Opinião

Brasília, realmente, não é para amadores

Quem quiser entender como o poder realmente funciona no Brasil não precisa de tratados de ciência política. Precisa ler com atenção o que a jornalista Natuza Nery, uma das mais bem informadas sobre os meandros de Brasília, publicou em seu blog no G1 sobre o que ela batizou de “combo Messias-dosimetria” — o duplo movimento que derrubou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal, e aprovou a redução das penas dos condenados pelo 8 de Janeiro.

Dois eventos que pareciam distintos. Eram, na verdade, as duas faces de uma mesma moeda.

A arquitetura da operação, segundo Natuza, tem um maestro visível e um personagem decisivo que preferiu não aparecer. O maestro é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O sujeito oculto — expressão da própria jornalista — é o ministro Alexandre de Moraes. Os dois cultivam uma relação antiga de confiança, jantam juntos em Brasília, se frequentam com intimidade.

E foi sobre essa base que o acordo se sustentou: Alcolumbre jamais promoveria um alívio nas penas dos condenados do 8 de Janeiro sem consultar o relator do caso. E o relator, que até pouco tempo tratava a manutenção das penas como ponto de honra, deu sua anuência. O “herói da resistência”, como ele próprio se projetou, abençoou um recuo a si mesmo.

Vale registrar que a resistência de Moraes à indicação de Messias não nasceu do escândalo do Master — ele apenas a intensificou. Segundo Natuza, o ministro já considerava a indicação um equívoco antes de o caso irromper, e chegou a dizer que Messias perderia. Sua preferência era por Rodrigo Pacheco, seu outro amigo de longa data, que engrossaria as fileiras de aliados dentro da corte. O Master não criou o problema — apenas o tornou urgente.

O gatilho que tornou tudo possível foi justamente esse escândalo. Com André Mendonça alçado à condição de relator do caso — justamente aquele que teria interesse em esclarecer as circunstâncias do contrato da esposa de Moraes —, a vulnerabilidade do ministro cresceu de forma visível. Levar Messias ao STF, nesse contexto, seria reforçar o lado adversário dentro da própria corte. A lógica, então, inverteu-se: barrar Messias tornou-se prioridade. E barrar tinha preço — a dosimetria e o enterro da CPI do Master. O acordo foi fechado. O combo, executado.

Sem Messias, André Mendonça segue em parcial isolamento e em clara minoria — exatamente o resultado que a operação pretendia consolidar.

O desfecho produziu um daqueles quadros que só Brasília é capaz de gerar com naturalidade. Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes, por intermédio de Alcolumbre, converteram-se em aliados de ocasião. André Mendonça, que havia apadrinhado Messias, viu o candidato da mesma fileira religiosa ser entregue pela bancada evangélica — que prometeu votos a favor minutos antes da votação e não os honrou. A traição desfilou sem inibição. E o voto evangélico, que tanto se apresenta como bloco de princípios, rendeu-se sem cerimônia aos interesses do establishment.

É preciso, porém, não simplificar o arsenal de votos contrários ao governo como um bloco monolítico. Havia de tudo no campo dos que votaram contra Messias: desafetos pessoais do próprio candidato, senadores incomodados com Lula por razões as mais diversas, e oportunistas de ocasião que viram na derrota do governo uma sinalização conveniente para o ciclo eleitoral que se aproxima.

Interesses heterogêneos que convergiram para um mesmo destino — o que, longe de enfraquecer a operação, revela sua amplitude.

O que talvez tenha espantado todo mundo foi a dimensão do despreparo do Palácio do Planalto. Enquanto o combo era costurado nos bastidores com a meticulosidade de quem conhece cada corredor e cada interesse em jogo, o governo foi apanhado em estado de sonambulismo político.

O movimento era perceptível a operadores experientes de Brasília — e ainda assim o Planalto foi surpreendido, de calça curta, sem inteligência, sem interlocutores e sem lideranças capazes de ler para onde o vento soprava.

Não é apenas o retrato de uma base esfarelada e sem força de articulação. É o retrato de um governo que chegou ao fim antes do fim — desinformado, desconectado e incapaz de perceber, em tempo real, o andamento da carruagem que ele próprio deveria conduzir.

Há uma ilusão recorrente entre aqueles que acompanham a política brasileira com o coração em vez da cabeça: a de que adversários são permanentes, que posições ideológicas definem campos estanques, que fulano jamais estará do mesmo lado de beltrano.

Brasília trata essa ilusão com desprezo educado. O inimigo de hoje é o aliado de amanhã — e às vezes de hoje mesmo, a depender do que estiver sobre a mesa. Não é hipocrisia. É a política como ela é, e sempre foi.

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