Opinião

A descoberta do Brasil

Havia, nesta segunda-feira, em Hannover, um homem diante do mundo com um discurso de inauguração. Ele falou de um país que cansou de ser pequeno. De um país que cansou de ser tratado como subdesenvolvido. De um país que cansou de ser invisível. Palavras de quem chega com o passaporte zerado, a alma limpa e o futuro pela frente.

O problema é que o homem se chama Luiz Inácio Lula da Silva. E que ele já foi, antes disso, presidente do Brasil por dois mandatos completos. E que, desde janeiro de 2023, ele já ocupa o Palácio do Planalto pela terceira vez. E que o Partido dos Trabalhadores, sua legenda, governou o Brasil por dezessete dos últimos vinte e três anos. E que agora — pois há sempre um “e agora” nos discursos de Lula — ele busca um quarto mandato.

Lembremos que nesse período de mais de duas décadas, o Brasil conheceu dois mandatos de Lula, um mandato completo de Dilma Rousseff e um interrompido pelo impeachment, seguido de dois anos de Michel Temer — vice que assumiu no lugar da petista — e quatro anos de Jair Bolsonaro.

Tire os seis anos de oposição. Sobram dezessete anos nos quais o projeto encarnado por Lula, com suas variações, seus aliados de ocasião e sua gramática ideológica, esteve no comando. E nesse tempo, que Brasil se construiu?

Um país com a maior carga tributária do mundo em desenvolvimento — não estagnada, mas crescente, voraz, que esfola empresários e empreendedores com a sistemática de um fisco convertido em instrumento de extração.

Um país onde o agronegócio, maior riqueza nacional, maior gerador de divisas, maior fiador do equilíbrio da balança comercial, é tratado como suspeito ideológico. Um país onde movimentos chamados sociais invadem e depredam fazendas com a tolerância institucional de quem prefere a foto à lei. Um país que não respeita o direito de propriedade, pilar inegociável das nações desenvolvidas.

Um país que figura na rabeira dos rankings educacionais mundiais — com índices de aprendizado que envergonham até quem já desistiu de se envergonhar. Nas avaliações internacionais de matemática, ciência fundamental sobre a qual se erguem todas as demais, o Brasil ocupa posições que não são retrato de crise conjuntural, mas de décadas de descaso estrutural. Um país que incentiva a luta de classes (o sórdido “nós” contra “eles”) e trata criminosos como vítimas da sociedade.

Um país em que parcelas significativas da população ainda vivem sem saneamento básico — sem esgoto, sem água tratada, sem o que o século XIX já havia resolvido em boa parte do mundo civilizado. E um país de produtividade acanhada: estima-se que um único trabalhador alemão produz, numa jornada, o equivalente ao esforço de cinco trabalhadores brasileiros. Lula escolheu a Alemanha para anunciar sua visão de grandeza. É uma ironia que o próprio palco denuncia.

Um país que demoniza o empresário, despreza a meritocracia, cultiva programas assistenciais que se multiplicam em vez de se transformar em independência. Um país onde a insegurança jurídica não é acidente — é clima. Onde o investidor, antes de aportar capital, consulta o noticiário judicial como quem checa a previsão do tempo numa cidade propensa a tempestades.

Um país que nos últimos anos assistiu ao Petrolão, ao Mensalão, ao escândalo do INSS e ao caso do Banco Master — todos com marcas digitais num modelo de poder que confunde Estado com partido, partido com governo e governo com impunidade.

E é desse país que Lula falou em Hannover como se o estivesse vendo pela primeira vez.

“Um país que cansou de ser pequeno.” Quem o fez menor?

“Um país que cansou de ser invisível.” Quem apagou as luzes?

“Um país que cansou de ser tratado como subdesenvolvido.” Quem adiou o desenvolvimento?

Há uma palavra para esse tipo de discurso. Amnésia seria gentil demais, porque amnésia pressupõe esquecimento involuntário. O que se viu em Hannover foi outra coisa: a performance cínica de quem tenta apagar a própria obra da memória coletiva para se apresentar, mais uma vez, como a solução do problema que ajudou a criar. A diferença, agora, é que há uma nova eleição no horizonte.

O Brasil desenvolvido que Lula promete criar é o mesmo Brasil que seu campo político vem governando já por dezessete anos. O mesmo país. As mesmas mazelas. E o mais incrível é que ele diz todas essas sandices sem sequer corar.

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