O adulto na sala

O barulho político em torno do anúncio do governo Trump — propor uma tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, conclusão da investigação conduzida pelo USTR (Departamento de Comércio dos Estados Unidos) ao amparo da Seção 301 da lei comercial americana — provocou no Brasil o costumeiro festival de reações: indignação performática, retórica soberanista, acusações de imperialismo e, claro, a promessa vaga de que o país saberá “negociar com firmeza”.
É nesse contexto de confusão ruidosa que a voz do embaixador Rubens Barbosa chega como água fria. Não para confortar, mas para esclarecer.
Barbosa não é um comentarista. É um diplomata da mais alta estirpe — ex-embaixador do Brasil em Washington e em Londres, dois postos que, sozinhos, já seriam currículo suficiente para qualquer vida na carreira. Conhece por dentro a cabeça do governo americano, compreende sua lógica institucional e sabe distinguir o que é discurso do que é intenção real.
E sua leitura sobre o atual episódio não deixa margem para o autoengano: os argumentos do Brasil já foram apresentados, já foram desconsiderados e continuarão sendo. Porque, nas palavras dele, “o objetivo é outro”.
Qual objetivo? Para entendê-lo, convém voltar à origem. Trump nunca escondeu sua devoção às tarifas — chamou-a, literalmente, de “a palavra mais bela do dicionário”.
No Clube Econômico de Chicago, durante a campanha, explicou a lógica com a clareza brutal de quem não se preocupa em soar elegante: quanto mais alta a tarifa, maior a pressão para que empresas americanas instaladas no exterior tragam sua produção de volta para o solo americano.
O alvo principal era a China, que havia surfado décadas de globalização com mão de obra a custo quase escravo, incentivos fiscais generosos e ampla tolerância do Ocidente.
Mas o projeto era mais amplo: reindustrializar os Estados Unidos, reduzir o déficit comercial, punir quem se beneficiou das regras do jogo sem respeitá-las. “América em primeiro lugar” não era slogan. Era programa.
Esse programa, no entanto, encontrou um obstáculo jurídico. Em abril de 2025, o tarifaço generalizado, que chegava a 50% em alguns casos, foi derrubado pela Suprema Corte americana, que considerou o decreto um abuso dos poderes de emergência econômica do presidente.
Trump não recuou. No dia seguinte, instituiu uma tarifa linear de 10% como medida provisória, válida até 24 de julho, e acelerou investigações setoriais baseadas na Seção 301: um instrumento jurídico que permite punir países por práticas comerciais desleais, mas de forma individualizada, amparada em relatórios investigativos — punição comercial com processo, em vez de decreto de emergência, o que torna a contestação judicial incomparavelmente mais difícil.
A aritmética, como aponta Barbosa, é quase elegante na sua frieza. A tarifa de 25% proposta com base na investigação sobre o Pix, a agenda digital e o desmatamento, somada aos 12,5% da investigação paralela sobre trabalho forçado, alcança por aproximação o mesmo patamar que havia sido judicialmente anulado.
O Brasil não é caso isolado nessa estratégia: União Europeia, Reino Unido e Índia foram alvos de processos similares por conta de impostos digitais que afetavam gigantes americanos como Google e Apple.
Em março, outros 16 países — entre eles Japão, Coreia do Sul e México — receberam investigações sobre excesso de capacidade manufatureira. A Seção 301 tornou-se, na prática, o instrumento preferido de um governo que perdeu uma batalha jurídica mas não abriu mão de seus objetivos.
Há ainda uma dimensão que vai além do comércio bilateral: a contenção da China. As tarifas setoriais carregam embutida uma lógica de segurança nacional — a pressão para que países como o Brasil escolham com mais nitidez de que lado da disputa geopolítica pretendem estar.
Nesse quadro, a relação do governo Lula com Pequim, somada à tensão já existente em torno da designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, compõe um pano de fundo que transforma o que parece ser uma querela comercial em algo consideravelmente mais complexo.
O prazo final para o relatório definitivo do USTR é 15 de julho. Até lá, o período de consultas e audiências públicas permanece aberto, e o governo americano afirma manter negociações com Brasília. Jamieson Greer, o representante comercial, reconhece “divergências substanciais” ainda não resolvidas.
Há exceções negociadas — suco de laranja, café, insumos estratégicos para a própria economia americana —, o que indica que o processo não é completamente impermeável.
Mas a leitura de Barbosa é clara: o espaço de manobra é estreito, e o Brasil faz mal em alimentar a ilusão de que uma boa rodada de negociações vai dissolver uma decisão que tem, antes de qualquer coisa, motivações estruturais.
Conhecer a realidade como ela é — não como gostaríamos que fosse — é o primeiro passo para agir com inteligência diante dela. Foi isso que o embaixador Rubens Barbosa trouxe à mesa. Nem catastrofismo, nem ingenuidade. Apenas clareza.
Às vezes, a contribuição mais valiosa que um estadista pode oferecer é simplesmente dizer a verdade sem ornamentos.
Num país que tem o hábito de tratar diplomacia como propaganda e política externa como palanque, isso já é, por si só, um ato raro.



