Opinião

O ocidental de aluguel

Existe no vocabulário informal dos expatriados na China uma expressão que diz muito sobre como o mercado pode transformar até a aparência humana em mercadoria: white monkey, ou macaco branco.

O termo não é irônico por acidente. Ele descreve com precisão desconcertante a prática, bastante difundida em cidades de médio e pequeno porte chinesas, de contratar estrangeiros de aparência ocidental não por suas competências, mas pela impressão que causam — a de que a empresa que os exibe tem alcance global, parceiros internacionais e, portanto, maior credibilidade.

A lógica que sustenta o fenômeno tem nome em mandarim: miànzi, que se traduz aproximadamente como “prestígio” ou “reputação social”. Na cultura de negócios chinesa, a face — a imagem que se projeta diante dos outros — é um ativo real, negociável, quase contábil. Se uma empresa tem um estrangeiro a bordo, ela é automaticamente mais respeitada. Quando rostos ocidentais promovem produtos ou aparecem em reuniões estratégicas, o valor percebido aumenta. Nesse cálculo, a presença de um executivo de aparência europeia na sala de reuniões vale tanto quanto um certificado de qualidade — às vezes mais.

A história de Mário, um espanhol que foi à China para trabalhar com a venda de vinhos, ilustra com alguma perfeição a mecânica desse mercado paralelo.

Recebia €3.500 mensais numa rotina convencional, até que um empresário chinês, dono de uma fábrica de móveis com negócios na Europa, lhe fez uma proposta que, de tão direta, soou quase filosófica: queria Mário não pela sua experiência em design, mas pela sua aparência espanhola. A função seria simples — permanecer diante de uma prancheta, simular chefia e ser apresentado a clientes estrangeiros como o responsável europeu pelo design da empresa. Por cada visita, €1.500. Duas visitas por semana. A conta fechou antes que Mário terminasse de pensar.

Não demorou muito para que ele pedisse demissão do emprego anterior. Hoje, mantém uma carteira de empresas chinesas que contratam seus serviços de forma regular — ele se tornou, a rigor, um profissional do faz-de-conta, com agenda, clientes fixos e receita previsível. O ator que nunca pisou num palco encontrou seu mercado numa prancheta de design que jamais usou.

O fenômeno se tornou suficientemente estruturado a ponto de gerar uma cadeia própria: agentes locais de língua inglesa fazem a intermediação entre empresas e estrangeiros, retendo entre 20% e 30% do valor de cada serviço. Há documentação consistente dessa indústria — inclusive um documentário da Al Jazeera e um filme dinamarquês, Dream Empire (2016), que acompanha a ascensão e queda de uma agência especializada em Chongqing, durante o boom imobiliário de 2012, comandada por uma jovem migrante rural que transformava cidades-fantasma em polos de atividade nos dias em que compradores externos visitavam os empreendimentos.

Nos grandes centros urbanos, com maior exposição internacional, a prática perdeu terreno. É nas cidades menores que os white monkey jobs ainda prosperam — justamente onde a aparição de um estrangeiro de terno provoca o efeito desejado sobre clientes e investidores locais menos acostumados à presença externa.

Há algo simultaneamente cômico e revelador nessa prática. Cômico porque reduz o profissional ocidental — frequentemente portador de um diploma e de alguma pretensão intelectual — à função de adereço de vitrine. Revelador porque expõe, com crueza, que a percepção de valor muitas vezes antecede — e supera — o valor real.

Os empresários chineses que contratam um Mário qualquer para sentar diante de uma prancheta não estão enganando a si mesmos: estão vendendo uma ideia para quem quer comprá-la. E, ao que tudo indica, o mercado compra.

No fundo, o white monkey não é uma aberração da cultura de negócios chinesa — é o seu espelho mais honesto.​​​​​​​​​​​​​​​​

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo