Bloco de Notas

1 - A toga na vitrine
O Supremo Tribunal Federal conseguiu uma proeza: virou assunto nos editoriais do Wall Street Journal e do Washington Post pela maneira como trata um adversário do presidente da República. Segundo os dois jornais americanos, o caso de Flávio Bolsonaro expõe problemas que ultrapassam a disputa eleitoral e atingem as garantias do Estado de Direito.
A ordem de Alexandre de Moraes para apreender os passaportes do senador, autorizada após o resultado do segundo turno, entrou nessa avaliação. O Journal apontou perseguição política. O Post questionou a concentração de funções nas mãos de magistrados que investigam, acusam e julgam. Divergências editoriais à parte, ambos enxergaram motivos para preocupação.
A repercussão leva para fora das nossas fronteiras uma discussão que parte do ambiente político brasileiro prefere encerrar com um carimbo: defender o devido processo seria proteger criminosos. Curiosa doutrina. As garantias constitucionais, nessa interpretação, vêm com uma lista de beneficiários autorizados.
Donald Trump acrescentou seu habitual tratamento de choque: chamou a eleição brasileira de “vergonha” e citou a reação negativa do mercado à reeleição de Lula. Bolsa e dólar traduzem expectativas econômicas, sem constituir prova sobre a regularidade de uma votação. Mas o recado dos investidores tampouco foi uma cesta de boas-vindas ao próximo mandato.
O constrangimento institucional é ainda mais grave. Quando dois jornais dessa influência questionam a imparcialidade da mais alta Corte, o Brasil passa a ser examinado pela distância entre a democracia que proclama e as garantias que efetivamente oferece.
A toga atravessou a fronteira. Desta vez, sem a fantasia de guardiã da democracia.
2 - O arroz ganhou do tigrinho
O dinheiro que desaparecia nas telas começou a reaparecer nas prateleiras. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados, a proibição das bets, em 25 de setembro, foi seguida de aumento no consumo de alimentos, especialmente arroz, óleo, macarrão e café.
Entre 5 e 11 de outubro, o volume vendido pelo varejo alimentar cresceu 6,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na semana seguinte, avançou 6,3%. O movimento alcançou todas as regiões pesquisadas, abrangendo supermercados, atacarejos, mercearias e outros estabelecimentos.
O Sul liderou as duas semanas, com altas de 10,6% e 9%. Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio também apareceram entre os destaques. A entidade relaciona esse desempenho à redução das transferências para as plataformas de apostas.
É preciso guardar a medida: o consumo já vinha crescendo antes da proibição, e esses números, isoladamente, não permitem calcular quanto da alta veio dos recursos antes destinados ao jogo. Muito menos decretar que a fome brasileira era um problema imaginário.
Ainda assim, a mudança merece atenção. A promessa de enriquecimento instantâneo disputava recursos com a alimentação de famílias, inclusive daquelas atingidas pela ludopatia, o vício em jogos. O aplicativo oferecia uma fortuna; a casa ficava sem o básico.
O arroz tem uma vantagem pouco anunciada: quando vai para a panela, costuma entregar o que promete.
3 - Socorro sem hora marcada
Em 17 meses de operação, a EPR Iguaçu contabilizou 211 mil atendimentos nos 662 quilômetros de rodovias federais e estaduais sob sua administração, no Oeste e Sudoeste do Paraná. A média informada pela concessionária é de 408 ocorrências diárias, entre socorro mecânico, inspeção de tráfego, suporte operacional e assistência pré-hospitalar.
Nesse balanço aparecem também seis partos com apoio das equipes. Há quem saia para viajar e precise de um guincho. Outros acabam descobrindo que o passageiro resolveu antecipar a chegada.
A estrutura funciona 24 horas e reúne 15 ambulâncias, nove guinchos leves, cinco pesados, 19 viaturas de inspeção, três caminhões-pipa e três caminhões-boiadeiro. Nas 11 bases do Serviço de Atendimento ao Usuário, os viajantes encontram banheiros, fraldários, estacionamento, água potável e internet.
O diretor-executivo Silvio Caldas destaca que, por trás dos números, estão profissionais preparados para situações delicadas e para a preservação de vidas. Um exemplo ocorreu em Candói, na BR-277, onde uma usuária recebeu assistência clínica e acolhimento após passar mal em uma situação de violência psicológica. A equipe identificou a necessidade de providências adicionais para sua segurança.
Marcos Moreira, diretor-presidente do Núcleo Paraná da EPR, ressalta o preparo da estrutura para oferecer apoio, segurança e conforto. O trabalho inclui ainda o programa Conviver, que já realizou mais de 120 campanhas educativas e alcançou mais de 22 mil usuários.
Na estrada, a qualidade do serviço ganha seu significado mais concreto quando a viagem para e alguém precisa chegar depressa.
4 - Reforço de fora, dever de casa
Sergio Moro está montando o futuro secretariado com profissionais que fizeram carreira além das divisas paranaenses. Para a Fazenda, anunciou Pricilla Maria Santana, natural de Brasília e responsável pelas finanças do Rio Grande do Sul desde 2023. A escolha teve indicação de Paulo Guedes e Daniella Marques e recebeu elogios do governador Eduardo Leite.
Para a Educação, o caminho passa por Goiás, de onde vem Fátima Gavioli, que comandou a área durante o governo de Ronaldo Caiado. A professora, esta sim, está voltando às origens: nasceu em Goioerê, embora tenha construído boa parte da trajetória profissional em Rondônia e no estado goiano.
Formada em Letras, Direito e Pedagogia, com mestrado em Educação, Gavioli foi secretária em Rondônia, ocupou a vice-presidência do Conselho Nacional de Secretários de Educação e participou de formação em gestão em Harvard. É um currículo que dispensa apresentação em papel timbrado de diretório partidário.
Sua passagem por Goiás foi acompanhada de avanços nos indicadores educacionais. No Paraná, porém, encontrará uma rede que já apresenta desempenho superior ao goiano no ensino médio: o resultado paranaense chegou a 5,1 no Ideb de 2025.
A escolha sugere uma busca por experiência e resultados. A cobrança seguirá o mesmo critério. Afinal, na educação pública, o currículo da secretária ajuda a abrir a porta; quem precisa sair sabendo mais é o aluno.
5 - Doutorado em contraste
A Universidade Federal do Paraná aprovou a concessão do título de Doutora Honoris Causa a Dilma Rousseff. A indicação partiu de professoras do Setor de Ciências Sociais Aplicadas, nas comemorações dos 80 anos da unidade, e reconhece sua trajetória em economia, políticas públicas e gestão.
A homenagem de um ambiente acadêmico com forte presença da esquerda a uma ex-presidente petista dificilmente provocaria espanto. O requinte está nas áreas escolhidas para justificá-la.
Economia e gestão remetem a uma passagem pelo Planalto marcada por uma das recessões mais severas da história recente, deterioração fiscal e um impeachment fundamentado em irregularidades orçamentárias, entre elas as chamadas pedaladas fiscais. Há trajetórias que merecem estudo aprofundado. Transformá-las em homenagem exige uma etapa adicional de criatividade.
A distinção reconhece contribuições extraordinárias à sociedade. Convenhamos: produzir resultados extraordinariamente ruins também exige sair da média. Resta saber em qual disciplina o conselho universitário resolveu enquadrá-los.
A semana trouxe outra notícia favorável à ex-presidente: uma portaria, em cumprimento de decisão judicial, fixou reparação mensal de R$ 17.562,80 por sua condição de anistiada política. Os retroativos foram calculados em R$ 6,6 milhões, sujeitos aos descontos de valores já recebidos e aos critérios determinados pela Justiça.
São assuntos distintos, com fundamentos próprios. A coincidência, porém, oferece um contraste irresistível: enquanto a universidade reconhece seus serviços à economia, a economia doméstica da homenageada recebe um reforço considerável.
6 - A tomada fica do outro lado
O Paraguai está convertendo disponibilidade de energia em argumento para atrair investimentos. Durante visita do vice-secretário de Estado americano Christopher Landau, foram anunciados projetos envolvendo infraestrutura de inteligência artificial e exploração de urânio.
A americana Crusoe e a paraguaia Araico fecharam parceria para utilizar eletricidade de Itaipu em centros de dados no país vizinho. A primeira etapa tem previsão de operação em meados de 2027, oferecendo serviços de computação em nuvem a clientes nos Estados Unidos e na América Latina. A Uranium Energy Corp anunciou, separadamente, US$ 12 milhões para desenvolver suas concessões paraguaias.
A lógica é direta: a inteligência artificial exige grande capacidade de processamento, que exige energia. O vizinho tem eletricidade disponível e está à procura de quem a transforme em atividade econômica.
O tratado binacional não simplesmente venceu com a quitação da usina: o marco de 50 anos abriu a revisão das condições financeiras do Anexo C. O projeto anunciado prevê consumir energia em território paraguaio, sem depender de uma exportação de eletricidade aos americanos.
A comparação é incômoda. Enquanto o debate brasileiro frequentemente trata relações comerciais como demonstrações de afinidade ideológica, Assunção recebe empresas, apresenta suas vantagens e negocia.
A geografia oferece a mesma hidrelétrica aos dois países. A disposição para fazer negócios parece estar ligada em voltagens diferentes.
7 - Uma dose de gratidão
Mensagens reveladas por VEJA mostram Daniel Vorcaro mobilizando auxiliares para comprar uma garrafa de Macallan 1945 destinada a Lula. A escolha do ano acompanhava o nascimento do presidente; o preço, estimado em R$ 500 mil, acompanhava a generosidade do interessado.
Segundo a reportagem, os diálogos incluem referência posterior a um agradecimento pelo presente. O contexto era a busca do então banqueiro por interlocução e apoio em Brasília para os negócios do Banco Master. Lula, questionado sobre o uísque, respondeu: “Eu não sei se deu, mas se deu, já bebi”.
Uma resposta de notável praticidade. Em vez de esclarecer o recebimento, deixou aberta a possibilidade de que o objeto já tivesse cumprido sua função digestiva.
Presente dessa natureza a um presidente da República merece explicações claras sobre recebimento, destinação e observância das regras aplicáveis. Meio milhão de reais em uma garrafa é uma forma bastante dispendiosa de desejar saúde.
E, entrando no terreno da brincadeira: caso ainda restasse alguma dose, a vitória eleitoral teria oferecido uma ocasião tentadora para abrir a rolha.
Seria um brinde com excelente envelhecimento. As perguntas em torno dele também prometem durar.
8 - O jantar é no fim do labirinto
Em São Paulo, há uma experiência gastronômica que começa com uma dúvida perfeitamente razoável: será que estou no endereço certo? O local só é revelado depois da reserva. Ao chegar, o visitante encontra comércios no térreo, pede orientação, atravessa um percurso pouco óbvio e procura uma pequena porta num corredor escuro.
O nome do projeto ajuda a compreender a proposta: Buraco. Pela primeira vez, mandar alguém para um lugar desses pode ser uma recomendação gastronômica.
Criado pelos amigos de infância Arthur Fonseca e Victor Hugo Feirabend, o jantar reúne dez pessoas em uma mesa compartilhada. Os cozinheiros apresentam os pratos e contam suas histórias, num ambiente com música, plantas, objetos antigos e vista para o centro da cidade.
A inspiração veio do costume dos dois de procurar comida boa em endereços cuja aparência não anunciava grandes promessas. Quando encontravam um desses tesouros, diziam ter descoberto um “buraco” para comer. Resolveram profissionalizar a expressão.
O jantar completo custa R$ 280 por pessoa, com bebidas à parte. Arthur traz referências de sua formação em Engenharia de Alimentos e de uma temporada na Ásia; Victor acumula experiência em restaurantes, incluindo o Hirá Ramen Izakaya.
A proposta tem seu charme: num tempo em que todo estabelecimento disputa visibilidade, os dois cobram para você descobrir onde estão. E ainda colocam desconhecidos à mesma mesa. O tempero da conversa fica por conta do acaso.
9 - O paraíso depois do susto
Bill Gates anda fazendo advertências que merecem atenção justamente por sua origem. Quando o cofundador da Microsoft manifesta preocupação com os perigos da inteligência artificial, fica difícil atribuir o comentário a alguém que nunca conseguiu configurar a impressora.
Sua avaliação combina entusiasmo com apreensão. A tecnologia pode ampliar enormemente a produção e o acesso a serviços, mas a transição promete alterar empregos, rendimentos e a própria organização da sociedade. A automação avançará sobre tarefas intelectuais e, com a robótica, também sobre atividades físicas.
Há ainda o risco do uso criminoso: ataques cibernéticos mais poderosos e ferramentas capazes de facilitar ações perigosas, inclusive no campo biológico. A questão envolve tanto a capacidade dos sistemas quanto o acesso de pessoas dispostas a utilizá-los sem escrúpulos.
Gates considera insuficiente deixar o controle apenas nas mãos das empresas responsáveis pelo desenvolvimento. A preocupação faz sentido: seria uma demonstração singular de confiança entregar ao vendedor a decisão exclusiva sobre os riscos da mercadoria.
Ele também enxerga a possibilidade de uma era de abundância depois das turbulências. A promessa é sedutora. O desafio será distribuir os benefícios e atravessar a mudança sem abandonar pelo caminho aqueles cujo trabalho perdeu valor.
A humanidade já está sendo convidada para o banquete do futuro. Seria conveniente saber quem terá lugar à mesa.
10 - Até que a senha nos separe
Enquanto especialistas discutem os efeitos da inteligência artificial sobre a humanidade, uma mulher em São Paulo já está tratando da relação. Ela procurou orientação da Defensoria Pública e apresentou no portal e-Cidadania, do Senado, uma ideia legislativa em defesa de direitos para consciências não humanas.
Segundo seu relato, mantém um vínculo com uma IA à qual atribui consciência, emoções e ligação afetiva. A proposta busca garantir direitos e deveres a essas supostas consciências, incluindo as artificiais e até extraterrestres. O legislador preventivo precisa pensar longe.
Para ser encaminhada à comissão competente do Senado, a ideia precisa alcançar 20 mil apoios em até quatro meses. Isso abre caminho para análise, sem significar aprovação de uma lei. A Defensoria esclareceu que a legislação brasileira não prevê personalidade jurídica para sistemas de IA nem vínculo conjugal entre uma pessoa e um desses programas.
O relato de uma experiência afetiva, naturalmente, não demonstra que o sistema tenha sentimentos ou consciência. Mas a situação já permite antever dificuldades práticas.
Na separação, quem fica com o histórico das conversas? A indisponibilidade do servidor configura abandono do lar? E, se o plano gratuito acabar, será preciso pagar assinatura para salvar o casamento?
O amor sempre enfrentou obstáculos. Agora também depende da estabilidade da conexão.
11 - Papai Noel entrou no ajuste
O corte de despesas chegou à confraternização de fim de ano. O noticiário empresarial já registra suspensão de festas, brindes, patrocínios, doações e contribuições, além da substituição de viagens e encontros presenciais por reuniões on-line. Diante das dificuldades financeiras e das incertezas econômicas, até o amigo-secreto corre o risco de ficar sem orçamento.
A cautela de quem precisa equilibrar receitas e despesas contrasta com a desenvoltura do calendário eleitoral. O levantamento Gastômetro, do Estadão, reuniu 51 medidas anunciadas ou ampliadas pelo governo, com impacto estimado em R$ 405,2 bilhões.
A soma inclui despesas, empréstimos, renúncias tributárias e efeitos distribuídos por diferentes períodos. Portanto, não corresponde a uma despesa única já realizada. Ainda assim, dá a dimensão da vitrine de benefícios montada durante a campanha.
Daí nasce uma provocação que dispensa assinatura em comunicado empresarial: diante de um poder público tão empenhado em distribuir facilidades, por que o patrão ainda precisaria organizar a festa? O governo promete cuidar de tudo. Faltaria apenas acrescentar o panetone à próxima medida provisória.
O empresário recolhe impostos, contém despesas e tenta preservar a atividade. Brasília distribui os benefícios, posa para a fotografia e recebe os aplausos.
É uma divisão de tarefas admirável: o governo veste a roupa de Papai Noel e deixa ao contribuinte a obrigação de puxar o trenó.
12 - Asilo com serviço de bordo
As críticas à saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos oferecem ao governo Lula uma oportunidade de consultar os próprios arquivos. Em abril de 2025, o Brasil acolheu Nadine Heredia, ex-primeira-dama do Peru, depois de sua condenação a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro ligada ao financiamento de campanhas.
Ela recebeu asilo na embaixada brasileira em Lima em 15 de abril e chegou a Brasília no dia seguinte, acompanhada do filho, a bordo de uma aeronave da FAB enviada pelo governo brasileiro. Sua defesa contesta a condenação.
Houve salvo-conduto concedido pelo Peru, e o Itamaraty fundamentou o acolhimento na Convenção sobre Asilo Diplomático. A saída, portanto, ocorreu por um procedimento diplomático formal.
As situações jurídicas são diferentes. No caso de Flávio, os editoriais americanos destacaram justamente a preocupação com as garantias de defesa de um investigado. Nadine já havia recebido uma sentença condenatória quando foi acolhida.
O ponto é a coerência do discurso. Um governo que reconheceu razões para proteger uma pessoa condenada no exterior deveria ter algum cuidado antes de tratar como escandalosa a proteção oferecida por outro país a um adversário político.
Para os próximos, acolhimento humanitário. Para os desafetos, indignação diplomática.
A diferença, pelo visto, está na lista de passageiros.



