Opinião

Para orgulho do painho

Poucos brasileiros conseguiram uma trajetória de sucesso tão vertiginosa quanto Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Monitor de zoológico em São Paulo até 2002, o rapaz descobriu, logo depois que seu pai conquistou pela pela primeira vez o Palácio do Planalto, uma vocação inesperada para o empreendedorismo: fundou a Gamecorp, empresa de jogos e mídia digital, e viu a operadora Oi/Telemar injetar valores milionários na companhia com uma velocidade tal que o próprio presidente Lula, orgulhoso, batizou o filho de “Ronaldinho dos negócios” — numa alusão nada sutil ao talento do famoso craque do futebol brasileiro.

Do zoológico ao apelido de fenômeno em poucos meses: eis o tipo de prodígio que só aparece uma vez por geração, ou uma vez por sobrenome.

O talento, ao que indicam três inquéritos da Polícia Federal, não se esgotou ali.

Autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, as investigações apuram se Lulinha transformou a proximidade com o poder em ativo comercial em pelo menos três frentes: a flexibilização da cannabis medicinal junto ao Ministério da Saúde, os desvios bilionários apurados pela Operação Sem Desconto no INSS, e contratos de R$ 81,1 milhões da Dataprev com o governo federal.

Coincidência é para os amadores. O elo entre as três é Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, suspeito de liderar o esquema de desvios em aposentadorias e pensões — e apontado, ele próprio, como quem indicava o caminho.

Mensagens obtidas pela PF mostram o Careca orientando a lobista Roberta Luchsinger, amiga antiga de Lulinha, a procurar o ministro da Saúde Alexandre Padilha e buscar acesso a diretores da Anvisa, além de citar a “investida” na Dataprev.

Discrição, aliás, não é o forte de Roberta: levantamento do Estadão contou mais de 40 visitas dela a órgãos do governo federal desde 2023, a maioria fora da agenda oficial — incluindo 17 idas ao gabinete do ministro Wellington Dias, uma delas com presentes em mãos, fotografada pelo cerimonial mas convenientemente ausente do registro público.

A Polícia Federal também rastreou um depósito de 249 mil reais feito pela moça na conta do então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola (apelido que não ajuda muito nos dias de hoje), que admitiu ter recebido o valor, mas chamou de “empréstimo” já quitado. Generosidade entre parceiros, presume-se.

Dos três inquéritos, dois foram autorizados pelo ministro André Mendonça — o da cannabis e o da Dataprev — e o terceiro, mais recente, por Flávio Dino. Vale o detalhe: Dino foi ministro da Justiça do próprio Lula e quadro histórico do PT. Que ele tenha aberto o inquérito mesmo assim só reforça, é claro, a solidez dos indícios — afinal, um ex-companheiro de partido não abriria frente contra o filho do chefe sem provas robustas. E, tendo sido alçado ao Supremo pelas mãos do presidente, é de se supor que Dino conduzirá o caso com o rigor sereno de sempre, sem jamais deixar Lulinha órfão no imbróglio.

Aliás, a própria defesa do primogênito do estadista de Garanhuns fez questão de elogiar a atuação “serena e equilibrada” do ministro — e, no mesmo fôlego, aproveitou para acusar a Polícia Federal da era Bolsonaro de ter sido “capturada por interesses privados”.

O ataque sempre é a melhor defesa.

Nada disso, no fundo, é novidade. O nome de Lulinha já havia circulado nos autos da Lava Jato, quando os mais de R$ 82 milhões repassados pela Oi/Telemar à Gamecorp — e R$ 132 milhões ao grupo de seus sócios — foram investigados como possível propina para decretos favoráveis à operadora.

O caso foi arquivado em 2022, depois que o STF anulou as decisões do ex-juiz Sérgio Moro, num daqueles arquivamentos que resolvem tudo sem provar nada.

E foi justamente entre os sócios da Gamecorp, Fernando Bittar e Jonas Suassuna, que apareceu o nome dos donos formais do sítio de Atibaia, propriedade que a família Lula sempre negou ser sua, mas que teria sido reformada com o mesmo dinheiro da Oi.

Convenhamos: o “Ronaldinho dos negócios” desenvolveu, ao longo dos anos, um instinto quase sobrenatural para farejar oportunidades onde ninguém mais via nada — só que, no seu caso, os animais sempre acabam sendo os cofres públicos.

Afinal de contas, com o perdão do trocadilho, filho de lula, lulinha é.

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