
Quando Ratinho Junior anunciou, na noite do domingo 22, que abandonava a corrida presidencial para cumprir até o fim o mandato no Paraná, o tabuleiro da política nacional perdeu uma peça que tinha grande potencial na disputa pelo Planalto — mas a sucessão estadual ganhou, em tempo integral, o seu principal condutor.
O governador, que era o nome mais competitivo do PSD no cenário eleitoral, e que em projeções de segundo turno encostava no limite do empate técnico com o próprio Lula, optou por concentrar toda a sua energia política na preservação e continuidade do seu legado.
A justificativa oficial para a desistência de Ratinho — desejo de se dedicar aos negócios da família e compromisso com os paranaenses — convive nos bastidores com uma leitura menos sentimental: o projeto nacional não amadureceu o suficiente para justificar o risco de perder, ao mesmo tempo, a Presidência e o controle do próprio território.
A filiação do senador Sergio Moro ao PL, selando aliança com Flávio Bolsonaro para ter palanque no Paraná, acelerou a decisão.
De um lado, Ratinho viu o ex-juiz da Lava Jato — antes desafeto do bolsonarismo e agora reconciliado com o clã do ex-presidente — consolidar uma candidatura competitiva ao Palácio Iguaçu; de outro, percebeu que sua ausência do estado poderia fragmentar um grupo político que já dava sinais de impaciência.
O cálculo, no fundo, ficou claro: mais valia preservar o poder real e local do que embarcar numa disputa nacional sem tração consolidada.
O que se esperava, porém, era que a saída do páreo da Presidência viesse acompanhada de uma definição rápida sobre o candidato do grupo à sucessão. Não veio.
Já se passou quase duas semanas e o governador segue sem apontar o nome.
Os três aliados que orbitam o Palácio Iguaçu continuam no páreo: o secretário das Cidades, Guto Silva, que deixa o cargo mas permanece no PSD; o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi, que migrou para o Republicanos; e o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca, agora no MDB.
Estão em partidos diferentes, mas todos integram o mesmo grupo político do governador — e numa chapa que comporta governador, vice-governador e duas vagas ao Senado, há espaço de sobra para acomodar ambições sem que ninguém precise ficar de fora.
Nos últimos dias, especulou-se intensamente sobre o nome do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, mas ele próprio tratou de encerrar o assunto nesta terça-feira, declarando que fica na prefeitura.
Se o nome do cabeça de chapa permanece em aberto, o governador não ficou de braços cruzados.
Na noite da mesma terça-feira, Ratinho surpreendeu o mundo político do Estado ao anunciar a filiação ao PSD da jornalista Cristina Graeml — a mesma que, em 2024, foi a grande sensação da corrida à prefeitura de Curitiba ao levar o pleito para o segundo turno em duelo contra o candidato do próprio governador, Eduardo Pimentel, obtendo mais de 390 mil votos, a maior votação feminina da história da capital.
Cristina estava no União Brasil e construía candidatura ao Senado, mas a migração de Moro para o PL e a recomposição de forças naquela sigla a deixaram sem espaço.
Ratinho foi buscá-la. O movimento é daqueles que dizem mais do que qualquer discurso: o governador, estrategicamente, trouxe para dentro do seu grupo a principal liderança feminina da direita paranaense, uma adversária de ontem convertida em aliada de hoje, com densidade eleitoral própria e alcance que vai muito além de Curitiba.
Cristina chega ao PSD com status de candidata ao Senado ou mesmo de vice na chapa ao governo — a definição depende da engenharia que ainda está sendo montada.
Voltando à demora de Ratinho no processo de escolha do nome principal, há duas leituras possíveis. A primeira, mais crítica, enxerga nela a evidência de que o grupo governista ainda não chegou a um consenso sobre quem deve encabeçar a chapa. A segunda, mais generosa, vê no silêncio uma estratégia deliberada.
Se não foi proposital, está rendendo dividendos como se fosse.
Desde que anunciou a desistência da Presidência, o governador monopoliza o noticiário político do Estado.
Cada dia sem definição alimenta expectativa, mantém holofotes, gera especulação — exatamente quando o adversário acabara de protagonizar o grande lance da semana com a filiação de Moro ao PL.
O suspense devolve o protagonismo ao Palácio Iguaçu e reafirma Ratinho como o homem cuja decisão todos esperam. Ninguém no Paraná fala de outra coisa.
E é justamente aí que entra o dado mais eloquente dessa equação.
Levantamento do IRG Pesquisas divulgado nesta semana mostra o governador com 88,2% de aprovação — o maior índice já registrado por ele e um patamar raramente alcançado por qualquer governante no país. A desaprovação é residual: 10,3%.
O número não é acidente de percurso. Trata-se de uma trajetória ascendente consistente: em setembro de 2023, o mesmo instituto registrava 75,6%, e no início deste ano a Paraná Pesquisas já apontava 85,5%. A curva só sobe. E o mais notável é que a aprovação ignora as clivagens habituais da política brasileira — alcança 91,9% entre os paranaenses de menor renda e 91,3% entre os de maior poder aquisitivo, sem variação significativa por gênero, faixa etária ou escolaridade.
É, para todos os efeitos práticos, uma quase unanimidade.
O que sustenta esse prestígio não é retórica — é entrega.
Sob Ratinho, o Paraná saltou de sétimo para primeiro lugar no Ideb, posto mantido desde 2021. Na segurança, os homicídios caíram 24% e os roubos 19%, com os menores índices criminais das últimas duas décadas.
O estado subiu de quinta para quarta maior economia do país, atraiu mais de R$ 300 bilhões em investimentos privados, liderou o ranking nacional de desburocratização e ostenta a melhor classificação fiscal entre os estados brasileiros, com nota Capag A+ do Tesouro Nacional.
Em 2025, realizou o maior volume de investimentos públicos de sua história, superior a R$ 7 bilhões, e caminha para ser o primeiro estado a universalizar o saneamento nos termos do Marco Legal.
É um currículo que deu ao governador projeção nacional e, agora, faz dele o cabo eleitoral mais cobiçado da disputa paranaense.
Indefinição ou estratégia, o fato é que o suspense tem prazo.
As convenções partidárias acontecem em julho, a corrida ao Palácio Iguaçu já conta com nomes competitivos de vários campos — de Moro a Requião Filho — e as articulações se aceleram.
Quem quer que receba o selo de Ratinho carregará consigo o peso de quase nove em cada dez paranaenses satisfeitos com o governo.
A grande missão do marketing da campanha, seja qual for o escolhido, será converter esse prestígio em voto — transformar a aprovação do governador em capital eleitoral do candidato.
É um ativo poderosíssimo, e o governador, ao trocar o Planalto pelo Palácio Iguaçu, apostou todas as fichas exatamente nele.
Muito embora a ansiedade por definições tome conta do noticiário, convém lembrar que tudo o que se anuncia agora são pré-definições — movimentos provisórios, sujeitos a chuvas e trovoadas até que as convenções de julho batam o martelo de verdade.
Seja como for, na campanha eleitoral que se avizinha, o eleitor paranaense pode estar certo de uma coisa: não morrerá de tédio..



