Opinião

A palavra que o Brasil não aprendeu

Em março passado, “A Riqueza das Nações”, do escocês Adam Smith, completou 250 anos. A data passou sem maiores cerimônias no Brasil — o que, em si, já diz muita coisa.

Foi Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e um dos economistas mais lúcidos do país, quem resgatou o aniversário com a elegância e a precisão que lhe são características, num artigo publicado pela revista Veja no último dia 24 de abril.

O texto se chama “Adam Smith e a Produtividade”, e chega num momento em que o Congresso Nacional debate, com entusiasmo inversamente proporcional ao bom senso, a redução da jornada de trabalho no país.

Dois séculos e meio é tempo suficiente para que uma ideia se revele frágil ou se confirme como pedra fundamental. A Riqueza das Nações pertence à segunda categoria.

Lançado em 1776 — o mesmo ano em que os Estados Unidos declaravam sua independência, como se a história quisesse marcar o nascimento simultâneo de duas grandes liberdades —, o livro foi revolucionário no seu tempo porque demoliu dogmas estabelecidos e ousou explicar a prosperidade não como dádiva de soberanos ou acidente de geografia, mas como resultado de forças econômicas racionais e identificáveis.

O que poucos anteciparam é que ele seguiria revolucionário para sempre.

Os princípios que Smith formulou sobre mercados, divisão do trabalho, iniciativa privada e o papel do lucro são hoje os alicerces do capitalismo moderno e do empreendedorismo que move as economias mais avançadas do planeta.

Quando o mundo quer entender por que algumas nações prosperam e outras estacionam, ainda volta a Smith. A obra não envelheceu — o mundo é que ainda está tentando alcançá-la.

Mailson lembra que ela nasceu para contestar duas correntes dominantes do pensamento econômico de sua época. O mercantilismo francês do século XVII acreditava que a riqueza de uma nação se media pelo estoque de metais preciosos, e priorizava superávits comerciais a qualquer custo. Os fisiocratas do século XVIII foram além: para eles, a agricultura era a única fonte legítima de riqueza, e defendiam o liberalismo econômico com o célebre laissez faire, laissez passer. Smith concordou com o liberalismo dos fisiocratas, mas discordou frontalmente de que a terra fosse o motor da prosperidade. Esse papel, argumentou ele, cabia à divisão do trabalho.

Para demonstrar o ponto, Smith recorreu a um exemplo aparentemente singelo: uma fábrica de alfinetes. Um operário sozinho dificilmente conseguiria produzir vinte unidades por dia. Dividido o processo em etapas — um puxa o fio, outro endireita, um terceiro corta —, um pequeno grupo passaria a fabricar milhares por dia.

A divisão do trabalho aumentava a eficiência, e da eficiência nascia a produtividade, que seria, na visão de Smith, o motor fundamental da geração de riqueza. Simples assim. Profundo assim.

Nóbrega recupera também uma das frases mais célebres do livro: “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm por seus próprios interesses.”

O autointeresse e a busca pelo lucro movem a atividade econômica. Essa força, guiada por uma “mão invisível”, termina por promover o bem-estar coletivo — não por altruísmo, mas por consequência natural do mercado funcionando.

Smith também precisou o papel do lucro: não mera remuneração do capitalista, mas o “combustível” que viabiliza o investimento, a contratação, a expansão da produção. Sem lucro, não há máquinas novas, não há empregos, não há crescimento.

O que o artigo de Mailson não precisa dizer explicitamente — mas que ressoa em cada parágrafo — é o retrato fiel do Brasil contemporâneo.

Num país onde o Congresso discute com fervor a redução da escala 6×1, onde proliferam PECs e projetos governamentais para diminuir a jornada semanal de trabalho, a pergunta que ninguém quer formular em voz alta é precisamente esta: com qual produtividade?

Um trabalhador alemão, no mesmo segmento, entrega o equivalente à produção de cinco brasileiros.

Reduzir horas num país que ainda não resolveu o problema da eficiência é como debater a qualidade do descanso antes de aprender a trabalhar.

E aqui Mailson traz Roberto Campos para o centro do palco, com uma constatação que deveria envergonhar qualquer legislador: na Constituição brasileira, a palavra “produtividade” aparece apenas uma vez. “Eficiência”, duas. “Direitos”, 76 vezes.

Não é estatística, é diagnóstico. É o retrato de uma classe política — e Nóbrega cita nominalmente o PT, para quem o motor da economia é o gasto público e a intervenção estatal — que nunca encontrou espaço, nem vontade, para colocar no centro do debate aquilo que

Adam Smith explicou com clareza meridiana há dois séculos e meio: que a prosperidade não nasce de decretos, nem de benefícios, nem de escalas reduzidas.

Nasce do trabalho eficiente, da divisão inteligente das tarefas, do lucro reinvestido, da mão invisível que organiza melhor do que qualquer ministério.

Duzentos e cinquenta anos depois, o alfinete ainda ensina. O problema é que o Brasil prefere contar os direitos.

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