Opinião

Cooperativismo: a poderosa força econômica do Paraná

O Paraná não inventou o cooperativismo. Mas foi aqui, entre a terra roxa e o trabalho paciente de gerações, que essa ideia encontrou o solo mais fértil do Brasil para florescer. Não por acaso: das dez maiores cooperativas agroindustriais do país, as três primeiras do ranking são paranaenses — Coamo, Lar e C.Vale ocupam, nessa ordem de grandeza, o topo de uma lista que o estado praticamente monopoliza, com outras tantas espalhadas pelas posições seguintes.

Aliás, assim como a Lar e a C.Vale, também a Copacol e a Coopavel, outras duas gigantes do segmento, estão igualmente sediadas no oeste do estado, região que se consolidou como o maior complexo cooperativista agroindustrial do país.

Mas a história tem uma nuance que vale registrar. O cooperativismo moderno, como movimento global, nasceu na Inglaterra, em 1844, entre operários de Rochdale que se uniram para comprar alimentos a preços justos.

Porém, o modelo específico que chegou ao Brasil — o de crédito e produção rural, inspirado no alemão Raiffeisen — teve outra porta de entrada: veio pelas mãos do padre suíço Theodor Amstad, que em 1902 fundou em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, a primeira cooperativa de crédito do país, para atender colonos alemães e italianos sem acesso a bancos.

Gente pobre, fugida da miséria e da instabilidade europeia, que encontrou no trabalho coletivo a única forma de transformar pouco em suficiente.

Um século depois, é o Paraná quem carrega essa herança com mais vigor do que qualquer outro estado brasileiro. O tamanho do cooperativismo paranaense já é conhecimento consolidado, repetido em discursos e relatórios ano após ano.

O que uma reportagem assinada pela jornalista Juliet Manfrin, publicada na Gazeta do Povo, faz é dar contornos exatos a essa grandeza, com números que confirmam o que a experiência cotidiana já sugeria.

Em uma década, o faturamento do cooperativismo paranaense triplicou: saiu de R$ 69,4 bilhões em 2016 para os atuais R$ 223 bilhões.

Os investimentos do setor saltaram de R$ 2,1 bilhões para R$ 9,2 bilhões no mesmo período, e os impostos recolhidos cresceram de menos de R$ 2 bilhões para R$ 5,9 bilhões — um salto que revela não apenas crescimento, mas amadurecimento de gestão.

A participação das cooperativas no PIB agropecuário do estado subiu de 56% para 66% em dez anos. São 255 cooperativas em atividade no Paraná, das quais 61 atuam diretamente no agronegócio, várias delas com presença confirmada entre as maiores do planeta.

E há um dado que talvez resuma, sozinho, o que esse sistema significa para o território: em 135 dos 399 municípios paranaenses — um terço do estado —, a maior empresa local é uma cooperativa.

Não uma multinacional, não um grupo de fora. Uma cooperativa, enraizada, pertencente aos próprios produtores que nela trabalham.

É aí que mora a diferença entre o cooperativismo e a lógica extrativista que costuma definir o grande capital.

Corporações tradicionais buscam rentabilidade e escoam recursos para fora das regiões onde operam.

As cooperativas fazem o caminho inverso: a riqueza gerada no campo permanece no campo, vira emprego, renda, movimento de comércio local, reinvestimento.

Cerca de 230 mil famílias produtoras encontraram nesse modelo coletivo um caminho que a produção individual jamais teria como oferecer sozinha.

Para o consumidor, o resultado é mais silencioso, mas igualmente concreto: alimento mais disponível e mais barato, sustentado por uma cadeia que não depende de intermediários voláteis. Para a economia estadual, é o motor que ajuda a explicar por que o Paraná cresce, exporta e se firma como potência agroindustrial dentro de um Brasil que já figura entre os maiores produtores de alimentos do mundo.

O setor projeta chegar a R$ 500 bilhões de faturamento até 2030, apostando na industrialização crescente do que é recebido dos cooperados.

Não é otimismo gratuito: é a continuidade de uma trajetória que já provou seu ponto. O que começou como redenção de imigrantes pobres na Europa em crise, hoje sustenta um terço dos municípios paranaenses e coloca o estado no centro do mapa que alimenta o planeta.

Poucas ideias atravessaram tanto tempo e tanta distância para, no fim, provar que dividir também é uma forma de multiplicar.

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