O Paraguai que os brasileiros foram procurar

Há um ditado que os paraguaios repetem com um sorriso discreto: o Brasil exporta problemas e o Paraguai importa soluções.
Nunca essa piada de bar fez tanto sentido quanto agora, quando a Ponte da Amizade — erguida para simbolizar a integração entre os dois países — passou a funcionar como corredor de travessia em outro sentido.
De um lado, empresas de peso trocam o Brasil pelo país vizinho. Do outro, famílias comuns fazem as malas atrás de um Estado que cobra menos e incomoda menos.
O movimento empresarial já não é sussurro de corredor. Segundo o Ministério de Indústria e Comércio paraguaio, das 339 empresas que hoje operam sob o regime de maquila no país, 231 são brasileiras — 68% do total. Lupo, Döhler, Karsten, Kidy e Dass já produzem por lá.
A JBS voltou em outubro de 2025 com um aporte de US$ 70 milhões. Luciano Hang, fundador da Havan, foi pessoalmente cumprimentar o presidente Santiago Peña em julho, avaliando abrir a primeira loja da rede fora do Brasil, e resumiu o entusiasmo empresarial em uma frase: o país vive “um momento de grande transformação”, com impostos baixos e liberdade econômica de sobra.
A lista de curiosos cresce: Cacau Show, Bauducco, Ajinomoto. Todos fazendo a mesma conta — e alguns, como o empresário paulista Fabrizio Gudin, resumindo-a sem meias palavras: no Paraguai se trabalha um mês e meio por ano só para pagar imposto; no Brasil, seis.
A conta, aliás, é simples de entender e difícil de rebater. Enquanto a carga tributária brasileira gira em torno de 33% do PIB, no Paraguai ela não passa de 14%. O regime conhecido como “10-10-10” — teto de 10% para Imposto de Renda de pessoa física, 10% para pessoa jurídica e 10% de IVA — já seria atrativo sozinho.
Mas para quem exporta sob a Lei de Maquila, criada em 1997 e atualizada no ano passado, a alíquota cai para 1% sobre o valor agregado, com isenção de impostos sobre máquinas importadas e dividendos.
Soma-se a isso uma energia industrial que custa US$ 41 o MWh contra US$ 113 no Brasil, e o resultado é um país que parece ter sido desenhado em laboratório para seduzir quem paga imposto no Brasil.
Mas o fenômeno deixou de ser exclusividade de grandes grupos.
Reportagem recente do Estadão mostrou que profissionais liberais, casais jovens e trabalhadores remotos também estão trocando de país — e nem sempre pela mesma razão que move as multinacionais.
Cristiano e Rejanny Soares deixaram Campinas por Assunção depois de comparar Paraguai, Panamá e Uruguai; venceu o país que oferecia impostos baixos, sensação de segurança e, nas palavras do casal, ausência da “polarização política que desestabiliza o empresário” — e que também vivia atrás de muros por medo, no Brasil, coisa que dizem ter deixado para trás.
Na prática, o custo de vida da família caiu entre 30% e 40%, embora façam questão de avisar que o Paraguai “não é barato em tudo”: o que muda, dizem, é o poder de compra.
A advogada Heliza Rocha, especializada em imigração empresarial, testemunha essa virada de perfil de perto: até pouco tempo atendia sobretudo estudantes de medicina; desde setembro do ano passado, viu a procura de empresários e investidores disparar.
Os números confirmam o que ela vê no escritório — o Departamento de Migrações do Paraguai registrou cerca de 17 mil brasileiros autorizados a residir no país em 2024, salto que passou de 23 mil em 2025.
Hoje o Paraguai já abriga a terceira maior comunidade brasileira no exterior, 263 mil pessoas segundo o Itamaraty — número que, por defasagem dos dados, deve ser ainda maior.
Nem toda travessia é isenta de percalços, porém. O casal de influenciadores Jézer e Talita Trevisan fez as malas para Ciudad del Este assim que a reforma tributária brasileira encareceu o tráfego pago que sustenta o negócio deles; hoje pagam menos por um imóvel três vezes maior do que tinham em Alphaville, mas amargaram um prejuízo de R$ 15 mil com assessorias que prometiam regularizar a papelada e sumiram no meio do caminho.
Já Michelly e Cássio Meirelles, de São Bernardo do Campo, resumem sem rodeios o que motiva a mudança: “Não nos identificamos com os valores do Brasil”. Cristãos, o casal cita a formação cívica das escolas paraguaias e o governo de direita de Peña como parte da decisão de recomeçar do outro lado da fronteira.
Não é um país sem defeitos — os próprios entrevistados admitem isso.
A infraestrutura paraguaia ocupa a 79ª posição no ranking do Banco Mundial, contra a 51ª do Brasil; há buracos na rua, gargalos de energia industrial, entraves burocráticos para abrir conta em banco.
Mas o que esses relatos revelam, empresa a empresa, casal a casal, é menos sobre as virtudes do Paraguai e mais sobre o que o Brasil deixou de oferecer: previsibilidade tributária, segurança patrimonial e a sensação — talvez a mais cara de todas — de que o Estado não está do outro lado da mesa como adversário.
Quando um país exporta suas fábricas e seus filhos ao mesmo tempo, não está mais diante de uma fuga de capital.
Está diante de um voto de desconfiança que não passa pelas urnas.



