OPINIÃO

Bloco de Notas

1. Pepe Mujica: nem tanto ao céu, nem tanto ao mar

A morte do ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica reacende a velha tentação da esquerda latino-americana em canonizar seus ídolos. A narrativa pronta — do guerrilheiro humilde que virou estadista austero — ganha novamente os holofotes, como se a biografia de Mujica fosse feita apenas de sacrifício, ética e poesia política. Não é.

Antes de se tornar símbolo global da simplicidade no poder, Mujica foi membro violento do grupo Tupamaros — não dos Montoneros, como alguns equivocadamente apontam, mas de um braço uruguaio da luta armada com métodos igualmente brutais. A luta contra o regime militar no Uruguai não o absolve dos métodos escolhidos: assaltos a banco, sequestros, assassinatos e atentados a bomba marcaram a trajetória de um grupo que não combateu a repressão com ideias, mas com o espelho invertido da mesma violência.

Mujica ficou preso por mais de uma década — não por suas opiniões, mas por seus atos. Ao sair, sim, ingressou pela via democrática e soube construir um legado político com doses de autenticidade. Mas entre a cela e o Palácio Suárez há um hiato que não pode ser maquiado com flores no caixão nem frases de efeito sobre desapego material.

Que descanse em paz. Mas que a história também descanse em verdade.

2. Um general em Abetaia, um presidente em Moscou

Enquanto o general Tomás Paiva, comandante do Exército, prestava solitária continência ao monumento dos mortos da Força Expedicionária Brasileira nos Montes Apeninos, o presidente Lula preferia apertar a mão de Vladimir Putin no Kremlin. A data era 28 de abril, marco da vitória aliada na Itália. Lula esteve em solo italiano dois dias antes — foi ao funeral do papa. Bastaria esticar a estadia para homenagear os 457 pracinhas brasileiros que tombaram por uma Europa livre do nazismo. Mas preferiu ignorá-los.

Em Montese, onde os italianos ainda reverenciam nossos heróis, Lula não deu o ar da graça. Prestígio, ele reservou ao ditador russo. A história que o presidente esqueceu é a mesma que o general, de pé em Abetaia, silenciosamente lembrou. Há gestos que falam. E ausências que gritam.

3. A conta, mais uma vez, vai para quem não deve

Fraudaram o INSS. Tungaram aposentados, pensionistas, indígenas, pessoas com deficiência — os mais frágeis entre os frágeis. E agora, o governo federal, na figura da ministra Simone Tebet, admite: o dinheiro bloqueado dos sindicatos e associações que orquestraram o golpe pode não ser suficiente. A solução? Crédito extraordinário. Em bom português: dinheiro público para cobrir o rombo privado.

Disse a ministra: “Se precisar a União complementar, nós iremos complementar, mas vamos complementar com dinheiro público.” E o Brasil, mais uma vez, se curva diante da impunidade: o dinheiro some, os culpados seguem impunes, e o contribuinte paga a conta. A restituição tem que vir, sim — mas do patrimônio das entidades e dos dirigentes que lesaram milhões, e não dos cofres da União. O crime não pode ser premiado com subvenção.

Num país minimamente sério, essa seria a oportunidade de ouro para quebrar o ciclo da malandragem institucional. Ou então seguimos como sempre: o Brasil dos espertos que roubam e dos otários que pagam.

4. A usina do silêncio

A gestão petista da Itaipu Binacional, comandada pelo ex-deputado Enio Verri, parece ter decidido que o verdadeiro problema da empresa não é o uso questionável de seus recursos, mas quem ousa denunciá-lo. A estatal abriu ações judiciais contra os deputados federais Nelson Padovani e Sandro Alex, acusando-os de difamação por críticas públicas à destinação bilionária de verbas da usina a projetos com viés político-ideológico.

Padovani, por exemplo, denunciou a compra de 3 mil hectares de terras por R$ 240 milhões para comunidades indígenas e a destinação de R$ 24,8 milhões ao projeto “Opaná: chão indígena”. Em vídeo, afirmou que Itaipu estaria estimulando invasões de terras privadas. A Justiça Federal tentou calar o parlamentar, mas o TRF-4 reestabeleceu o óbvio: críticas no exercício do mandato são protegidas pela imunidade parlamentar.

As denúncias não param por aí. Itaipu também financiou entidades ligadas ao MST, destinou mais de R$ 1 bilhão para obras em Belém, cidade que sediará a COP30 — tudo longe do alcance dos órgãos de controle. Afinal, a binacional opera sob regime próprio, blindada da fiscalização da CGU, do TCU e do Congresso.

O que Padovani e Sandro Alex fizeram foi levantar questionamentos legítimos sobre o uso de recursos públicos. Mas, em vez de responder com transparência, Itaipu respondeu com processo. Aparentemente, na usina modelo da propaganda lulista, o que se quer gerar mesmo não é energia — é silêncio.

5. O míssil é da Jihad, mas a culpa é de Israel

O presidente Lula voltou a requentar a acusação de “genocídio” contra Israel, dessa vez recorrendo ao prato feito mais velho da propaganda antissionista: o caso do hospital de Gaza. Ignorando todas as evidências já divulgadas — inclusive por agências de inteligência ocidentais — Lula segue repetindo a fábula de que o ataque ao hospital Al-Ahli foi perpetrado por Israel. O detalhe inconveniente, omitido por ele, é que o projétil sequer atingiu o hospital, mas sim o estacionamento, e foi disparado de dentro de Gaza por um foguete mal direcionado da própria Jihad Islâmica.

Mas quando um hospital infantil ucraniano é bombardeado pela Rússia, o presidente do Brasil guarda um sepulcral silêncio — nem nota, nem repúdio, nem discurso inflamado.

Tampouco menciona que a guerra foi iniciada pelo Hamas, ao invadir o território israelense no dia 7 de outubro de 2023, matar mais de 1.200 civis, sequestrar 250 reféns — entre eles brasileiros — e prometer novos ataques. Também não parece digno de nota o fato de que os terroristas usam escolas e hospitais como esconderijos, transformando civis palestinos em escudos humanos.

Na diplomacia lulista, os fatos são só adereços — a peça é escrita para a plateia ideológica. No teatro das relações internacionais, o míssil pode ser da Jihad, mas a culpa, como sempre, é de Israel.

6. Com Janja na diplomacia, Lula pode dispensar os inimigos

Depois de mais uma fala desastrosa sobre Israel — já tratada na nota anterior —, Lula ganhou reforço no front dos vexames internacionais: sua esposa. A primeira-dama Janja, em visita recente à China, resolveu improvisar declarações sobre o TikTok em um evento oficial ao lado do ditador Xi Jinping, criando um constrangimento de escala diplomática. A fala, fora de hora, fora de contexto e fora de propósito, irritou não apenas o presidente chinês, mas também sua esposa, Peng Liyuan, que não está acostumada a lidar com estrelismos palacianos em solo comunista.

O detalhe saboroso é que Janja não estava ali como chefe de Estado, nem como negociadora, nem como convidada de honra com direito à palavra. Mesmo assim, lançou-se como protagonista da cena, atropelando o protocolo e o bom senso. O resultado: diplomatas brasileiros foram escalados às pressas para apagar o incêndio e tentar manter em pé a já combalida imagem internacional do Brasil.

Não foi a primeira gafe. E não será a última. Desde que passou a ocupar o Palácio da Alvorada, Janja vem acumulando episódios em que confunde visibilidade com legitimidade, militância com diplomacia e protagonismo com falta de noção.

Lula já comete seus próprios equívocos na política externa com regularidade metronômica. Mas, com Janja agindo como chanceler paralela e sem freios, o Itamaraty virou palco de um casal que governa por performance — e tropeça por vaidade. Se adversários externos quiserem enfraquecer o Brasil, é só deixá-los continuar falando.

7. O Brasil virou o centro do mundo. Só falta avisar o mundo

Marcio Pochmann, presidente do IBGE, apareceu celebrando nas redes sociais o “êxito instantâneo” de seu novo mapa-múndi invertido — aquele que coloca o Brasil no centro do planeta, virando literalmente o mundo de cabeça para baixo. Segundo ele, a ideia fortalece o chamado “sul global”. Segundo os técnicos do próprio IBGE, porém, é só mais uma bobagem cartográfica: “Não se combate a realidade com ilusões gráficas”, disseram em nota pública.

Mas talvez o êxito seja real — só que no campo dos memes. O mapa invertido virou piada nacional nas redes, com reações entre o deboche e o espanto. Aparentemente, para Pochmann e sua trupe ideológica, a geopolítica se resolve no Photoshop.

É o tipo de bizarrice que só não surpreende porque já virou rotina. Num governo onde ninguém parece disposto a exercer o papel de fiscal do ridículo, sobra espaço para gafes em série, ideias lunáticas e tentativas desesperadas de parecer original. A gestão Lula é um eterno festival de autossabotagem estética e simbólica.

Falta agora só a Dilma explicar o novo mapa para que a comédia esteja completa. Aí sim, o Brasil não será apenas o centro do mundo — será também o epicentro do absurdo.

8. O Copom avisou: desse jeito, não tem corte

Mudou o presidente do Banco Central, mas não mudou o recado. Com Gabriel Galípolo — indicado por Lula — agora à mesa, o Copom manteve o tom firme ao anunciar o aumento da taxa básica de juros para 14,75% ao ano. E não economizou nas entrelinhas: o problema não está na política monetária, está na política fiscal.

A ata foi clara: sem uma política fiscal minimamente responsável, que reduza o prêmio de risco e ajude a ancorar expectativas, não há espaço para cortar juros sem abrir as portas para a inflação. E esse recado vem agora de um Banco Central já “lulificado”, com presidente e diretores escolhidos pelo próprio governo. Ou seja: até os nomeados sabem que brincar com os gastos públicos é brincar com fogo.

Enquanto o Planalto pressiona por juros mais baixos, o BC se vê obrigado a lembrar, em tom técnico e paciente, que a inflação não se controla no gogó nem com narrativas contra a “herança maldita”. E que, se o governo não colocar as contas em ordem, a redução da Selic vira ilusão — ou armadilha.

É curioso ver um governo que passou anos acusando o Banco Central de ser um instrumento da oposição, agora precisando ouvir, do seu próprio indicado, a mesma lição que antes era atribuída ao “bolsonarismo monetário”. Galípolo, ao que parece, tem mais compromisso com o equilíbrio macroeconômico do que com a conveniência do grupo que o escolheu.

Desse jeito — e o Copom já avisou — não tem corte de juros. Nem milagre.

9. O Papa também tem salário — embora não pareça precisar

Logo após a tradicional fumaça branca anunciar a escolha do novo pontífice, o mundo conheceu o nome do primeiro papa americano da história: Robert Francis Prevost. Ao assumir o trono de Pedro, além da missão espiritual mais alta da Igreja, ele passa a receber um salário mensal de US$ 33 mil (cerca de R$ 187 mil), valor comparável ao vencimento de um presidente americano ou de reitores de universidades de ponta.

Mas o que exatamente faz um papa com salário, se já vive no coração do Vaticano, com casa, comida, roupas, motorista, segurança, farmácia particular e um papamóvel à disposição? A resposta é menos prática do que simbólica. O salário pontifício — que nem todos aceitam — é um reconhecimento da dignidade do ofício, mais do que uma necessidade real. O próprio papa Francisco recusou o pagamento, destinando os valores aos mais pobres, em coerência com sua formação jesuíta e vida espartana.

Espera-se que Prevost siga esse mesmo caminho de sobriedade. Missionário durante décadas no Peru, atuando entre populações indígenas, ele construiu uma reputação de humildade, discrição e proximidade com os mais simples. Tudo indica que não será agora, no comando da Santa Sé, que trocará a simplicidade pastoral por o luxo de um alto executivo.

Ainda assim, não deixa de ser curioso: até o papa tem salário, embora seja talvez o único cargo no mundo em que a verdadeira remuneração é paga — em fé, em oração, em serviço — no silêncio das consciências.

10. O prédio que quer ser o mais alto do mundo — e não tem pressa para isso

Balneário Camboriú, terra onde o metro quadrado custa mais que a paciência em repartição pública, lançou no último sábado (10) o Senna Tower — projeto que, como o nome e a pretensão indicam, quer cruzar a linha de chegada como o edifício residencial mais alto do mundo. Altura mínima garantida: 500 metros. Altura máxima? Segredo de estado. A revelação ficará para a cerimônia de entrega, daqui a sete, talvez dez anos — o tempo exato que leva uma ambição até tocar as nuvens.

A engenheira responsável pelo projeto arquitetônico, Stephane Domeneghini, foi clara ao explicar a lógica do “mínimo”. Como em toda corrida de verdade, os adversários não param. Outros arranha-céus igualmente ambiciosos surgem pelo mundo, e o Senna Tower, esperto, será ajustado ao longo da obra para superar qualquer ameaça — uma espécie de pit stop vertical. Se necessário, sobe-se mais um andar. Ou vinte.

O projeto, uma parceria entre a FG Empreendimentos e a marca Senna, já começou com aceleração máxima: 18% das unidades foram vendidas antes mesmo do apito inicial. O VGV estimado é de R$ 8,5 bilhões. Desse total, R$ 1,3 bilhão já foi para o caixa — numa arrancada que deixaria muito unicórnio de tecnologia roxo de inveja.

Serão 228 unidades, incluindo 18 mansões suspensas com piscina de borda infinita e elevador para carros (sim, elevador para carros) e duas coberturas triplex no topo do mundo — essas, com mais de 900 metros quadrados de área privativa, serão leiloadas. O lance inicial: R$ 300 milhões. Um bom valor para quem quer morar onde até o silêncio custa caro.

No Senna Tower, o céu não é o limite. É o endereço.

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Um Comentário

  1. Até quando vamos aguentar esse governo insano?! Cadê os “cara-pintada”???!!! Ops, agora que me dei conta, cara-pintada virou “cara-vernelha”!!!!

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