Opinião

Barbeiragem ou malandragem?

Durante décadas, as pesquisas eleitorais cumpriram no Brasil o papel modesto e útil de um termômetro. Mediam a febre da disputa, mostravam quem subia e quem derretia, e davam a quem vota uma fotografia, ainda que borrada, do humor nacional.

Em algum momento, o termômetro foi promovido a cabo eleitoral. Ganhou horário nobre, manchete, grupo de WhatsApp e palanque. Passou a ser exibido como prova de triunfo antecipado e distribuído como santinho com selo de cientificidade.

O cidadão, que antes consultava os índices para se informar, passou a ser bombardeado por eles para ser convencido.

No último dia 25 de outubro, as urnas devolveram a encomenda ao remetente. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, o oposto do que anunciava quase todo o mercado na reta final.

Na véspera, Datafolha e Quaest davam 51% a 49% para o senador. A AtlasIntel, queridinha dos rankings de precisão, também apostava em Flávio, por 50,8% a 49,2%. Gerp e Real Time Big Data esticavam a vantagem do candidato do PL para quatro pontos ou mais. O vexame não começou ali. No primeiro turno, as sondagens colocavam Lula na frente, e foi Flávio quem terminou adiante, 47% a 45%.

Em vários estados, institutos se contradiziam com uma desenvoltura de fazer corar qualquer calouro de estatística. Foram duas rodadas e dois tombos, cada um para um lado.

Diante de tamanho constrangimento, a pergunta inevitável é a que dá título à reportagem de André Jankavski no Brazil Journal: o que precisa mudar nas pesquisas?

O jornalista ouviu medalhões da área, e os diagnósticos convergem de forma desconcertante. Carlos Augusto Montenegro, que comandou o Ibope por mais de quatro décadas, reconhece que a opinião muda numa velocidade que os questionários não acompanham.

O levantamento envelhece entre a coleta e a divulgação, e cada lance da corrida segue reverberando nas redes e nas conversas de família muito depois de acontecer.

Clifford Young, da Ipsos, aponta outro ponto cego: cerca de três milhões de votantes a mais compareceram no segundo turno. Para ele, o resultado se deve menos à troca de votos e mais a quem resolveu sair de casa, um movimento que, admite, a indústria não soube captar.

Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, foi além e disse o que poucos donos de instituto têm coragem de admitir em público: o entrevistado mente. Esconde o voto, disfarça a inclinação e responde o que julga socialmente aceitável.

Para dar conta desse eleitor dissimulado, ele propõe aferir, além da intenção de voto, a satisfação com o candidato, a firmeza da opção e a disposição de mudar, e acompanhar um painel fixo de pessoas do início ao fim da corrida.

Montenegro defende combinar entrevistas presenciais, telefônicas e online, e até ressuscitar a velha boca de urna. Young cobra que as empresas do ramo esclareçam melhor os limites do produto que vendem, já que um 51% a 49% com dois pontos de tolerância estatística é empate, não profecia.

Tudo muito sensato, tudo muito acadêmico, e é justamente aí que mora o incômodo. Se a ciência estava tão ciente das próprias fragilidades, onde estava essa humildade quando os percentuais eram despejados diariamente como sentença, replicados por comitês, comentaristas e torcedores como jogo decidido?

A ressalva do empate, tão lembrada agora, aparecia em letras miúdas na véspera, quando aparecia. Os mercados de previsão, embalados pelo noticiário, chegaram a dar mais de 80% de chance a Flávio.

Unanimidade desse tamanho não nasce do acaso, nasce de dados que se retroalimentam.

Sobram duas leituras possíveis, e nenhuma é confortável. A primeira é que houve manipulação: levantamentos calibrados para inflar este ou aquele nome, fabricar ondas, desanimar adversários e servir a quem paga a conta. Seria gravíssimo. A segunda é que houve falha em escala industrial, com metodologias distintas tropeçando na mesma pedra, ao mesmo tempo e na mesma direção. Seria apenas ridículo.

Entre a fraude e a incompetência, o setor terá de escolher qual carapuça prefere vestir. A urna, que não tem cliente a agradar nem intervalo de confiança a proteger, já deu o veredito.

Foram 21 pesquisas nacionais na reta final. Dezoito apontaram o vencedor errado. Dezessete falharam além da margem de erro que as próprias empresas declaravam. E todas, sem uma única exceção, subestimaram o presidente que acabou reeleito.

A ironia é que os pesquisadores têm muito a aprender com o próprio entrevistado. O brasileiro pode até enganar quem bate à sua porta com uma prancheta, mas foi absolutamente sincero diante da urna.

Já os institutos fizeram o caminho inverso: exibiram certeza nas câmeras e foram desautorizados no território onde a opinião pública não se deixa forjar.

Enquanto não resolverem se querem voltar a medir a temperatura do país ou seguir militando, cada nova rodada chegará ao público com a credibilidade de uma promessa de campanha: ouvida por educação, descartada por experiência.

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