OPINIÃO

O samba que virou showmício: o grotesco desfile em homenagem a Lula

Houve um tempo em que o carnaval era a festa da inversão, o momento em que o povo tomava a rua e, por alguns dias, suspendia as hierarquias, ria das grandezas e transformava a crítica em arte.

O que a escola de samba Acadêmicos de Niterói fez na Marquês de Sapucaí, no domingo que abriu o carnaval do Rio de Janeiro, não guarda nenhuma relação com essa tradição.

O que se viu ali foi outra coisa — um comício fantasiado de samba, uma peça de propaganda eleitoral antecipada embrulhada em lantejoulas, com financiamento público, cobertura da TV por uma hora inteira e a bênção implícita de um governo que finge não ter participado de nada.

Não havia alegria naquele desfile. Havia estratégia. Não havia carnaval. Havia campanha.

O enredo, pomposa e desonestamente intitulado “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, foi concebido como um inventário seletivo e cínico de uma trajetória política — aquela parte da trajetória que interessa exibir, claro.

A Odebrecht não desfilou. O tríplex do Guarujá ficou em casa. Os mais de quinhentos dias de prisão foram cortados da edição. A corrupção passiva e a lavagem de dinheiro, pelas quais Lula foi condenado em primeira e segunda instância, simplesmente não existiram naquela avenida.

O que existiu foi a mitificação — e a mitificação, como se sabe, é prima-irmã da mentira.

Merval Pereira, colunista do jornal O Globo — e não se trata aqui de um adversário apressado, mas de um dos jornalistas mais comedidos e respeitados do país — foi direto ao ponto: “O desfile foi uma afronta ao Tribunal Superior Eleitoral e à sociedade brasileira, exibição de poder político do incumbente, que já tem vantagens sobre seus concorrentes.”

E acrescentou, com a precisão de quem conhece o jogo eleitoral: “Se esse enredo não é exemplo de propaganda eleitoral fora do prazo, muito difícil definir o que seja.”

O próprio editorial do jornal O Globo, publicação que não costuma ser acusada de parcialidade contra o atual governo, foi igualmente taxativo: “Foi impossível disfarçar o tom de propaganda eleitoral antecipada, como pôde perceber qualquer um que tenha assistido ao desfile no domingo à noite.”

O refrão do samba-enredo era exatamente o slogan de todas as campanhas de Lula há décadas — “Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!” — e a letra percorria com fidelidade suspeita as bandeiras que já estão sendo levantadas para a campanha de 2026: a soberania contra tarifas e sanções, o filho de pobre virando doutor, a comida na mesa do trabalhador. Faltou apenas o santinho.

O jornalista Caio Junqueira, âncora da CNN Brasil, observou com o sarcasmo que a situação merecia: o desfile pareceu feito pelo marqueteiro do presidente, Sidônio Palmeira. E tinha razão. Ali estavam a redução da jornada de trabalho, a “Taxação BBB”, o Minha Casa Minha Vida, o ProUni, o Luz para Todos — cada plataforma eleitoral devidamente fantasiada e embalada para consumo popular.

Mas não bastou louvar o governo. Foi preciso atacar os adversários. E foi nesse ponto que o espetáculo desceu mais fundo.

Por duas vezes, Jair Bolsonaro foi retratado como o palhaço Bozo, trancafiado atrás de grades. Uma ala foi chamada de “Neoconservadores em conserva” — e a “fantasia” trazia uma lata de conserva com a família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos, além representantes do agronegócio e de grupos religiosos evangélicos, segmentos que apoiam maciçamente o ex-presidente.

Tudo isso enlatado, comprimido, ridicularizado.

Para o advogado eleitoral Guilherme Barcelos, não há ambiguidade jurídica possível: “A propaganda antecipada está configurada no samba, e o desfile foi a cereja do bolo.”

Barcelos aponta ainda a possibilidade de abuso de poder, cuja responsabilização seria ainda mais severa.

E o jornalista Wilson Lima, no site O Antagonista, foi além, lembrando o princípio da paridade de armas que tem balizado decisões do TSE — o mesmo TSE que decretou a inelegibilidade de Jair Bolsonaro por usar o palanque do 7 de setembro e os discursos do Palácio da Alvorada como peças de propaganda, sem que Bolsonaro tivesse pedido um único voto.

Lima é preciso: “O desfile, exibido ao vivo por aproximadamente uma hora pela TV Globo, com aproximadamente 11 pontos de audiência, já garante a Lula uma vantagem inicial que outros candidatos não terão. E o pior: com dinheiro público.”

O detalhe sobre o dinheiro público não é menor. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, participou ativamente da organização do desfile. O próprio Lula escolheu, segundo o ator Paulo Vieira, quem iria representá-lo na avenida. A tentativa de se distanciar — Lula e Janja foram aconselhados a não aparecer — não apaga a digital do governo em cada carro alegórico. É a velha técnica: mandar fazer e fingir que não mandou.

Ex-juiz da Operação Lava Jato, condutor das investigações que levaram Lula à cadeia após condenação confirmada em segunda instância, o senador Sergio Moro lembrou duas das ausências mais eloquentes da noite: “Faltou o carro da Odebrecht e o Sítio de Atibaia.”

E chamou o que viu de “deprimente espetáculo de abuso do poder, com enaltecimento de Lula e com ataques aos adversários, tudo financiado pelo governo.” Sua conclusão foi simples e demolidora: “A Coreia do Norte não faria melhor.”

A comparação com regimes totalitários não é hipérbole gratuita.

Alexandre Borges, em artigo primoroso publicado no UOL, descreveu com precisão o que viu: “uma parada norte-coreana de culto ao líder supremo, com direito a mitificação da trajetória, demonização de adversários e estátua para reverência ao final.”

E foi além, identificando nos insultos ultrajantes à família tradicional algo mais profundo do que a mera provocação eleitoral — “um ataque frontal à família, à religião e a qualquer instituição que ouse servir de intermediário e camada de proteção entre o indivíduo e o Estado totalitário.”

Os defensores mais cínicos do governo tentaram o argumento de que não houve pedido expresso de voto — como se isso fosse um escudo jurídico suficiente. Não é, e o precedente é do próprio TSE: Bolsonaro foi condenado à inelegibilidade por duas vezes sem ter pedido um voto sequer.

Na primeira, por colocar em dúvida o sistema eleitoral numa reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada. Na segunda, por usar as comemorações do Bicentenário da Independência como palanque. O critério, segundo o colegiado, foi o desequilíbrio na disputa pelo uso da estrutura estatal.

Pois bem: o que foi o desfile de Niterói senão o maior uso de estrutura estatal — pública, midiática e simbólica — em favor de um candidato que já viaja pelo Brasil fazendo campanha por sua reeleição?

O Planalto já sabe o tamanho do estrago. O colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, revelou que pesquisas a que o governo teve acesso apontam numa única direção: o desfile foi catastrófico para Lula. E o símbolo maior desse desastre, dentro do próprio governo, é exatamente a lata de conserva com a família tradicional enfiada dentro.

Havia um trabalho cuidadoso de aproximação com os evangélicos — meses de esforço, de gestos, de acenos. Tudo isso foi jogado na lata de lixo numa única noite de avenida.

E como se não bastasse, a mesma noite reservou mais um capítulo revelador.

Enquanto os Acadêmicos de Niterói transformavam a Sapucaí num altar ao líder supremo, a escola Unidos do Porto da Pedra, na Série Ouro, levava ao mesmo espaço o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite” — uma exaltação à prostituição como pauta de libertação.

De um lado, o culto ao messias. Do outro, a celebração da dissolução da família. Quem ainda acredita em coincidências neste país tem uma generosidade que as circunstâncias não merecem.

O diagnóstico de Wilson Lima é o que deveria pesar sobre a consciência do TSE: “Diante de tantos fatos gritantes, a Corte eleitoral não teria outra alternativa a não ser declarar Lula inelegível já no ato de registro de candidatura.” Isso acontecerá?

Com um Judiciário em que a maioria dos ministros foi nomeada pelo próprio Lula ou por Dilma Rousseff, a resposta honesta é: improvável.

E essa improbabilidade não é uma falha do sistema — é o sistema funcionando exatamente como foi montado.

Aos inimigos, todo o rigor da lei. Aos amigos, lei nenhuma. O carnaval acabou. Mas o baile segue.

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