Opinião

Bloco de Notas

  1. Isso é uma vergonha!

Boris Casoy cunhou o bordão para casos bem menores que este. Alexandre Garcia recuperou a expressão para comentar o que vem à tona, aos poucos, no Superior Tribunal de Justiça: depois de afastado por assédio sexual e importunação sexual em Balneário Camboriú, o ministro Marco Buzzi passa agora a ser investigado também por venda de sentenças, autorização concedida pelo próprio ministro Cristiano Zanin, do Supremo. Ele não está sozinho na lista. Moura Ribeiro, colega de corte e igualmente juiz de carreira, é alvo da mesma suspeita, também sob autorização de Zanin — dois ministros do STJ, dois inquéritos por comércio de decisões judiciais, na mesma semana. O jornalista lamenta e indaga: quando isso começou? Porque escândalos como esses raramente nascem no topo da carreira; em geral, só chegam lá depois de terem sido tolerados, disfarçados ou simplesmente ignorados em degraus mais baixos. O país já se acostumou a discutir ativismo judicial, abusos autoritários do STF e crise institucional — prato cheio para causar indigestão por si só. Mas há um andar abaixo desse debate, mais sórdido e mais fácil de entender: o de togas que se vendem, ou se aproveitam do poder que vestem. Não é mais desacordo sobre onde termina a interpretação e começa a legislação. É balcão. E balcão, ao contrário de tese jurídica, não precisa de doutrina para ser reconhecido — só de vergonha na cara, artigo que anda em falta. A pergunta que fica é: quantos mais andam cometendo os mesmos crimes?

  1. Um mapa para o apetite, agora com estrelas

A revista Exame lançou seu ranking anual dos cem melhores restaurantes do Brasil, uma jornada interativa que percorre os endereços mais celebrados de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e outra praças gastronômicas do país. A lista funciona como bússola para quem viaja e decide reservar uma noite ao prazer da boa mesa. O momento não podia ser mais oportuno para completar o roteiro: a edição 2026 do Guia Michelin Rio de Janeiro & São Paulo, divulgada em abril, consagrou pela primeira vez na história dois restaurantes brasileiros com a cobiçada terceira estrela — o Tuju, do chef Ivan Ralston, e o Evvai, comandado por Luiz Filipe Souza, ambos na capital paulista. É a estreia latino-americana no clube mais restrito da gastronomia mundial. A seleção completa soma ainda três casas com duas estrelas, dezenove com uma e 44 reconhecidas na categoria Bib Gourmand, a que privilegia boa comida a preço justo. Bon appétit!

  1. Vertigem que vira ofício

Quem vê a engenheira civil Stéphanie Domeneghini à frente de alguns dos projetos mais altos do país dificilmente imaginaria que ela sofre de medo de altura. Boa parte dos chamados “supertalls” brasileiros ergue-se em Balneário Camboriú, cidade catarinense que se converteu na Dubai nacional a golpes de concreto e ambição vertical, concentrando boa parte da lista dos edifícios mais altos do Brasil. É lá que Stéphanie assina como autoridade técnica em torres que desafiam o horizonte e testam os limites da engenharia estrutural brasileira. O detalhe curioso, e reconfortante para quem também sente o estômago embrulhar num nono andar, é que o medo desaparece justamente quando ela sobe ao andaime — no chão é que ele aperta, entre plantas, cálculos e a distância segura que separa projeto de execução. Faltava, talvez, uma metáfora mais honesta sobre construir coisas grandes: o vazio incomoda mais de longe do que de perto, e quem enfrenta a altura todos os dias aprende a fazer as pazes com ela em vez de fugir.

  1. Bernard Arnault e a guerra dos tronos com etiqueta francesa

Bernard Arnault, o homem mais rico da França e dono do império de luxo LVMH, abandonou o low profile que cultivou por décadas depois que o Le Monde publicou uma reportagem sobre a sucessão à frente do grupo. O texto expôs tensões familiares que o empresário preferia manter trancadas a sete chaves, tão bem guardadas quanto os ateliês de suas grifes mais discretas. Cinco filhos ocupam hoje postos estratégicos dentro do conglomerado que reúne marcas como Louis Vuitton, Dior e Moët Hennessy, e a disputa por quem sucederá o patriarca — ainda em plena atividade, aos setenta e poucos anos — já extrapola os corredores da sede parisiense e chega às páginas da imprensa. A comparação com a saga televisiva sobre uma família de bilionários disputando o trono do pai ainda vivo coube como luva, e não por acaso: a fortuna que uniu os Arnault é também o que ameaça separá-los. O roteiro se repete com regularidade quase didática entre dinastias ricas mundo afora, da mídia aos frigoríficos, do petróleo à moda. Arnault entra agora em modo contenção de crise, tentando blindar da opinião pública o que a própria família não consegue resolver em privado. Resta saber se herdeiros aceitam diplomacia com a mesma facilidade com que aceitam patrimônio.

  1. A vida como ela é

A juíza Giovana Teixeira Brantes Calmon, da 10ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro, autorizou mandados de busca e apreensão contra os empresários Carlos Alberto Sicupira e Paulo Alberto Lemann na segunda fase da Operação Disclosure, ao concluir que ambos tinham conhecimento das manipulações contábeis que resultaram em rombo estimado de R$ 54 bilhões na Americanas. Segundo a decisão, Sicupira e Lemann, ao lado de Eduardo Saggioro Garcia, atual integrante do conselho da varejista, teriam implementado um modelo de gestão baseado em acompanhamento tão próximo das operações que seria difícil sustentar desconhecimento sobre as fraudes — o chamado domínio funcional do fato, ainda que sem prova direta e explícita de participação. A defesa nega enfaticamente e argumenta que a própria sofisticação do esquema, construído para escapar do controle das auditorias externas, é a prova de que os empresários também foram vítimas. O Ministério Público Federal chegou a se posicionar contrário às medidas, sustentando não haver indícios de que acionistas ou conselheiros tivessem sequer ciência dos ilícitos. A magistrada, ainda assim, manteve seu entendimento e resumiu a decisão numa frase que soa quase manifesto: “é preciso enxergar a vida como ela é, e não só para que se possa visualizar a real situação dos números da companhia” — trata-se, escreveu, da única maneira possível de alcançar quem foi beneficiado pelas manipulações ao longo de quase uma década, e responsabilizar todos os efetivamente envolvidos no rombo que atingiu fornecedores e investidores. Fortunas bilionárias raramente se explicam por acaso ou ingenuidade dos seus donos — e a Justiça, desta vez, parece disposta a testar essa suspeita até o fim.

  1. Antes de atacar Milei, seria bom checar a própria planilha

Em meio à crise diplomática aberta pelos insultos de Javier Milei a Lula e a Alexandre de Moraes durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, o ministério da Fazenda recorreu à situação econômica argentina para revidar, sugerindo que o Brasil vive dias muito melhores que o vizinho. O problema é que os números, olhados de perto, contam uma história mais incômoda. A Argentina, herdeira de uma inflação anual acima de 200% e dívida em torno de 156% do PIB no governo de Alberto Fernández, aliado histórico de Lula, hoje opera com inflação mensal na casa de 2%, dívida em 78,4% do PIB e dois anos seguidos de superávit primário — 1,8% do PIB em 2024 e 1,4% em 2025, ambos acima da meta acordada com o FMI. O risco-país argentino, medido pelo EMBI+ da JP Morgan, recuou 70% desde dezembro de 2023, caindo de 1,4 mil para 443 pontos, puxado também por um PIB que cresceu 4,4% em 2025, quase o dobro dos 2,3% brasileiros. Para o economista Marcos Vinícius Oliveira, da ZIIN Investimentos, a comparação estática que o governo brasileiro gosta de fazer esconde o que realmente importa para quem avalia risco e investimento: a direção da curva. E nesse quesito o Brasil perde de longe — déficit primário de R$ 43 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025, dívida bruta em 81,1% do PIB, o maior nível em cinco anos, e inflação projetada em 5,1%, bem acima da meta de 3% do Banco Central. A Argentina sobe a ladeira depois de tocar o fundo. O Brasil desce a mesma ladeira depois de estar no topo. Antes de emprestar a métrica alheia para insultar, convém primeiro guardar a própria régua — e checar para que lado ela está apontando.

  1. O fisco chega antes do troco

Uma das grandes novidades da reforma tributária, o split payment, promete recolher automaticamente, no instante mesmo da venda, a parcela devida de dois novos tributos, o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), criados para substituir o atual emaranhado de impostos sobre o consumo. Na prática, o dinheiro de uma compra paga por Pix ou cartão passará a seguir dois caminhos simultâneos: a parcela do imposto vai direto para os cofres públicos, e só o restante cai na conta da empresa. A ironia é que o mecanismo elimina exatamente aquele intervalo em que o empresário recebia o valor integral hoje e recolhia o tributo semanas depois, usando essa folga como capital de giro para pagar fornecedores, salários e outras contas correntes. Sem esse respiro, cresce entre empresários o temor de precisar recorrer a crédito bancário só para manter o caixa girando normalmente — um custo extra embutido numa reforma que prometia simplificação. A equipe econômica do governo Lula defendeu o split payment durante toda a tramitação da reforma como ferramenta de combate à sonegação, argumento que tem lá seu mérito. A implantação, ainda assim, será gradual: testes ao longo deste ano e uma primeira etapa facultativa entre empresas prevista só para 2027. Tempo suficiente para o mercado descobrir, na prática, se o remédio contra a sonegação não vai cobrar seu preço em endividamento generalizado.

  1. Da mesa ao mercado: a China vira concorrente do frango brasileiro

A China deixou de ser apenas a maior compradora do frango brasileiro para se tornar concorrente direta, e já mira os mercados mais rentáveis do Brasil no Oriente Médio. Em menos de uma década, o país saltou de fatia irrelevante para 9,5% estimados das exportações globais em 2026, com embarques que devem somar 1,4 milhão de toneladas neste ano — um salto de 41% já registrado em 2025, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), suficiente para colocar a China como terceira maior exportadora do mundo, atrás apenas de Brasil e Estados Unidos. A produção doméstica chinesa sustenta essa escalada: o país já é o segundo maior produtor global de frango, com crescimento estimado de 7% em 2025 e mais 5% em 2026, podendo chegar a 17,3 milhões de toneladas — algumas estimativas do setor apontam para dois dígitos. A lógica por trás da corrida é a mesma que move outros países hoje: segurança alimentar tratada, cada vez mais, como segurança nacional. O detalhe que acende o sinal amarelo para o Brasil está na composição das trocas: a China segue importando miúdos e pés de frango, produtos de maior apelo para seu consumidor interno, mas exporta cada vez mais peito de frango — justamente o corte mais vendido pelo Brasil nos últimos doze meses, responsável por 22% do volume total exportado e um dos preços unitários mais altos da pauta. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, dois dos principais destinos brasileiros, estão geograficamente mais perto de Pequim do que de Brasília. Analistas do BTG Pactual já falam abertamente em risco estrutural de precificação para os exportadores brasileiros caso a expansão chinesa continue no ritmo atual. Quem vendia frango para a China agora aprende a competir com ela — e a lição não veio com aviso prévio.

  1. Jaques Wagner cada vez mais enrolado no Banco Master

Novas mensagens obtidas pela Polícia Federal aprofundam o cerco sobre o senador Jaques Wagner (PT-BA) no escândalo do Banco Master. Segundo a investigação, o enteado do senador e secretário de Meio Ambiente da Bahia, Eduardo Sodré Martins, cobrou dinheiro de Augusto Lima, ex-sócio do banco e homem ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, para pagar um imóvel de luxo avaliado em R$ 2,5 milhões destinado ao próprio Wagner. Os diálogos, iniciados em setembro de 2025, mostram Sodré Martins pressionando por boletos vencendo — “amanhã vencem e são altos, não tem como cancelar e não irei ficar devendo” — e Lima respondendo em tom de socorro mútuo em meio à crise do banco, chegando a enviar a mensagem “juntos somos mais fortes”, frase que soa mais a lema de facção do que a comunicado entre sócios de negócio. Augusto Lima, aliás, não é personagem qualquer nessa história: foi ele quem implementou, ainda no governo estadual de Wagner, entre 2007 e 2014, o sistema de crédito consignado para servidores públicos que depois se tornaria o Credcesta, principal ativo financeiro do Master — o que faz da Bahia não coadjuvante, mas origem de todo o imbróglio. A Polícia Federal ainda contabiliza 74 ligações telefônicas entre o senador e o ex-sócio do banqueiro, somando ao menos cinco horas e meia de conversa entre novembro de 2023 e maio de 2025, com nítida preferência por voz em vez de mensagens escritas — hábito que hoje soa menos a discrição e mais a antecipação de problema. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) já saiu em defesa pública do secretário, alegando ausência de provas concretas e descartando qualquer afastamento sem “motivação concreta”. A crise, no entanto, é dupla: reacende o escândalo do Master bem no estado onde ele nasceu, e cobra da ala mais histórica do PT uma explicação que ainda não veio. Wagner é aliado de Lula há mais de trinta anos, figura emblemática do partido — e o escândalo escolheu o pior momento possível para se aprofundar: o início da campanha eleitoral.

  1. Longe, muito longe dos problemas do mundo

Enquanto o país discute reforma tributária, escândalos bancários e crise institucional, a Azimut inicia em Itajaí, Santa Catarina, a construção do maior iate já feito no Brasil, avaliado a partir de R$ 90 milhões. O Grande 30 Metri, com 28,69 metros de comprimento e 7,3 metros de largura, é montado na única fábrica própria da marca italiana fora da Itália, e representa a entrada da operação brasileira num segmento que, até agora, o país não produzia localmente. A embarcação terá cinco cabines para hóspedes e três reservadas à tripulação, com capacidade para dez pessoas a bordo mais cinco tripulantes — números que, somados, dizem mais sobre o tamanho do luxo do que qualquer adjetivo. A estrutura em fibra de carbono reduz peso e ganha eficiência, o design externo é assinado pelo italiano Alberto Mancini e os interiores levam a grife do estúdio milanês m2atelier. Dois motores garantem velocidade máxima de até 25 nós. Como o processo é essencialmente artesanal, o barco só ficará pronto no fim de 2028 — tempo suficiente para o Brasil discutir e resolver uma boa quantidade de crises, ou para acumular novas, enquanto alguém, em algum lugar, já escolhe o tapete do convés.

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