OPINIÃO

A nobreza da ciência que brota da terra

Mariangela Hungria acaba de receber o mais alto galardão da ciência agrícola mundial — o World Food Prize, conhecido, com inteira justiça, como o Nobel da Agricultura.

E se há prêmios que consagram feitos, este consagra também uma visão. A brasileira, pesquisadora da Embrapa, foi laureada por revolucionar a forma como o solo se encontra com o alimento, substituindo o peso tóxico da indústria química por uma inteligência invisível: a dos microrganismos.

Por mais de 40 anos, Mariangela fez da microbiologia do solo não apenas uma ciência de laboratório, mas uma poesia silenciosa que transforma raízes em alquimistas e bactérias em usinas de fertilidade.

Seus estudos com inoculantes — produtos que carregam microrganismos vivos, como as bactérias rhizobium e Azospirillum brasilense — permitiram que o Brasil se tornasse o que é hoje: o maior produtor e exportador mundial de soja. E isso, sem exagero algum, com menos petróleo e mais natureza.

Enquanto a agricultura convencional insistia na dependência de fertilizantes sintéticos — cuja produção consome energia fóssea em níveis escandalosos e cuja aplicação intoxica o planeta — Mariangela acreditou na biologia.

Persistente, quase obstinada, apostou na fixação biológica de nitrogênio, um processo natural em que bactérias capturam o gás do ar e o tornam assimilável pelas plantas.

Como ela mesma gosta de lembrar, sem esse processo, cada tonelada de nitrogênio exigiria seis barris de petróleo — e cada quilo de fertilizante lançaria 10 quilos de CO₂ na atmosfera.

Ao lado das leguminosas, essas bactérias passaram a operar uma revolução silenciosa.

A produtividade aumentou até 8% em relação aos métodos químicos, e as economias para os agricultores brasileiros somam hoje cifras bilionárias.

Quando chegou a hora de lançar comercialmente cepas da Azospirillum brasilense, a pesquisadora firmou-se como pioneira incontestável.

A combinação dessa bactéria com os rhizobia não apenas sustentou o crescimento da produção nacional, como apontou uma saída ecológica e autônoma diante da instabilidade geopolítica e da dependência externa de insumos.

Não por acaso, em meio à guerra na Ucrânia e ao colapso das cadeias globais de fertilizantes, o Brasil voltou seus olhos aos bioinsumos — setor em que Mariangela Hungria é farol e alicerce.

A pesquisadora nunca perdeu de vista o futuro: mesmo com o país na liderança mundial do uso desses insumos naturais, ainda é preciso multiplicar os investimentos para que eles saiam do papel de coadjuvantes e assumam o protagonismo que o planeta exige.

Com mais de 500 publicações, formação sólida pela ESALQ-USP e uma carreira construída entre o Brasil, os Estados Unidos e a Espanha, Mariangela escreveu também o primeiro manual em português sobre microbiologia de solos tropicais.

É autora, cientista, professora e símbolo de uma ciência que floresce na prática e se sustenta pela ética do bem comum.

Ao premiá-la, o World Food Prize reconhece não apenas a engenheira agrônoma e sua excelência científica.

Reconhece a mulher que rompeu barreiras em um campo majoritariamente masculino. A neta de uma professora de ciências, que aprendeu cedo a olhar a terra com reverência e a ciência com paixão. A brasileira que fez da microbiologia um legado para a alimentação mundial.

Hoje, com justiça e comovente precisão, a ciência mundial se curva diante de uma brasileira que soube ouvir o sussurro das bactérias e transformá-lo no grito da abundância.

A agricultura do futuro começa onde termina a arrogância da química — e onde germina a humildade da vida invisível.

E Mariangela Hungria, com seu prêmio, faz do Brasil também um país onde se colhem Nobéis.

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2 Comentários

  1. Parabéns para Mariangela, obstinação e trabalho árduo auxiliou a agricultura mais que os maiores investimentos.

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