Opinião

Muffato dá a largada ao varejo do amanhã

Toda ida ao supermercado sempre teve a sua liturgia: o carrinho de rodinha teimosa, a fila que avança no compasso da paciência alheia, o canto eletrônico do leitor de código de barras e aquela pergunta que se tornou quase uma saudação nacional, “CPF na nota?”.

Pois esse ritual acaba de ganhar uma versão sem altar e sem sacristão. Em Curitiba, o caixa não foi extinto. Evaporou. Virou teto, virou prateleira, virou balança, e espalhou-se pelo ambiente como um perfume discreto que tudo percebe e nada pergunta.

A cena tem endereço: Avenida Cândido de Abreu, 96, no Centro Cívico, em frente ao Shopping Mueller. Ali o Grupo Muffato inaugurou nesta quarta-feira, 21, a nova unidade do Muffato Go, apresentada pela rede paranaense como a primeira loja 100% operada por inteligência artificial da América Latina.

O consumidor escolhe o que deseja e vai embora sem enfrentar operador nem espera. Por trás da aparente simplicidade trabalha um arsenal que reúne visão computacional, aprendizado de máquina, redes neurais e sensores, capaz de reconhecer cada mercadoria retirada das gôndolas e de converter o gesto do cliente em cobrança automática.

A unidade não nasceu pronta. Ela é herdeira de uma primeira experiência aberta em 2022, também na capital, num espaço de cerca de 300 metros quadrados, espécie de ensaio geral antes da estreia. Agora são 700 metros quadrados, investimento de cerca de R$ 12 milhões, mais de 3.200 itens e setores que antes não existiam ou tinham sortimento tímido, como padaria, açougue e hortifrúti.

O diretor do Grupo Muffato, Ederson Muffato, resume a travessia: “A primeira loja, que abrimos em 2022, foi um projeto completamente inovador e uma oportunidade de testar a inteligência artificial, o modelo de negócio e os sistemas. Ao longo desses quatro anos, aprendemos e entendemos quais tecnologias conseguiríamos adaptar ao varejo brasileiro. A nova geração do Muffato Go é resultado desse trabalho, com mais de 600 câmeras e 700 sensores integrados”.

A engenharia desse olhar onipresente tem sotaque lusitano. A visão computacional é obra da portuguesa Sensei, enquanto as integrações com caixa, faturamento, emissão de notas fiscais e aplicativo foram desenvolvidas por parceiros e pela equipe de tecnologia do próprio grupo.

O CEO e cofundador da Sensei, Vasco Portugal, dono de um sobrenome que funciona como certidão de origem, descreve o mecanismo: “A tecnologia utiliza câmeras no teto, que identificam os clientes de forma anonimizada, e sensores nas gôndolas, que detectam variações de peso e identificam de onde cada produto foi retirado. Para o consumidor, isso se traduz em uma experiência de compra autônoma, sem atritos. Ele pode fazer as compras sem passar por um caixa convencional ou utilizar o self-checkout, conferir a cesta e efetuar o pagamento”.

E detalha o papel das prateleiras nesse balé silencioso: “O reconhecimento dos produtos é feito por sensores nas gôndolas. À medida que o cliente toca ou pega um produto, os sensores registram a ação. Além disso, cada gôndola tem uma câmera direcionada para os produtos. A Inteligência Artificial, por meio da visão computacional, identifica o que o cliente compra”.

O resto tem algo de prestidigitação. Bateu o arrependimento e o pacote de biscoito voltou ao lugar? O sistema percebe e o exclui da conta, sem que ninguém precise conferir etiqueta por etiqueta. A balança também ganhou discernimento próprio: reconhece o consumidor e lança o item pesado direto na cesta virtual. E as redes neurais aprendem com a própria rotina da loja, afinando a pontaria a cada dia, como um aprendiz que jamais falta ao expediente.

A grande novidade em relação à primeira versão, porém, é de natureza quase sociológica. Antes, só entrava quem baixasse o aplicativo, fizesse cadastro e entregasse os dados do cartão de crédito. O aplicativo continua disponível, com comprovante enviado pelo celular, mas agora quem preferir pode circular sem se identificar, encontrar a compra já montada na tela do terminal, conferir tudo e pagar ali mesmo com crédito, débito ou Pix, ou ainda recorrer ao self-checkout.

A rede entendeu que o brasileiro, desconfiado por formação e escaldado por experiência, gosta de ver para crer. Everton Muffato, diretor da Super Muffato, admite o aprendizado: “Percebemos certa resistência de uma parcela dos consumidores, que se sentia intimidada em cadastrar o cartão. Entendemos que o brasileiro quer ter opções que proporcionem mais conforto e, principalmente, segurança, com a certeza de que está pagando pelos produtos que realmente está levando. Assim, a loja autônoma oferece três formas de pagamento”.

Resta a inevitável dúvida sobre quem vigia o vigilante. A rede garante que o sistema registra as mercadorias sem saber quem as escolheu, e quem simplesmente passa e paga permanece um desconhecido. A identificação só acontece quando o cliente participa do ClubeFato, o programa de relacionamento do grupo, que permite associar as compras ao cadastro e acompanhar a frequência de visitas e os produtos adquiridos, exatamente como ocorre em qualquer supermercado convencional.

Fica o lembrete elegante de que, no varejo moderno, o anonimato também é mercadoria de prateleira, à disposição de todos, desde que ninguém o troque por pontos de fidelidade.

O poder público compareceu para abençoar a novidade. O vice-governador Darci Piana enxergou na inauguração um termômetro da economia paranaense: “A inauguração de uma loja com esse nível de tecnologia, que chama a atenção também no cenário internacional, mostra o bom momento vivido pelo Paraná e a capacidade do Estado de criar um ambiente favorável aos investimentos. É motivo de orgulho para o nosso Estado e para Curitiba, porque iniciativas como essa contribuem para o desenvolvimento econômico e a modernização do setor produtivo”.

Já o prefeito Eduardo Pimentel preferiu a perspectiva de quem empurra o carrinho: “É uma loja moderna, que facilita a vida do cliente. É o futuro do varejo, com soluções que tornam as compras mais rápidas e práticas. Curitiba está sempre aberta aos negócios inovadores, e é uma alegria receber um investimento como esse na nossa cidade”.

O passo seguinte dependerá do desempenho desta unidade, mas o horizonte já se desenha. À medida que os números confirmarem a aposta, o grupo admite abrir novas lojas no formato, com dimensões ajustadas a cada localização, que podem chegar a 900 ou 1.000 metros quadrados.

O apoio para isso é uma tecnologia hoje bem mais escalável do que há quatro anos. A expansão, de resto, segue em marcha batida. A previsão para 2026 é abrir 14 lojas somando os diferentes formatos da rede, e 2027 deve manter ritmo semelhante.

Só em Curitiba, depois de quatro inaugurações em 2025 entre supermercados Super Muffato e unidades do MAX Atacadista, a meta é chegar a 18 endereços em 2026, sendo 12 supermercados e seis atacarejos, além de um centro de distribuição para abastecer a região.

Tudo isso se sustenta numa estrutura de cerca de 120 lojas espalhadas por 53 cidades do Paraná e de São Paulo, com mais de 23 mil colaboradores e mais de 10 mil empregos indiretos. Em 2025, o faturamento foi de R$ 20,3 bilhões, o que garante ao grupo o sexto lugar entre as maiores redes supermercadistas do Brasil e o posto de única paranaense no seleto clube das dez maiores.

No fim das contas, e as contas agora se fazem sozinhas, o que se abriu no Centro Cívico vai muito além de um supermercado. É o sinal de uma era em que a inteligência artificial abandona os laboratórios e as telas para descer ao chão da vida cotidiana, entre o pão francês e o tomate do hortifrúti.

Durante séculos, o comércio dependeu de mãos que pesavam, olhos que conferiam e vozes que anunciavam quanto se devia. Agora são algoritmos que enxergam, sensores que sentem e redes que evoluem, numa engrenagem que não se cansa, não se distrai e se aperfeiçoa a cada cliente que cruza a porta.

Que esse salto tenha partido de um armazém de secos e molhados aberto em Cascavel há mais de meio século, e não de algum gigante do Vale do Silício, diz muito sobre a ousadia de quem se recusou a esperar o futuro chegar de importação e decidiu fabricá-lo em casa.

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