OPINIÃO

A proteína e o peso da esperança

Quase três décadas passaram entre a bancada do laboratório e o holofote das redes sociais. A polilaminina percorreu esse caminho em silêncio — o silêncio paciente da ciência — até o dia em que o Brasil inteiro parecia ter uma opinião sobre ela.

Produto de pesquisa conduzida no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela emergiu do ambiente acadêmico para se tornar um dos assuntos mais comentados do país — e, com isso, também um dos mais distorcidos.

A substância é uma versão derivada da laminina, proteína produzida naturalmente pelo organismo durante o desenvolvimento do sistema nervoso.

Os pesquisadores da UFRJ descobriram que ela pode ser obtida a partir da placenta humana, o que a torna potencialmente mais acessível e segura do que as células-tronco, cuja aplicação clínica carrega limitações conhecidas.

No início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início dos testes clínicos com humanos — um marco que, longe de encerrar uma jornada, sinalizou apenas que ela estava começando.

À frente desse estudo está a bióloga Tatiana Coelho Sampaio, alçada involuntariamente ao papel de personagem pública. Nas redes sociais, a polilaminina ganhou o apelido de “proteína de Deus”, em referência ao seu formato em cruz.

O entusiasmo, compreensível diante de uma descoberta que toca a vida de milhares de pessoas com lesões medulares, abriu espaço para exageros que a própria pesquisadora precisou desmontar. Foi o que ela fez em recente participação no Roda Viva, da TV Cultura — e os esclarecimentos merecem atenção.

O primeiro equívoco a corrigir é o uso da palavra cura. Tatiana Sampaio foi precisa: o termo é forte demais para o estágio em que a pesquisa se encontra. O que existe é uma substância promissora, ainda em fase inicial de testes clínicos, cujos resultados pedem rigor e paciência científica.

O segundo ponto diz respeito ao alcance do tratamento. Circula a ideia de que a polilaminina serviria para qualquer tipo de lesão medular — o que não corresponde à realidade. Os estudos contemplam apenas lesões nas fases aguda, ocorrida na primeira semana após o trauma, e subaguda, até três meses depois. Casos crônicos estão fora do escopo atual das pesquisas.

Outro dado que merece atenção é o índice de resultados. A afirmação de que todos os pacientes que receberam a substância voltaram a andar não resiste aos fatos. A doutora explicou que 75% dos participantes apresentaram melhora — saíram do nível de paralisia total e passaram a demonstrar algum controle motor.

Trata-se de resultado expressivo, mas a maioria ainda convive com algum grau de paraplegia ou tetraplegia. O caso do paciente Bruno Freitas, frequentemente citado como o maior exemplo de sucesso do tratamento, é, na realidade, uma conjunção rara de fatores: ele recebeu a injeção apenas 24 horas após o acidente, janela extraordinariamente curta na vida real, e dedicou dois anos a um programa de fisioterapia intensiva, seguindo em reabilitação até hoje.

O que a ciência tem, portanto, é uma descoberta genuinamente relevante — e genuinamente brasileira. Fruto de longo, persistente e exaustivo trabalho conduzido com rigor e perseverança dentro de uma universidade pública, a polilaminina representa um avanço real no campo das lesões medulares, terreno historicamente árido para tratamentos eficazes.

O que ela não tem, ao menos por enquanto, é a propriedade miraculosa que parte da opinião pública lhe atribuiu. A esperança é legítima, a aflição de quem perdeu a mobilidade é real — e é exatamente esse respeito que exige honestidade.

A honestidade, neste caso, pede que a ciência seja deixada trabalhar no seu próprio tempo.

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