Opinião

Quem pode muito deve muito

Marés políticas costumam virar sem aviso, mas a de 2026 deixou o recado escrito na areia.

Se as urnas de 25 de outubro confirmarem o que o primeiro turno desenhou, o Brasil encerra um período de quase duas décadas da esquerda no Palácio do Planalto.

Por esquerda, entenda-se o PT e suas linhas auxiliares. O ciclo só foi interrompido pelos pouco mais de dois anos de Michel Temer, herdeiro do impeachment de Dilma Rousseff, e pelos quatro anos de Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro saiu da primeira rodada cerca de 2,2 milhões de votos à frente de Lula, e as primeiras pesquisas divulgadas na semana passada já apontam vantagem superior a 6 milhões.

Nem os próprios petistas escondem que a virada, embora possível, beira o improvável.

No Congresso, o PL elegeu 121 deputados, a maior bancada da Câmara desde a Constituição de 1988. Terá 28 senadores a partir de 2027 e conquistou cinco governos estaduais logo no primeiro turno.

As engrenagens dessa ascensão foram desmontadas peça por peça em reportagem do Estadão assinada pelas jornalistas Melissa Duarte e Danielle Brant. Com base em especialistas, o texto enumera dez fatores, aqui condensados.

Bolsonarismo institucionalizado. Depois da passagem pelo PSL e da tentativa frustrada de criar o Aliança pelo Brasil, Bolsonaro encontrou no PL de Valdemar Costa Neto, em 2021, sua morada definitiva. O partido virou a tradução formal do movimento, com bandeiras como família, vida desde a concepção, liberdade de expressão, propriedade privada e agro, empunhadas pelos herdeiros políticos do clã.

Força antissistema. O cansaço com instituições que não entregam saúde, segurança, emprego e poder de compra empurrou o eleitor para quem prometia ruptura, fenômeno que se repete mundo afora. O paradoxo é que boa parte desse discurso sai da boca de quem frequenta os corredores do sistema há anos.

Antipetismo e rejeição ao STF. O desgaste do governo Lula somou-se à crise do Supremo. O escândalo do Banco Master respingou mais nos ministros da Corte do que no candidato do PL, e a crítica ao tribunal virou o eixo das campanhas ao Senado.

Fundão turbinado. A bancada robusta de 2022 rendeu ao partido a maior fatia do fundo eleitoral, R$ 881 milhões. O dinheiro multiplicou candidaturas competitivas e bancou impulsionamento pago nas redes, contornando as limitações de alcance impostas por TSE e Meta.

Nova geração. O partido apostou em rostos jovens para associar mudança a vigor, e até veteranos trataram de remoçar a aparência.

Sentimento do eleitorado. Enquanto o PT revisitava glórias de mandatos antigos, o PL mirou as dores do presente, sobretudo o custo de vida. O campo progressista perdeu a sintonia com temas como as novas formas de trabalho.

Falta de respostas do governo. O pacote de véspera, com reajuste do Bolsa Família, proibição das bets e um novo Desenrola, não aplacou a insatisfação. O eleitor queria explicações sobre os últimos três anos, e elas não vieram.

Redes sociais. Vídeos curtos, humor, ironia e linguagem livre de politiquês, explorando o medo da violência e do desemprego. Nikolas Ferreira, reeleito com mais de 3 milhões de votos, encarna o político que se comporta como influenciador.

Eleitorado evangélico. A direita ocupou as igrejas com mais constância do que qualquer outro campo. Às vésperas do primeiro turno, o Datafolha registrava Flávio com 52% contra 26% de Lula nesse segmento, que reúne quase 27% dos brasileiros.

Avanço do agro. Liberdade econômica e carga tributária menor aproximam o setor do partido. O agro concentra 13% do eleitorado, segundo a Quaest, e tem na Frente Parlamentar da Agropecuária a maior bancada do Congresso.

É no Senado, porém, que o novo tabuleiro revela sua peça mais pesada.

Com 28 cadeiras, mais de um terço da Casa, o PL reúne sozinho as 27 assinaturas exigidas para abrir uma CPI ou protocolar uma proposta de emenda constitucional.

O número ultrapassa a metade dos 49 votos necessários para aprovar uma PEC. Também se aproxima de dois terços dos 41 apoios exigidos para eleger o presidente da Casa, aprovar indicações ao Supremo e leis complementares. Somados aliados como Novo, Podemos e as legendas de centro-direita, a folga se amplia.

É o segundo maior número de senadores alcançado por um partido desde a redemocratização. Só o MDB, com 29 cadeiras em 1990, foi além, e o PL iguala os 28 que o mesmo MDB reunira na legislatura anterior.

Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, desponta como favorito ao comando da Casa. A cadeira vale ouro, porque dela depende a abertura de processos de impeachment contra ministros do STF. Davi Alcolumbre manteve engavetados mais de uma centena de pedidos.

O alvo mais evidente tem nome e sobrenome. Alexandre de Moraes coleciona, na avaliação de seus críticos, um prontuário de excessos: decisões abusivas que extrapolam a função, avanço autoritário sobre prerrogativas de outros Poderes, perseguição a adversários e penas desproporcionais aos condenados pelo vandalismo de 8 de janeiro.

Como cereja amarga, há o contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e o escritório de advocacia da esposa do ministro.

A pergunta inevitável é por que o projeto não se consolidou entre 2019 e 2022. Uma leitura atribui o tropeço ao próprio Jair Bolsonaro, a quem teriam faltado paciência, jogo de cintura e habilidade para o xadrez de Brasília. Outra sustenta que o terreno ainda não estava maduro: a direita era mais torcida que estrutura e não tinha musculatura para sustentar as mudanças prometidas.

A partir de 2027, esse álibi expira. Maioria esmagadora nas duas Casas, governadores alinhados e uma esquerda reduzida a minoria frágil formam um cenário sem precedentes recentes.

A ele se soma a provável chegada ao Planalto de um presidente afinado com o Congresso.

Se eleito, Flávio poderá indicar até quatro ministros à Corte, com um Senado disposto a referendar as escolhas. Assim, o tribunal que hoje concentra a ira do eleitorado conservador seria redesenhado por dentro.

A agenda da direita terá caminho pavimentado: economia de mercado, corte de tributos, ajuste fiscal, controle dos gastos públicos, liberdade para empreender, respeito à propriedade, segurança jurídica, combate duro à criminalidade, redução da maioridade penal e limitação dos mandatos no STF.

Não haverá Congresso hostil, Judiciário blindado ou herança maldita para servir de biombo a eventuais fracassos.

Poder é responsabilidade, e o eleitor que entregou as chaves apresenta a fatura em quatro anos. Qualquer vacilo reabre a porta para o retorno de quem acaba de sair.

A direita caminha para reconquistar o direito de governar. Só não terá o direito de errar de novo.

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