O submundo do Banco Master expõe seus horrores

Parafraseando a célebre frase que surgiu na Alemanha após a queda do regime nazista, durante o julgamento dos criminosos de guerra — “ainda há juízes em Berlim” — talvez seja preciso reconhecer que ainda há juízes em Brasília.
Ao autorizar a terceira fase da Operação Compliance Zero, instalada para investigar as fraudes bilionárias do Banco Master, ordenando novamente a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça, agora relator do caso no Supremo Tribunal Federal, reacendeu a esperança de que, mesmo diante de fortes pressões políticas e institucionais, o maior escândalo financeiro da história do país não termine soterrado pela impunidade.
Juntamente com Vorcaro, a Polícia Federal prendeu também o cunhado dele, Fabiano Zettel, e dois asseclas apontados como integrantes do núcleo responsável por ameaças e intimidação de testemunhas.
Um deles é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas comunicações interceptadas pelo apelido de “Sicário”.
A escolha da alcunha não poderia ser mais reveladora. Sicário designa alguém sanguinário, cruel, associado historicamente à figura dos matadores de aluguel. Um codinome, portanto, quase perfeitamente ajustado às funções que, de acordo com a investigação, ele exercia dentro da sórdida engrenagem clandestina do esquema.
Sabe-se, aliás, que Mourão possui extensa ficha criminal em Minas Gerais, com registros que incluem uma série de ocorrências ligadas a crimes patrimoniais e outras atividades ilícitas. Um detalhe que inevitavelmente levanta uma pergunta inquietante: o que mais esse meliante já fez antes de “trabalhar” para o Banco Master?
A Justiça também determinou o bloqueio e sequestro de bens que podem alcançar R$ 22 bilhões, tentativa de interromper a circulação de recursos potencialmente vinculados às práticas ilícitas que já vieram à tona.
Mas o que a nova etapa da investigação desvendou vai muito além de irregularidades bancárias.
No despacho que autorizou as prisões, o ministro André Mendonça descreve um cenário que ultrapassa o terreno da fraude financeira e passa a apresentar contornos de organização criminosa com métodos típicos de milícia urbana.
Antes mesmo da decisão judicial, a Procuradoria-Geral da República chegou a manifestar dúvidas sobre a necessidade imediata da nova operação solicitada pela Polícia Federal.
Espantosamente, diante de evidências já robustas de ameaças e tentativas de intimidação contra jornalistas que noticiavam as falcatruas e outras pessoas ligadas ao caso, a PGR entendeu que seria necessário mais tempo para análise.
Esse estranho posicionamento acabou recebendo crítica severa no próprio despacho do ministro do STF, que considerou presentes os elementos suficientes para a ação imediata. O episódio acabou deixando a Procuradoria-Geral da República em situação comprometedora, ao demonstrar uma postura excessivamente cautelosa — ou leniente — diante da gravidade dos fatos já documentados pela PF.
Há provas sobejas de que Vorcaro teria mantido um aparato paralelo dedicado à obtenção ilegal de informações, ao monitoramento de jornalistas e autoridades e à intimidação de pessoas consideradas adversárias do grupo.
Essa estrutura informal recebeu um nome sugestivo: “A Turma”.
Na prática, funcionaria como um braço clandestino de vigilância e pressão destinado a proteger os interesses do banqueiro (ou gângster?).
Segundo a Polícia Federal, o operador conhecido como Sicário exercia papel central na coordenação dessas atividades, organizando monitoramentos, coleta clandestina de dados em sistemas sigilosos e ações destinadas a intimidar críticos ou neutralizar riscos ao esquema investigado.
As mensagens interceptadas indicam que a organização operava com divisão clara de tarefas, pagamentos mensais e uso de empresas para dar aparência formal às transferências de recursos.
Vorcaro destinava cerca de R$ 1 milhão por mês para financiar as atividades dessa estrutura.
Os alvos incluíam jornalistas, autoridades e até pessoas do círculo privado do próprio banqueiro.
Entre os episódios mais graves revelados na investigação está a tentativa de intimidação contra o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, que vinha publicando reportagens sobre as irregularidades do Banco Master.
Em uma conversa interceptada, Vorcaro demonstra desejo explícito de violência.
“Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, diz a mensagem reproduzida na decisão judicial.
A ideia seria simular um crime comum para intimidar o jornalista e produzir efeito dissuasório sobre outros profissionais da imprensa.
Mensagens trocadas entre integrantes do grupo indicam ainda ordens para levantamento de rotinas, endereços e telefones de pessoas consideradas problemáticas.
A atuação da chamada “Turma” não se limitava ao monitoramento físico.
Paralelamente, o grupo teria estruturado o que os investigadores descrevem como uma milícia digital, destinada a derrubar conteúdos negativos na internet, inundar redes sociais com material favorável ao banco e até simular solicitações oficiais para pressionar comunicadores e plataformas digitais.
Há ainda indícios de que integrantes desse núcleo utilizaram técnicas avançadas de hackers para invadir bases de arquivos sensíveis e antecipar movimentos das autoridades. Relatórios da investigação mencionam acessos a estruturas da própria Polícia Federal e da PGR, além de referências a consultas clandestinas envolvendo bancos de dados internacionais associados a organismos como o FBI e a Interpol.
A investigação aponta ainda que o grupo teria mobilizado influenciadores para atacar a reputação do Banco Central e de autoridades envolvidas na liquidação do banco, numa tentativa de criar ambiente político favorável aos interesses do conglomerado.
Segundo a Polícia Federal, o padrão revelado nas mensagens indica uso sistemático da intimidação como instrumento de gestão de conflitos.
O quadro que emerge da investigação lembra menos o funcionamento tradicional do sistema financeiro e mais o modelo clássico de organizações mafiosas: divisão de tarefas, inteligência clandestina, capangas, campanhas de manipulação e tentativa de silenciar críticos.
E é justamente nesse ponto que o caso deixa de ser apenas um escândalo financeiro e passa a tocar diretamente a esfera institucional.
Porque foi com esse tipo de personagens que integrantes da mais alta Corte do país acabaram se vinculando.
O ministro Dias Toffoli, que inicialmente relatava o caso no Supremo Tribunal Federal, viu-se obrigado a deixar a condução do processo após enorme pressão da imprensa, da sociedade e dos próprios colegas da Corte. Durante o período em que esteve à frente da investigação, uma série de decisões e manobras jurídicas anormais acabou retardando ou dificultando o avanço das apurações.
Mais tarde veio à tona que irmãos do ministro mantinham negócios com Vorcaro, circunstância que ampliou o constrangimento institucional e acabou tornando inevitável sua saída da relatoria.
Outro nome que surgiu no olho do furacão foi o do ministro Alexandre de Moraes. O escritório de advocacia de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, foi contratado por cerca de R$ 129 milhões (valor que extrapola de longe os honorários das melhores bancas do país) para resolver assuntos de interesse do banqueiro.
Formalmente trata-se de um contrato privado de prestação de serviços, ainda que até agora não se tenha visto nenhum documento que comprove alguma atuação da doutora Viviane nas questões jurídicas do caso.
Politicamente, porém, o episódio expõe o nível de proximidade que o esquema investigado conseguiu estabelecer com os corredores do poder.
Registros extraídos de aparelhos telefônicos apreendidos também indicam trocas de mensagens nas quais Vorcaro menciona encontros com o ministro Alexandre de Moraes. Há referências inclusive a um evento realizado em Washington, nos Estados Unidos, onde ambos teriam participado da mesma mesa, acompanhados de suas respectivas esposas. Também aparecem registros de visitas pessoais realizadas pelo ministro ao empresário.
Nada disso constitui, por si só, prova de irregularidade. Mas ajuda a ilustrar o grau de trânsito que o banqueiro investigado conseguiu estabelecer junto a figuras centrais da República.
Outro personagem que aparece no entorno desse universo é o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça do governo Lula. O escritório de advocacia ligado a seu filho também manteve contratos de grande porte com o Banco Master.
Tudo isso ajuda a explicar porque este escândalo ultrapassa a dimensão de um simples caso de fraude financeira.
Ele revela algo mais profundo: até que ponto interesses privados foram capazes de circular nos arredores da própria Suprema Corte brasileira.
Mas o episódio mais inquietante dessa turbulenta quarta-feira envolve justamente o comparsa apontado como executor operacional dessa engrenagem.
Pouco depois de ser preso, o tal Sicário atentou contra a própria vida dentro da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais, enforcando-se com uma camiseta no interior da cela onde estava detido.
Socorrido às pressas, foi encaminhado para atendimento hospitalar. Nas horas seguintes, médicos constataram quadro de morte cerebral.
É um desfecho trágico e assustador.
Operadores desse quilate não são apenas investigados. São, na prática, arquivos vivos de esquemas complexos — pessoas que conhecem bastidores, conexões e decisões que muitas vezes ainda não apareceram nos autos.
Por isso mesmo, em investigações dessa dimensão, é fundamental que as autoridades responsáveis pela custódia dos detidos adotem todas as cautelas necessárias para preservar sua integridade física.
Não apenas por razões humanitárias, mas também pelo interesse público de que todos os fatos venham plenamente à luz.
Até porque casos desse porte costumam guardar ainda muitas respostas dentro das próprias celas onde estão seus protagonistas.
As investigações reunidas até aqui já somam volumosa quantidade de documentos, relatórios técnicos e transcrições de mensagens. São mais de 700 páginas de material que agora passam a ser analisadas com maior profundidade pelas autoridades — e que, ao que tudo indica, ainda podem revelar conexões muito mais amplas do que aquelas já conhecidas.
No próprio despacho que autorizou as prisões, o ministro André Mendonça registra que os desdobramentos do caso podem alcançar outras pessoas ainda não mencionadas formalmente no processo, inclusive figuras relevantes da vida pública nacional.
Em outras palavras: a investigação que começou com suspeitas sobre um banco pode terminar iluminando zonas muito mais sensíveis do poder.
No fim das contas, talvez o maior escândalo nem esteja apenas no banqueiro, nem em seus capangas de apelido cinematográfico.
O verdadeiro teste agora é saber se as instituições brasileiras serão capazes de enfrentar tudo o que esse caso ainda pode revelar — inclusive quando as pistas levam às portas de quem deveria garantir a lei.
Porque quando um escândalo dessa magnitude começa a exteriorizar os seus subterrâneos, a história mostra que quase sempre os nomes mais importantes ainda estão por aparecer.











