O tiro solar que saiu pela culatra

Havia uma promessa bonita demais para ser inteiramente verdadeira: a de que o sol, generoso e gratuito, resolveria de uma vez por todas o dilema entre desenvolvimento e planeta.
A China, maior fabricante mundial de painéis fotovoltaicos, apostou pesado nessa promessa e converteu-a em música para os ouvidos do mundo.
O problema é que a orquestra tocou alto demais, depressa demais, e agora a plateia começa a perceber que faltam instrumentos para sustentar a sinfonia.
Um artigo do Xataka Brasil, ancorado em análise do colunista do Financial Times Adam Tooze, expõe a dimensão do estrago: mais de 40 fabricantes chineses faliram, foram vendidos ou saíram da bolsa nos últimos anos. Um terço da força de trabalho das cinco maiores sobreviventes foi para a rua.
A gigante JinkoSolar, líder mundial do setor, viu a receita cair 29%, o lucro bruto despencar 86% e fechou 2025 com prejuízo líquido bilionário.
A capacidade instalada de produção chegou a 1.000 gigawatts anuais, mais que o dobro da demanda global registrada em 2023. Produziu-se além de qualquer possibilidade de consumo, e o descompasso cobrou seu preço.
O mercado tentou se autorregular como um cartel: mais de 30 empresas firmaram, em 2025, um pacto nos moldes da Opep para conter a oferta e sustentar preços. Seis meses depois, o acordo naufragou: a produção bateu recorde, as instalações triplicaram, os prejuízos se aprofundaram.
Diante do fracasso, foi o Estado chinês quem entrou em cena para arbitrar o rescaldo, promovendo fusões, definindo preços mínimos e tentando organizar aquilo que o mercado, sozinho, não conseguiu conter.
A mão visível substituiu a invisível, numa ironia que os arautos do mercado livre certamente preferem não comentar.
Mas o problema chinês não é só de excesso de fábrica. É também de excesso de painel. A infraestrutura de transmissão e armazenamento não cresceu no mesmo ritmo da instalação solar, e o resultado é energia limpa gerada e desperdiçada por falta de rede capaz de escoá-la. Paradoxo dentro de paradoxo, como bem resume o próprio Xataka.
E aqui o caso chinês soa estranhamente familiar a olhos brasileiros: o Nordeste concentra usinas solares e eólicas que desperdiçam cerca de 20% de toda a eletricidade gerada, sem capacidade de aproveitamento pelo Sistema Interligado Nacional — o mesmo tipo de gargalo que já contribuiu para o apagão de agosto de 2023, que deixou boa parte do país no escuro.
O economista Lars Schernikau resume o cerne da questão com precisão cirúrgica: sol e vento associados a baterias evidentemente conseguem gerar eletricidade; a pergunta que importa é se conseguem entregá-la com a confiabilidade que uma economia moderna exige, sem custos econômicos, ambientais e sistêmicos cada vez maiores. E a resposta, segundo ele, é não.
Ainda assim, o próprio Xataka fecha seu texto com um otimismo que soa mais a desejo do que a conclusão lógica do que acabou de descrever: as empresas chinesas seriam grandes e eficientes demais para desaparecer, a consolidação seguirá seu curso, os preços subirão um pouco, a demanda voltará a crescer.
Pode até ser. Mas a transição energética que se anunciava inevitável, barata e linear está se revelando mais cara, mais lenta e bem mais caótica do que as profecias do Acordo de Paris ousaram admitir em 2015.
Não se trata de negar que fontes limpas tenham lugar na matriz do futuro — têm, e cada vez maior.
Trata-se de reconhecer que sol e vento, por natureza intermitentes, não substituem sozinhos a espinha dorsal despachável que mantém as luzes acesas em qualquer economia séria.
A China, que inundou o planeta com painéis baratos, está descobrindo isso da forma mais dura: na própria conta bancária de suas fabricantes.
Convém que o Brasil, que já sabe o gosto amargo do desperdício solar no Nordeste, preste atenção redobrada antes de repetir, em escala nacional, o mesmo tropeço que agora custa caro aos chineses.



