Opinião

Bloco de Notas

  1. O Paraná exporta mais, mesmo com o cenário externo emburrado

Enquanto o noticiário nacional se dedica a contabilizar as baixas do tarifaço e a lamentar o desgaste da relação com Washington, o Paraná resolveu ignorar o roteiro de lamúrias e faturar US$ 2,34 bilhões em exportações só em julho, alta de 12,7% sobre o mesmo mês de 2025 — e o quarto mês seguido de crescimento de dois dígitos, depois de abril, maio e junho.

No acumulado do ano, a pauta paranaense já soma US$ 14,3 bilhões, 7% a mais que em igual período de 2025, puxada por um conjunto de produtos que revela bem onde está a robustez da economia estadual: óleo de soja bruto disparou 91%, máquinas de terraplenagem cresceram 58,8%, óleos e combustíveis avançaram 27%. Veículos de carga, frango in natura e celulose também tiveram saltos expressivos, todos acima de 20%. A soja em grão, carro-chefe histórico da pauta, respondendo por mais de um quinto de tudo que se vende ao exterior, cresceu 12,4%.

O mapa de destinos também merece nota à parte. A China segue folgada na liderança, absorvendo quase um quarto de tudo que o Paraná exporta, mas quem chamou atenção mesmo foi o Japão, com salto de 78,3% nas compras — um sinal de que a diversificação de mercados, tão discutida em tempos de tarifaço americano, já é fato consumado no estado. De janeiro a julho, o Paraná lidera com folga as exportações da Região Sul, à frente de Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e ocupa a sexta posição entre todos os estados brasileiros.

O saldo da balança é positivo em US$ 1,5 bilhão: o estado vende mais do que compra, mesmo tendo importado quase 13 bilhões de dólares em fertilizantes, combustíveis e — numa curiosidade que também rende nota à parte — automóveis, cuja importação cresceu 280% no período. Num país que discute déficit fiscal como quem discute o clima, o Paraná segue fazendo o dever de casa de exportar. Basta que Brasília não atrapalhe.

  1. O dinheiro dos aposentados também constrói mansão

O dinheiro que devia garantir a velhice de quem trabalhou a vida inteira encontrou, segundo a Polícia Federal, um destino bem mais nobre do que o INSS jamais prometeu: uma mansão em área privilegiada de Brasília, fazendas espalhadas pelo mapa e uma engenharia financeira digna de escritório de contabilidade criativa. No centro da trama está o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula, cuja família e supostos sócios foram alvo de buscas e apreensões na última terça-feira, determinadas pelo ministro André Mendonça, do STF. A investigação nasceu da análise do celular do próprio senador, cruzada com dados da Operação Sem Desconto — que já apura R$ 6 bilhões desviados dos aposentados brasileiros.

O núcleo da estrutura, segundo a PF, era coordenado pelo advogado Willer Tomaz, descrito como uma espécie de despachante de fortunas alheias, um “hub financeiro, patrimonial e logístico” à disposição dos beneficiários do esquema. Empresas de fachada, postos de combustível, aeronaves particulares, contratos de mútuo e depósitos em espécie compunham o quebra-cabeça, montado justamente para dificultar a identificação de quem, no fim das contas, embolsava o dinheiro.

A mansão em Brasília, negociada pelo próprio advogado com participação do senador, é apenas a ponta mais visível de um patrimônio que a polícia ainda tenta reconstruir peça por peça. Enquanto isso, o governo segue explicando ao país por que o rombo fiscal não tem solução à vista — talvez porque parte dele esteja decorando fazendas.

  1. A banheira dos poderosos

Há fotos que não precisam de legenda, e a que vazou do celular do senador Weverton Rocha é uma delas. Nela, uma espécie de banheira de hidromassagem, num rancho em Planaltina, no Distrito Federal, reúne — em 2023 — o então ministro Juscelino Filho, os deputados Elmar Nascimento, Alexandre Ramagem e Paulo Azi, os senadores Efraim Filho e Ângelo Coronel, e, mergulhado até o pescoço, o próprio advogado Willer Tomaz, dono da casa.

Do lado de fora, seco e de terno, o então presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, observa a cena como quem prefere não se molhar, mas não recusa a companhia. PSDB, União, PL, PP, Republicanos: um verdadeiro consórcio partidário reunido na mesma água iluminada de azul.

Nenhum crime é sugerido pela imagem, mas a reação a ela é reveladora por si só. Ramagem sentiu necessidade de explicar publicamente o caráter familiar do encontro; o senador Weverton se disse indignado com o vazamento, como quem se ofende não pelo ato, mas por ter sido flagrado nele. A cena evoca, guardadas as devidas proporções — e trocando os guardanapos pela água morna —, a já célebre farra de Sérgio Cabral em Paris, em 2009, com direito a secretários, empresários e Eduardo Paes numa conta de R$ 1,5 milhão.

Mais recentemente, faz lembrar também a degustação do uísque Macallan em Londres, em abril de 2024, regada por ministros do STF, do STJ, o procurador-geral da República, o então ministro da Justiça e o diretor da Polícia Federal — evento que, por uma dessas coincidências do destino, custou o dobro da farra carioca. E não é a única coincidência: três meses antes daquele brinde londrino, a mulher e os filhos do ministro Alexandre de Moraes haviam assinado um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master.

As lições de mulher de César, ao que parece, seguem sem ser aprendidas. Marmanjos deslumbrados numa água iluminada, sorrisos pueris estampados: é o retrato fiel do fetiche que o poder exerce sobre quem nunca teve a estatura moral para carregá-lo com decência.

  1. Foz do Iguaçu também alimenta a alma

Foz do Iguaçu já é sinônimo de Cataratas, mas o Prêmio Bom Gourmet 2026 veio lembrar que a cidade também sabe cozinhar. Entre os 30 Melhores Restaurantes do Paraná, o Restaurante Ítalo, no Hotel das Cataratas — A Belmond Hotel, ganha destaque entre os primeiros colocados, dividindo os holofotes com a Bona Trattoria e a Quinta da Oliva. Na lista de lugares imperdíveis do destino, somam-se nomes como Capitão Bar, Maki Sushi, Sushi Hokkai e o Restaurante Sabores da Floresta, dentro do Parque das Aves — provando que a curadoria gastronômica da região vai muito além do óbvio circuito turístico.

O Visit Iguassu, entidade responsável pela promoção turística do destino, apoia institucionalmente a edição regional do guia, com distribuição de dois mil exemplares em hotéis e pontos de interesse, e já prepara para outubro uma ativação especial voltada aos estabelecimentos parceiros. Com 16 anos de história, o Bom Gourmet segue como referência de curadoria no estado.

É a prova de que, além das quedas d’água mais fotografadas da América do Sul, a cidade também sabe fazer um prato descer bem — o que, convenhamos, tem seu valor num país onde tanta coisa boa costuma ficar só na propaganda.

  1. Farmácia sem remédio na vitrine

A RD Saúde, dona da Raia Drogasil, decidiu que chegou a hora de reinventar o próprio conceito de farmácia — e a resposta veio em forma de loja conceito, cuja primeira unidade será inaugurada no bairro do Itaim, em São Paulo.

A proposta é simples de descrever e ambiciosa de executar: tirar o remédio do centro do palco e construir uma experiência de consumo voltada a bem-estar, estética e conveniência, num formato que se aproxima mais de uma boutique do que do balcão tradicional cheio de caixinhas e bulas.

É um sinal dos tempos: até a farmácia, historicamente território da urgência, do desconforto e da fila mal-humorada, aprendeu que o cliente também gosta de ser seduzido antes de ser atendido — e que rentabilidade, hoje, se constrói tanto na prateleira quanto na experiência.

  1. Fachin faz média com todo mundo

O presidente do STF, Edson Fachin, abriu a sessão plenária desta quinta-feira (13) com um discurso cuidadosamente equilibrado sobre o compromisso da Corte com a liberdade de imprensa e o direito dos jornalistas ao sigilo de fonte — pronunciado, não por acaso, poucos dias depois de o ministro Alexandre de Moraes determinar busca contra um ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, apontado como fonte de reportagens sobre o uso de carros oficiais pela família do ministro Flávio Dino.

Para chegar à fonte, Moraes decretou a quebra do sigilo telemático do próprio jornalista, numa decisão monocrática que reacendeu o debate sobre até onde vai a paciência do Supremo com quem investiga seus próprios ministros.

Fachin, que conversou com os colegas antes de subir à tribuna, defendeu que a força do Tribunal está na colegialidade — seja para confirmar decisões monocráticas, seja para deliberar sobre elas — e emendou que a apuração de eventuais ilícitos jamais deve mirar a atividade jornalística legítima.

Um discurso de manual, aplaudido por quem só ouviu a primeira metade. Porque a segunda metade, na prática, é um aceno de aprovação à medida de Moraes: fala-se bonito sobre imprensa livre no mesmo fôlego em que se referenda a quebra de sigilo de quem denuncia o próprio Tribunal.

A liberdade de imprensa no Supremo, ao que tudo indica, funciona como discurso de abertura de evento corporativo: obrigatória, bem escrita, aplaudida de pé — e sem qualquer efeito prático sobre o que vem a seguir.

  1. Do selinho de papel ao QR Code

O Festval decidiu reinventar uma das tradições mais queridas — e mais nostálgicas — do varejo brasileiro: a campanha de selinhos. Na quarta edição de “Fãs de Selinhos, Fãs de Descontos”, a rede lança pela primeira vez uma cartela digital integrada ao aplicativo Sou Festval, permitindo que toda a jornada de participação, do acúmulo dos selos ao resgate por QR Code, aconteça direto pelo celular, sem que o cliente precise sequer tocar em papel.

A versão física continua disponível para quem prefere o ritual analógico de colar figurinha por figurinha, numa convivência que a própria rede trata como estratégica: diferentes públicos, diferentes hábitos, mesma experiência de fidelização.

Segundo Paulo Beal, diretor de TI e RH do Festval, a inovação está tanto nos produtos quanto na forma como as pessoas participam da campanha; já Fabiano Szpyra, gerente de Marketing, destaca que a cartela digital nasce para simplificar o processo, automatizar o acúmulo de selos e agilizar o resgate, sem abrir mão da liberdade de escolha do consumidor.

A parceria com a Le Cordon Bleu, uma das instituições de gastronomia mais tradicionais do mundo, resultou numa coleção exclusiva de panelas de ferro fundido — duas caçarolas, uma panela wok e uma frigideira, todas entre 22 e 26 cm — desenvolvida especialmente para a campanha, que começou em 29 de julho e segue até 17 de novembro para acúmulo de selos, com trocas possíveis até 1º de dezembro ou enquanto durar o estoque.

O álbum de figurinhas sobrevive à era do aplicativo; só trocou a cola pelo QR Code.

  1. Roma ainda guarda segredos embaixo do ginásio

Durante anos, gerações de estudantes de uma escola próxima ao Coliseu repetiram entre si a mesma lenda de corredor: havia salas escondidas sob o ginásio, um mistério que ninguém levava muito a sério — até que os relatos, insistentes o bastante, chegaram aos ouvidos certos.

A investigação confirmou muito mais do que um boato adolescente: sob o Liceo Scientifico Cavour, os arqueólogos encontraram uma residência romana luxuosa de cerca de 1.800 anos, batizada de Domus Liceo Cavour, com afrescos figurativos e florais, tetos abobadados decorados em estuque e pisos de mosaico que denunciam padrão de vida elevado — possivelmente da família Umbrii, embora a identificação ainda dependa de análises mais profundas.

Os trabalhos começaram em janeiro de 2026 com a retirada de entulho moderno e prosseguem com escavação e documentação cuidadosas, já que os afrescos e estuques são frágeis demais para pressa.

Apenas parte da casa foi revelada até agora; o restante segue soterrado, aguardando a próxima geração de curiosos — ou de estudantes entediados o suficiente para prestar atenção ao que pisam.

Roma segue sendo aquele tipo raro de cidade em que basta cavar um pouco embaixo da quadra de educação física para encontrar um império inteiro. Uma lição de humildade para qualquer lugar que se ache antigo por ter cem anos de fundação.

  1. Comprar sem comprar: o novo vício sul-coreano

Encher o carrinho de compras virtuais e nunca finalizar a transação é hábito tão comum que quase ninguém repara nele — mas, na Coreia do Sul, essa prática ganhou vida própria e um nome batizado por especialistas: dopamine shopping.

Sites e aplicativos inteiros foram construídos para simular toda a jornada de compra, incluindo o acompanhamento fictício do entregador, sem que nenhuma caixa jamais chegue à porta de ninguém. Não é golpe, é ritual: o objetivo declarado é sentir o prazer associado ao consumo sem o incômodo de gastar dinheiro de verdade.

Parece inofensivo, quase terapêutico, mas especialistas alertam que a prática pode ser um sinal de alerta para quadros de compra compulsiva em determinados perfis. E há um detalhe que a euforia do “quase comprei” costuma ofuscar: por trás da simulação bem-humorada, essas plataformas coletam, em tempo real, exatamente aquilo que o consumidor deseja, hesita e descarta — o material bruto mais valioso do marketing digital.

O usuário acha que engana o sistema fingindo comprar; o sistema, hospitaleiro, agradece, anota tudo e prepara o próximo anúncio irrecusável.

  1. Enquanto o Brasil se afasta, o Paraguai se aproxima

Estados Unidos e Paraguai acabam de celebrar em Washington um memorando de cooperação em energia nuclear civil, rubricado pelo secretário de Estado Marco Rubio e pelo chanceler paraguaio Rubén Ramírez, com a presença do vice-presidente Pedro Alliana.

O acordo autoriza a transferência de tecnologia nuclear para fins energéticos ou científicos, desde que respeitados os padrões da Agência Internacional de Energia Atômica, e Rubio fez questão de frisar que a cláusula garante que o Paraguai jamais poderá construir uma arma nuclear — uma exigência, segundo ele, do próprio Donald Trump.

Não é o primeiro gesto de aproximação entre os dois países nem será o último: o entendimento nuclear soma-se ao apoio do FBI no combate ao narcotráfico na Tríplice Fronteira e ao Acordo do Estatuto das Forças, assinado em dezembro, que permite o destacamento de militares americanos em solo paraguaio.

O pano de fundo é claramente geopolítico. Washington busca conter a influência de China, Rússia e de organizações criminosas como o PCC e o Hezbollah na região, e o Paraguai, sob o presidente Santiago Peña, virou peça central dessa estratégia — inclusive pelo apetite americano pela energia excedente de Itaipu, cobiçada para abastecer os futuros data centers de inteligência artificial que a região promete atrair.

Enquanto Assunção estreita laços ideológicos e estratégicos com a Casa Branca, Brasília discute tarifaço, colhe atritos com Trump e namora a China, país que os Estados Unidos veem como adversário estratégico na disputa pela América do Sul.

A geopolítica, como o mercado, não perdoa quem hesita — só que, neste episódio, quem hesita é justamente o país que sempre se imaginou protagonista da vizinhança.

  1. Lulinha e o roteiro que o Brasil já assistiu

Três investigações agora cercam Fabio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, sob suspeita de tráfico de influência — e a estratégia de defesa, segundo a coluna Radar, da revista Veja, não deixa dúvida sobre o manual seguido pela família em momentos de aperto: alegar desconhecimento. Foi assim com o sítio de Atibaia, foi assim com o triplex do Guarujá, e o roteiro se repete agora com o filho mais velho do presidente, como se o “não sabia de nada” fosse uma herança política transmitida de geração em geração.

Além dos relatórios já enviados pela Polícia Federal ao STF, investigadores receberam do Serviço de Inteligência informações de que Lulinha teria sido sustentado na Espanha por um empreiteiro com contratos bilionários junto ao governo — não é a Odebrecht, mas o enredo soa dolorosamente familiar a quem acompanha o noticiário brasileiro há mais de uma década.

O material levado ao Supremo é descrito como devastador, e não apenas para o filho do presidente: pelo andar das apurações contra o entorno petista, Lula deve precisar substituir algum auxiliar de peso no governo. O filme já é conhecido em cada cena; só muda o ator escalado para o papel principal.

  1. Abalo sísmico ideológico

Candidata a deputada federal por São Paulo, a ex-ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara encontrou uma explicação original — e cientificamente inédita — para os terremotos recentes na Venezuela e na Colômbia: a extrema direita.

Em evento na terça-feira, ela observou que os tremores ocorreram, “estranhamente”, justamente em países onde governos de direita tomaram posse recentemente, referindo-se à chegada de Abelardo de la Espriella ao poder colombiano, e concluiu que o Brasil “precisa se atentar” para não repetir o padrão.

A geologia, decerto, vai precisar de um parecer técnico do antigo ministério para explicar por que as placas tectônicas parecem ter desenvolvido preferência partidária.

Resta saber se o próximo passo é convocar um ritual para acalmar o subsolo ou apenas aguardar que a terra, cansada de tanto discurso, volte a tremer por motivos exclusivamente geológicos — coisa que, ao que tudo indica, ainda faz de vez em quando.

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