Opinião

Todo mundo pianinho…

Bastou o eco das urnas de domingo atravessar a Praça dos Três Poderes para a orquestra trocar de partitura.

A batuta que durante anos regeu em fortíssimo, entre prisões, censuras e inquéritos sem prazo de validade, desceu de repente ao sussurro.

Em menos de 48 horas, o mesmo Supremo que tratava a direita como caso de polícia descobriu, numa sequência quase coreografada, as virtudes da clemência, da razoabilidade e até da presunção de inocência.

O motivo da súbita afinação está no placar. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, contrariando as projeções dos principais institutos de pesquisa, na disputa mais apertada desde a redemocratização.

Em poucos dias, Tarcísio de Freitas, governador reeleito de São Paulo e aliado de primeira hora, pôs-se à frente da articulação e levou o Republicanos, seu partido, a aderir à candidatura já na quarta-feira. A federação União Brasil–PP seguiu o mesmo caminho e fechou questão em favor de Flávio.

Entre os derrotados na corrida presidencial, Ronaldo Caiado e Romeu Zema logo declararam voto no senador, gesto acompanhado pelo ex-presidente Michel Temer. Os governadores do PL, por sua vez, obviamente, reforçaram o palanque.

A primeira pesquisa PoderData do segundo turno, divulgada nesta quinta-feira, já o coloca com 53% dos votos válidos, contra 47% do petista. O recado mais eloquente, porém, veio do Congresso.

O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988. No Senado, conquistou 19 das 54 cadeiras em disputa e chegará a 2027 com 28 senadores. E é justamente nessa Casa que se julga o impeachment de integrantes da Corte.

A terça-feira, 6, foi o dia da conversão. Alexandre de Moraes autorizou a progressão para o semiaberto da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, a Débora do Batom. Ela foi condenada a 14 anos de prisão por ter escrito “Perdeu, mané” com batom na estátua da Justiça, diante da sede do STF.

Passou cerca de dois anos em regime fechado, longe dos filhos, até chegar à prisão domiciliar em março de 2025. A nova decisão reconheceu 212 dias de remição por trabalho e leitura, mas a mantém em casa, de modo que a mudança é mais de papel do que de rotina. Ainda assim, representa um alívio para quem carrega uma pena que nem o vandalismo mais desabrido justificaria.

No mesmo dia, instado pelo próprio Moraes, o procurador-geral Paulo Gonet manifestou-se a favor de que Flávio volte a visitar o pai. A proibição fora imposta em julho, por 90 dias, numa daquelas decisões em que a toga se confunde com o rancor. Detalhe saboroso: o castigo expira neste domingo, 11. A magnanimidade chegou com cinco dias de antecedência sobre o próprio calendário.

Horas depois, Gilmar Mendes entrou na roda. Mandou arquivar o pedido de investigação por estupro contra o deputado Alfredo Gaspar, vice da chapa presidencial. A acusação fora lançada em março pelo deputado Lindbergh Farias, do PT, e pela senadora Soraya Thronicke, do PSB, em meio aos trabalhos da CPMI do INSS, da qual Gaspar era relator.

Depois de vasculhar dados telefônicos, áudios e registros, a PGR não encontrou indícios que sustentassem sequer a abertura de inquérito. Faltou apenas explicar por que essa constatação precisou de sete meses e de um resultado eleitoral para vir à tona.

Moraes ainda arquivou, atendendo ao Ministério Público, a investigação contra os jornalistas Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio pelas críticas ao delegado da Polícia Federal Fábio Shor. Os dois vivem no exterior, exilados de fato, alvos de um aparato que transformou opinião em crime e crítica em ameaça ao Estado. A liberdade de expressão, tantas vezes atropelada, recebeu uma reverência tardia.

A Procuradoria-Geral da República também engrossou o coro. Arquivou a representação em que a Advocacia-Geral da União, pelas mãos de Jorge Messias, cobrava uma investigação sobre suposta interferência dos Estados Unidos nas eleições.

Nas entrelinhas, era um enredo que abria a porta para contestar uma eventual vitória de Flávio. A PGR constatou que o documento do governo se limitava a reproduzir uma reportagem de jornal estrangeiro, sem um único elemento próprio capaz de sustentá-lo. A tese do fantasma importado durou o tempo de uma manchete.

E aqui mora a questão central: por que só agora? Tais gestos foram reclamados por boa parte da opinião pública ao longo de todo o ciclo de abusos. Se a lei não mudou, os autos não mudaram e as provas não mudaram, o que mudou foi o vento. Decisão que oscila conforme o humor das urnas não é jurídica, é política. É a confissão involuntária do ativismo que a Corte sempre negou.

Basta lembrar o episódio da dosimetria. O Congresso aprovou a lei que reduzia as penas dos condenados pelo 8 de janeiro e derrubou o veto de Lula. Promulgado o texto, Moraes suspendeu sua aplicação até que o próprio STF julgasse as ações movidas contra ele. O Legislativo assistiu calado, incapaz de defender a prerrogativa mais elementar de quem faz as leis. Enquanto isso, centenas de pessoas, entre elas muitos idosos e donas de casa, seguiam cumprindo penas de conspiradores, num roteiro de golpe com ares de farsa.

E o inquérito das fake news, o célebre inquérito do fim do mundo, permanecia aberto, sem objeto definido nem data para terminar.

Nada disso aconteceu por acaso. Desde 2022, formou-se em Brasília um condomínio de interesses entre o Palácio do Planalto e um tribunal majoritariamente composto por indicados de governos petistas. Esse tribunal passou a usurpar funções do Executivo e do Legislativo e a operar como braço auxiliar do governo de turno.

A população enxergou. Enxergou o autoritarismo, a perseguição, a tirania de gabinete, e respondeu do único jeito que a democracia lhe permite.

A gentileza repentina dos ministros não é arrependimento. É medo do que 2027 pode reservar a quem passou tanto tempo confundindo a magistratura com trincheira.

A trégua, entretanto, está longe de significar pacificação. Na leitura de analistas atentos aos bastidores de Brasília, a mansidão da Corte segue alinhada aos interesses do Planalto.

Lula passou a falar em “promiscuidade” no Supremo e a acenar com uma nova reforma do Judiciário, porque sabe que precisa aplacar a fúria do eleitorado contra os magistrados antes do dia 25. Os dois lados compõem o mesmo ecossistema, e a salvação de um é a salvação do outro.

O petista empunha o discurso crítico, os togados recolhem as garras, e todos tentam atravessar o segundo turno com a pele intacta.
É o início da dinâmica do salve-se quem puder.

O Supremo já vislumbra que, com Flávio no Planalto e uma maioria favorável no Senado, será difícil segurar na gaveta os pedidos de afastamento de seus integrantes.

Há ainda um ingrediente menos ruidoso e talvez mais decisivo. O próximo presidente fará ao menos três indicações à Corte, com as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, em 2028, Cármen Lúcia, em 2029, e Gilmar Mendes, no fim de 2030. Pode chegar a quatro, se continuar vaga a cadeira de Luís Roberto Barroso, sem dono desde que os senadores barraram justamente Jorge Messias.

A hegemonia petista no plenário, erguida nomeação após nomeação, entra em contagem regressiva.

Os senhores que se julgavam a última palavra da República acabam de descobrir que ela sempre pertenceu a outro dono. E esse dono, que no domingo abriu 2.224.965 votos de vantagem, ainda não terminou de falar.

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