Opinião

Me engana que eu voto

Na velha tradição oriental, três macacos ensinam a virtude da prudência: um tapa os olhos, outro cobre os ouvidos, o terceiro fecha a boca.

O Brasil, sempre criativo, acrescentou à fábula um quarto personagem, mais sofisticado que os originais. Ele enxerga tudo, escuta tudo, discursa sobre tudo e, ainda assim, nunca está a par de coisa alguma.

Mora no Palácio do Planalto, assina os decretos, nomeia os ministros e é sempre o último a tomar conhecimento do que acontece dentro de casa.

Quem acaba de passar essa figura a limpo, com humor ácido e memória implacável, é o economista e colunista Rodrigo Constantino, em artigo que parte da sabatina de Lula na Globo.

Ali, diante das câmeras, o presidente afirmou desconhecer que o Bolsa Família estava sem correção havia quase quatro anos, ou seja, desde o primeiro dia de seu próprio mandato.

Achou “inexplicável” que, num governo do Lula, alguém deixasse de repor a inflação no bolso dos mais pobres. Disse isso, observa Constantino, com o semblante de quem acaba de fazer uma revelação.

O autoproclamado pai dos pobres não tinha notícia do congelamento do maior programa social do país, o mesmo que exibe como troféu em cada palanque.

Aliás, a constatação veio em hora oportuna. O reajuste saiu em plena campanha, num país em que o candidato à reeleição usa a máquina pública sem freio algum. O Bolsa Família é apenas a vitrine de uma enxurrada de benesses eleitorais sem precedente na história republicana.

Em junho, o impacto estimado das medidas girava em torno de R$ 200 bilhões, e hoje já ultrapassa R$ 300 bilhões, despejados sobre contas públicas estouradas e uma dívida que não para de subir.

É o retrato de um governante disposto a comprometer o futuro do país inteiro para garantir mais um mandato. É também o retrato de uma legislação que precisa mudar com urgência, porque não há democracia saudável quando o incumbente pode transformar o Tesouro em comitê de campanha.

Mas voltemos ao desconhecimento, que é o verdadeiro patrimônio político de Lula.

Constantino lembra que a trajetória do petista cabe numa única frase, repetida como mantra ao longo de três mandatos.

Ele não sabia do mensalão nem do petrolão. Não sabia das reformas no tríplex do Guarujá nem das obras no sítio de Atibaia. Não sabia quem era a sócia do filho, não sabia do tráfico de influência que rondava a família, não sabia das tramoias de quem chefiava seu gabinete.

A imprensa noticiava, os delatores detalhavam, o país inteiro assistia, e o presidente seguia em sua bolha de ignorância conveniente.

Alguns capítulos clássicos completam o álbum. Em 2005, no auge do mensalão, Lula foi a Paris e, numa entrevista, tratou o caixa dois do PT como prática corriqueira da política brasileira.

Semanas depois, foi à televisão declarar-se traído por companheiros cujas práticas, evidentemente, desconhecia.

No ano seguinte, petistas foram flagrados com cerca de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo para comprar um dossiê contra adversários tucanos. O presidente batizou-os de “aloprados”, como se fossem moleques travessos agindo por conta própria, longe dos olhos do chefe.

Agora a coleção ganhou novas peças. Além do Bolsa Família, entraram as apostas on-line. O governo regulamentou as bets em 2023 e, anos depois, já com o calendário eleitoral correndo, o presidente revelou-se “estarrecido” com relatos de famílias arruinadas, dívidas milionárias e até suicídios.

Num podcast, explicou com a candura de sempre por que não agiu antes: “Porque eu não sabia”. Quem assinou a lei que pôs o setor sob a tutela do Estado simplesmente ignorava o que se passava com milhões de brasileiros.

O mesmo véu cobre Alexandre de Moraes. Na sabatina, Lula reduziu a pressão pelo impeachment do ministro a mero revanchismo pela prisão de Bolsonaro. A proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, o jatinho, o contrato milionário do escritório da esposa com o Banco Master, as mensagens e o rosário de promiscuidades que hoje sacode o Supremo não entram na equação presidencial.

Para Lula, Moraes prestou “grandes serviços à democracia”, e censura, arbítrio e toga a serviço da política seriam meros detalhes.

Constantino deixa no ar a dúvida que se impõe: o presidente não sabe ou prefere não saber?

O padrão é tão previsível que virou gênero humorístico. A internet acumula memes, montagens e anedotas sobre o presidente desinformado, e a piada pronta se renova a cada entrevista.

Constantino brinca que logo Lula dirá que não sabia ter um filho, ou que Lulinha é, na verdade, filho de Jair Bolsonaro. A brincadeira nem soa tão absurda.

Sobre as encrencas do filho, investigado por tráfico de influência e citado em apurações ligadas ao INSS, o pai já declarou que “só ele sabe a verdade”.

Tudo o que dá errado no governo chega a Lula como novidade, e tudo o que dá certo, como obra pessoal. O mais espantoso é a desenvoltura: nenhum rubor, nenhum constrangimento, nenhuma hesitação ao negar o óbvio sobre fatos da própria gestão.

Constantino conclui que restam duas hipóteses, senilidade ou um cinismo que beira o patológico.

Existe, porém, outro ângulo, institucional e talvez ainda mais grave. Se Lula sabia e diz que não sabia, o presidente da República mente ao país sobre atos da sua própria administração, o que já seria motivo suficiente de alarme.

Se de fato não sabia, então não governa. Um chefe de Estado que ignora o congelamento do principal programa social, os estragos de um mercado que ele próprio regulou e os escândalos que fervem na cozinha do Planalto não está no exercício do cargo.

O país, nesse caso, simplesmente está sem presidente. Nenhuma das alternativas absolve, e ambas condenam.

E é justamente esse homem, que a cada mandato confessa ignorar o que se passa no próprio governo, quem agora pede mais quatro anos.

Desta vez, porém, a ignorância não serve de álibi para o eleitor. Ele sabe.

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