — e mesmo assim a discussão pública insiste em girar em torno de nomes e não de propostas.
Perder faz parte do jogo. O problema não foi perder a Copa: foi o jeito — apático, covarde, alienado, sem vontade de lutar até o fim.
É esse mesmo jeito que decide eleições e destrói países.
O fato é que, em outubro, o Brasil joga de novo.
E dessa vez, não há técnico, não há escalação, não há desculpa: o único responsável pelo placar final será o eleitor diante da urna.



