Por amor à pátria e aos cargos

Mal se apagaram os telões da apuração, Brasília foi tomada por um surto de altruísmo.
Deputados e senadores que até a véspera subiam em palanques adversários acordaram com um desejo irrefreável de “colaborar” com o vencedor.
Querem contribuir, somar, oferecer sua cota de sacrifício pelo bem da nação. É um desprendimento comovente, que volta a cada quatro anos com a pontualidade de um cometa e dura exatamente enquanto o eleito ainda tem prestígio para distribuir.
Negociar é verbo legítimo em qualquer democracia. Governa-se com maioria, maioria se constrói com diálogo, e diálogo pressupõe concessões. A teoria é impecável. O arrepio começa na prática, quando se percebe que, no Brasil, a pergunta relevante nunca foi o que está sobre a mesa, mas o que passa por baixo dela.
A moeda corrente tem nomes conhecidos: ministério, diretoria de estatal, emenda turbinada, relatoria estratégica, a nomeação do apadrinhado para o órgão certo.
Programa de governo e convicção raramente entram no câmbio, talvez por falta de cotação.
Tanta generosidade tem também raízes menos poéticas. Em boa parte do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste, a prefeitura é o maior empregador da cidade, e o repasse federal sustenta o posto de saúde, a escola e a folha de pagamento.
Para quem se elege com os votos desses municípios, fazer oposição é luxo de quem não precisa voltar para casa. O parlamentar que bate no governo pela manhã terá de explicar à tarde ao prefeito por que a verba não chegou.
Nessas paragens, a dependência do caixa central fala mais alto que qualquer ideologia, e ninguém se reelege prometendo fechar a torneira.
Situação e oposição, por aqui, são categorias de uma relatividade que deixaria Einstein constrangido. A fronteira entre governistas e adversários é riscada a giz, em dia de chuva.
Federações partidárias que passaram a campanha inteira na trincheira do candidato derrotado precisaram de apenas dois dias para descobrir, enternecidas, as virtudes da continuidade na cúpula do Congresso, justamente a fórmula patrocinada pelo Planalto.
Uma legenda nascida dos escombros do partido que sustentou o regime militar conseguiu a proeza de apoiar todos os presidentes das últimas três décadas, da esquerda à direita e de volta à esquerda.
É uma coerência admirável: esteve sempre do lado de quem governa. Ninguém muda de lado, juram todos. O lado é que muda de lugar.
Esse balé tem dois sobrenomes antigos na política brasileira. O primeiro é fisiologismo, a arte de enxergar o Estado como um organismo a ser alimentado por dentro, repartição por repartição.
O segundo é adesismo, a vocação de se perfilar ao lado de quem guarda a chave do cofre, seja quem for, venha de onde vier.
Para que os dois circulem sem constrangimento, existe ainda uma palavra de socorro, pronunciada com o ar grave de quem explica o óbvio a crianças: pragmatismo.
Assim perfumado, o toma lá dá cá ganha gravata, frequenta seminários e passa a atender pelo nome de governabilidade.
Um velho cacique baiano, que conhecia como poucos os atalhos do mando, resumiu a filosofia com rara franqueza: “É melhor sofrer no poder do que longe dele”. Nenhum tratado de ciência política foi tão honesto.
A oposição é fria, sem caneta, sem cargo, sem gabinete com vista. O Executivo exerce sobre o Parlamento a atração do ímã sobre a limalha, e a limalha nunca pediu explicações.
O novo Congresso acrescenta uma camada ao enredo. Nas urnas, a direita radical engoliu a direita tradicional, aquela mais afeita ao garfo e à faca do que ao megafone, e saiu rachada da disputa.
É nessa fissura que se desenha a eleição para as presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. Os atuais ocupantes das cadeiras já percorrem gabinetes e telefonam para novatos que nem tomaram posse.
Acenam a uma ala enquanto conversam com a outra, e assim vão abrindo rachaduras onde os adversários supunham haver concreto. Quem aposta contra eles subestima a engenharia nacional das acomodações e, sobretudo, a cabine indevassável, onde a disciplina partidária tira férias e a consciência vota sem testemunhas.
No papel, o presidente reeleito terá pela frente o Congresso mais à direita e mais hostil de todos os seus mandatos, com uma base leal que mal chega a dois em cada dez votos.
Todo o resto terá de ser comprado à prestação, projeto por projeto, emenda por emenda, junto ao bloco que nunca é governo nem oposição, mas jamais deixa de estar no poder.
Esse bloco detém 49% da Câmara e 40% do Senado. É o fiel da balança. E fiel, em Brasília, só a balança.



