Opinião

O festim dos semideuses

Roma não caiu em um dia. Levou séculos de festas parecidas com essa.

Brasília tem suas cortes — e não apenas as jurídicas. Tem a corte no sentido mais clássico, aquele que Suetônio descreveria com prazer mal disfarçado: a reunião dos poderosos, suas togas modernas, suas liturgias de poder e, sobretudo, o banquete que coroa o cerimonial.

Na terça-feira 12 de maio, o ministro Kassio Nunes Marques tomou posse na presidência do Tribunal Superior Eleitoral e, com a solenidade oficial devidamente encerrada, a Corte foi para o salão.

Numa casa de eventos da Asa Sul, Brasília celebrou — com cardápio, com divisão de classes e com microfone.

A festa funcionou no modelo “por adesão”: ingresso a R$ 800 por cabeça. Para os mortais, claro. Ministros do Supremo Tribunal Federal entraram de graça — como convém a semideuses do Olimpo tupiniquim. Já os colegas do Superior Tribunal de Justiça pagaram como todo mundo, o que, conforme relatos, provocou certa irritação em alguns dos togados.

Irrita, sim, descobrir que a hierarquia divina tem endereço preciso: ela mora no andar de cima do Anexo I.

O recinto, por sua vez, obedecia à lógica imperial: patrícios de um lado, plebeus do outro. A área vip abrigava ministros, celebridades e políticos de peso, banhados no Macallan 18 anos — garrafa que chega a custar R$ 3 mil e tem, convenhamos, um sabor compatível com a altitude do cargo. A propósito, é o scotch preferido do banqueiro Daniel Vorcaro.

Na pista, os advogados. Por lá circulava o Johnnie Walker Black Label, R$ 100, igualmente escocês, igualmente alcoólico, mas portador de uma condição jurídico-simbólica inferior.

Alguns dos plebeus aguardavam pacientemente próximos à fronteira do vip, na esperança de capturar um cumprimento do homenageado quando ele eventualmente atravessasse a divisória entre os mundos.

Roma tinha o Senado e o Fórum. Brasília tem o vip e a pista.

O cardápio não deixou por menos: peixe, filé mignon ao molho madeira, risoto de queijo grana padano, massa, salada, verduras cozidas e coquetel volante. De sobremesa, tortas, mousse de chocolate e churros de banana.

Os convidados — vips ou da pista — beberam o vinho Angelica Zapata. Alguma coisa une os homens acima das diferenças de toga: o vinho argentino serve aos deuses e aos plebeus com a mesma garrafa.

No palco, Jorge Aragão, Ivo Meirelles, Dudu Nobre e Sombrinha entoaram, num momento de involuntária precisão poética, o verso “Vou festejar o seu sofrer, o seu penar”. A pista, presumivelmente, não percebeu a ironia. Ou percebeu e não se importou.

Em seguida, Nunes Marques tomou o microfone e respondeu, no ritmo e na letra: “É hoje o dia da alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar.” O novo presidente do TSE, responsável por conduzir as eleições mais tensas dos últimos tempos, encontrou na segunda voz do samba uma espécie de programa de governo.

O forró e o piseiro ficaram por conta de Xand Avião e Zé Vaqueiro, com quem o ministro também se aventurou pelo repertório nordestino. Gusttavo Lima e a dupla Henrique e Juliano foram, mas não cantaram — o que, dada a circunstância, pode ser interpretado como uma forma de deferência institucional.

Vanderlei Luxemburgo publicou foto com Nunes Marques e escreveu sobre democracia. O técnico de futebol mais demitido do Brasil tem uma sensibilidade para o momento histórico que poucos reconhecem.

Mas a cena mais densa da noite não estava no palco. Estava na geometria dos corpos.

A poucos metros do senador Flávio Bolsonaro — pré-candidato à Presidência e um dos responsáveis por apresentar o pai ao então desembargador Kassio — fumava um charuto o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O mesmo Gonet que assinou a denúncia que resultou na condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Charuto aceso, batuque ao fundo, República em paz.

Na cerimônia oficial, antes da festa, Michelle Bolsonaro e Viviane Barci — esposa do ministro Alexandre de Moraes — sentaram-se lado a lado na plateia. Entre as duas, Yara Lewandowski, mulher do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Uma cena que nenhum roteirista de telenovela teria a ousadia de propor na reunião de pauta.

Ao final da solenidade, Alexandre de Moraes — o ministro que conduziu a ação e assinou a pena de 27 anos imposta ao ex-presidente — cumprimentou Michelle. Teve até uma troca de beijinhos. Tudo muito civilizado.

Em seu discurso de posse, Nunes Marques pregou moderação, advertiu contra “omissões ou excessos incompatíveis com o Estado de Direito” e defendeu a liberdade de expressão. Palavras sólidas, ditas diante de Lula, de Fachin e dos três poderes reunidos em cerimonial. Depois, foi para o salão.

Essa é a Corte de Brasília: parte Supremo, parte show, parte banquete imperial. Tem a solenidade que a República exige e o festim que a Corte merece.

Roma tinha seus patrícios, seus rituais de consagração e seus poetas para registrar a grandeza e o ridículo com a mesma pena.

Nós temos o samba.

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