Opinião

Bloco de Notas

  1. A República de Lisboa

O ministro Gilmar Mendes decidiu que, diante do escândalo do Banco Master, da exposição de relações promíscuas entre empresários e autoridades e das investigações sobre financiamento de viagens, hospedagens e agendas paralelas de ministros e políticos, o mais prudente seria… ampliar o Gilmarpalooza.

O famoso Fórum de Lisboa, que já virou uma espécie de Davos tropical de toga, desembarca em junho prometendo sua maior edição. Mais convidados, mais autoridades, mais empresários, mais encontros “institucionais”, mais jantares discretamente indiscretos e, naturalmente, mais fotos de gente que deveria manter uma distância sanitária umas das outras.

O apelido pegou porque descreve perfeitamente o espírito da coisa. O Gilmarpalooza já deixou há muito tempo de ser apenas um seminário jurídico. Tornou-se uma espécie de parque temático da elite brasileira, onde ministros, banqueiros, parlamentares e grandes empresários circulam entre palestras sobre democracia e taças de vinho português cuidadosamente harmonizadas com interesses cruzados.

O problema é que o timing desta edição ficou especialmente indigesto. As investigações do caso Master revelaram que o banqueiro Daniel Vorcaro financiou despesas milionárias de autoridades em eventos internacionais, incluindo justamente agendas paralelas ligadas ao encontro em Lisboa. Segundo reportagens e apurações, houve passagens, hospedagens, jatinhos fretados, recepções e encontros privados em valores que fariam corar até certos camarotes da Fórmula 1.

Mas o Brasil perdeu há tempos a capacidade de sentir constrangimento institucional. E talvez seja exatamente isso o mais fascinante no Gilmarpalooza: não é mais necessário esconder nada. O lobby agora circula de crachá.

  1. Amor nos tempos do Supremo

Menos de seis meses após o fim do casamento com Guiomar Mendes, o decano do STF, Gilmar Mendes, já reapareceu acompanhado nos restaurantes de Brasília. O novo affair é a ministra do Tribunal Superior do Trabalho Morgana de Almeida, paranaense de Toledo e ex-cunhada do deputado federal e ex-governador Beto Richa.

Brasília talvez seja a única cidade do mundo onde até os romances vêm acompanhados de árvore genealógica institucional, conexões políticas e referências cruzadas de tribunais superiores.

Morgana foi casada com Pepe Richa e chegou ao TST em 2021, nomeada pelo então presidente Jair Bolsonaro, credenciada por carreira sólida na magistratura trabalhista desde os anos 1990.

Enfim, é vida que segue. Até para os decanos. Entre uma tese constitucional e outra, Brasília continua provando que o amor também frequenta bons restaurantes.

  1. O Japão desembarca em Cascavel

O Catuaí Shopping Cascavel inaugurou nesta sexta-feira (8) uma das maiores unidades da Daiso Japan no Paraná. E há algo de simbólico nisso: o Oeste do Paraná, que há décadas aprendeu a misturar agronegócio, urbanização acelerada e consumo sofisticado, agora ganha também sua versão oficial do minimalismo japonês empilhado em prateleiras organizadíssimas.

A inauguração terá até apresentação de taiko, aqueles tambores japoneses de impacto quase ritualístico. Um contraste curioso com o ambiente habitual dos shopping centers brasileiros, onde o som predominante costuma ser o da praça de alimentação em horário de pico.

A Daiso chega trazendo aquele universo de quinquilharias perigosamente irresistíveis: utensílios de cozinha, papelaria, decoração, organização, produtos orientais e uma infinidade de objetos cuja utilidade ninguém conhecia até vê-los pela primeira vez.

E o Catuaí segue acelerando. Com mais de 280 operações, pouco mais de um ano de funcionamento e 83 mil metros quadrados de estrutura, o shopping virou rapidamente um dos grandes símbolos da nova escala econômica de Cascavel.

Aliás, vem mais novidade por aí: as Lojas Americanas também devem desembarcar em breve no empreendimento. Depois de sobreviver a um rombo bilionário que quase transformou a icônica marca em peça de museu corporativo, a velha gigante do varejo brasileiro está de volta aos bons tempos.

  1. A fé abaixo de duas horas

O queniano Sabastian Sawe entrou para a história ao se tornar o primeiro homem a completar uma maratona abaixo das duas horas: 1h59min30s. Quarenta e dois quilômetros corridos num tempo em que muita gente ainda está escolhendo o café da manhã.

Mas o detalhe mais impressionante talvez não esteja no cronômetro.

Antes de viajar para Londres, Sawe fez o que sempre faz: foi à missa. Pediu orações à comunidade católica da pequena igreja que frequenta no Quênia e embarcou para correr contra um limite que parecia biologicamente impossível.

Segundo membros da paróquia, ele jamais perde um culto quando está em casa. Vai à igreja com a esposa e os filhos, ajuda financeiramente projetos religiosos e costuma doar parte das premiações para obras comunitárias. Um dirigente da igreja resumiu dizendo que, apesar da pouca idade, Sawe “já se tornou um ancião espiritual” da comunidade.

Num tempo em que atletas viram marcas ambulantes e influencers de suplementos, há algo quase desconcertante na simplicidade desse queniano. O homem quebra uma das maiores barreiras da história do esporte e continua sentado no mesmo banco da igreja.

Talvez algumas vitórias realmente não caibam apenas na ciência esportiva.

  1. O MEC descobre o breakdance

Com déficit fiscal, dívida pública em trajetória ascendente e dificuldades até para fechar as próprias contas, o governo federal decidiu abrir uma nova fronteira pedagógica nacional: a Escola Nacional de Hip-Hop.

O projeto custará R$ 50 milhões entre 2026 e 2027 e pretende levar rap, grafite e breaking para as escolas públicas como ferramenta de “inovação curricular” e “engajamento estudantil”.

Naturalmente, ninguém em sã consciência é contra cultura. O problema é outro. O Brasil virou um especialista em criar vitrines pedagógicas sofisticadas enquanto milhões de estudantes saem do ensino médio praticamente incapazes de interpretar um texto simples.

Há escolas sem laboratório, sem biblioteca funcional, sem estrutura básica e, em muitos casos, sem alfabetização minimamente sólida. Mas Brasília continua fascinada pela pedagogia performática — aquela que rende seminário, slogan bonito e aplauso universitário instantâneo.

O dado mais cruel permanece intacto: especialistas apontam que cerca de 95% dos alunos da rede pública deixam o ensino médio como analfabetos funcionais em algum grau. Mas o governo resolveu iniciar sua revolução educacional pelo breakdance.

O Brasil é mesmo um país extraordinário. Aqui o telhado ganha iluminação cênica antes da parede parar de cair.

  1. A pátria das placas de inauguração

O Ministério Público Federal abriu investigações sobre prejuízos relacionados a milhares de obras federais paradas pelo país. Segundo dados do Tribunal de Contas da União, o Brasil acumula mais de 11 mil empreendimentos inacabados.

Onze mil.

O número ajuda a explicar por que o brasileiro vive cercado de esqueletos de concreto, ginásios fantasmas, creches interrompidas, postos de saúde abandonados e rodovias que parecem ter sido bombardeadas durante a execução.

O curioso é que inaugurar obra no Brasil nunca foi difícil. Difícil é concluí-la.

Governos adoram PACs, lançamentos, anúncios, placas, banners, solenidades e discursos sobre transformação nacional. O problema começa exatamente depois das fotografias oficiais.

Enquanto isso, bilhões evaporam em estruturas que apodrecem lentamente sob o sol, o mato e a ferrugem. O Brasil talvez seja o único país do mundo onde a placa de inauguração frequentemente sobrevive mais do que a própria obra.

  1. Cobertura de guerra

Enquanto milhares de jovens ucranianos seguem morrendo na guerra contra a Rússia, o homem mais rico da Ucrânia decidiu resolver um problema habitacional urgente: comprou em Mônaco o apartamento mais caro da história.

Rinat Akhmetov desembolsou impressionantes 471 milhões de euros pela propriedade. Um pequeno gesto imobiliário equivalente a bilhões de reais, realizado enquanto seu país contabiliza destruição, deslocamentos e funerais diários.

É claro que bilionários continuam fazendo negócios durante guerras. Sempre fizeram. Algumas fortunas, aliás, florescem exatamente nelas. Mas há algo particularmente obsceno na naturalidade da operação.

Nem sequer houve preocupação estética em parecer discreto. Nada de uma mansão silenciosa ou um retiro modesto na Riviera. Não. O homem comprou simplesmente o apartamento mais caro já negociado no planeta.

Enquanto isso, soldados seguem dormindo em trincheiras enlameadas.

A humanidade talvez nunca tenha produzido contraste mais cruel do que este: há quem fuja de bombas e há quem escolha a vista para o Mediterrâneo.

  1. O supermercado virou destino

A rede Festval concluiu a revitalização da unidade Hauer, em Curitiba, e a reforma ajuda a explicar uma transformação silenciosa do varejo brasileiro: supermercado deixou de ser apenas lugar de compras. Virou experiência.

A loja ganhou restaurante para 150 pessoas, cafeteria, adega ampliada, renovação completa de iluminação, mobiliário, fachada e setores de perecíveis. Em resumo: o velho carrinho de supermercado agora divide espaço com vinho, gastronomia e convivência.

A unidade integra o processo de incorporação das operações adquiridas da rede Verde Mais, movimento que o Festval tenta transformar numa padronização sofisticada da marca.

E há um detalhe interessante nisso tudo: os supermercados perceberam antes de muita gente que o consumidor contemporâneo não quer apenas abastecer a despensa. Ele quer permanecer no ambiente.

O varejo aprendeu que, hoje, vender tomate e detergente talvez seja apenas parte do negócio. O resto envolve atmosfera.

  1. O homem que salvou as Cataratas

Muito antes de virar estátua, nome de avenida ou personagem escolar, Santos Dumont enxergou nas Cataratas do Iguaçu algo que muitos ainda não percebiam: aquele espetáculo natural não poderia permanecer aprisionado como propriedade privada.

O Parque Nacional do Iguaçu celebra agora os 110 anos da visita do aviador à região, episódio decisivo para despertar atenção nacional sobre as Cataratas e impulsionar o movimento que levaria à criação da unidade de conservação.

A exposição permanente instalada em Foz reúne réplicas do 14-Bis, objetos históricos, audiovisuais e registros da passagem do inventor pelo Oeste paranaense. Mas talvez o mais interessante seja perceber como Santos Dumont acabou se tornando, sem querer, uma espécie de ambientalista antes do conceito existir.

Ao visitar as Cataratas, ele teria se indignado com a exploração privada da área e pressionado autoridades para que aquele patrimônio fosse preservado e democratizado.

No fim das contas, o homem que ajudou a humanidade a voar também ajudou o Brasil a manter os pés fincados sobre um de seus maiores tesouros naturais.

  1. Quando o crescimento cobra a conta

Durante meses, empresários e produtores rurais do Paraná despejaram críticas sobre a Copel por oscilações e interrupções no fornecimento de energia, especialmente no interior do Estado. E muitas delas eram justas.

Mas há um componente importante nessa história: o Paraná cresceu numa velocidade que começou a atropelar parte da própria infraestrutura energética.

A explosão das agroindústrias, da produção de proteína animal e da tecnificação do campo elevou brutalmente a demanda por redes trifásicas e estabilidade no fornecimento. Resultado: a companhia precisou correr atrás do próprio sucesso econômico do Estado.

Agora, o programa Copel Agro tenta acelerar essa recuperação. Em apenas um mês, foram mais de 25 mil atendimentos a produtores rurais e um índice de satisfação de 95,4%. O projeto inclui linha exclusiva de atendimento, reforço de equipes técnicas e ampliação operacional em regiões agrícolas estratégicas.

A velha Copel continua sendo uma das grandes companhias elétricas brasileiras. Mas o episódio deixa uma lição curiosa: às vezes até os problemas do Paraná carregam um certo cheiro de prosperidade.

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