OPINIÃO

Perdeu, mané: Barroso pediu pra sair

O ministro Luís Roberto Barroso resolveu adiantar o relógio da toga e anunciou que vai se aposentar antes da hora, abrindo espaço para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa escolher mais um integrante do Supremo Tribunal Federal.

Um presente de despedida, aliás, que vale ouro: com a nova indicação, Lula chegará a cinco ministros entre os onze da Corte — meio STF sob sua influência direta. O destino, que nunca economizou caprichos com o petista, decidiu sorrir mais uma vez.

Barroso afirma que deseja uma vida mais leve, com mais tempo para a poesia, a literatura e novas experiências. E, para marcar essa transição, vai repetir um hábito recorrente: participar no final deste mês de um retiro espiritual organizado pela Brahma Kumaris, grupo de meditação e ioga criado na Índia nos anos 30 e hoje dirigido apenas por mulheres.

O local não foi revelado, por razões de segurança. Sabe-se apenas que não será na Índia e tampouco se pode afirmar que será no Brasil. O mesmo ministro que tantas vezes confundiu luz com holofote agora busca iluminação.

Talvez um bom momento para expiar os pecados de uma trajetória tortuosa que começou jurídica e terminou quase mística — com direito a um legado de ativismo judicial, arroubos verbais e uma contribuição decisiva para incendiar a política nacional.

Foi ele o autor da célebre frase “Perdeu, mané”, dita em novembro de 2022, em Nova York, quando um manifestante bolsonarista o abordou na rua para questionar a lisura das urnas eletrônicas.

A resposta atravessou o Atlântico e virou símbolo de uma arrogância togada que ajudou a dividir o país. Menos de dois meses depois, a expressão ressurgiu pichada em batom vermelho na estátua da Justiça, durante os atos de 8 de janeiro. Não era apenas um gesto de vandalismo: era o retrato de um tempo em que juízes perderam o pudor de fazer política e políticos perderam o respeito pelos juízes.

E como se o “Perdeu, mané” não bastasse, veio a cereja do bolo: no Congresso da União Nacional dos Estudantes, ainda em 2023, o ministro — tomado por um entusiasmo juvenil pouco compatível com a liturgia do cargo — bradou do alto do púlpito: “Nós derrotamos o bolsonarismo!”

Foi o ponto de não retorno. A toga transformou-se em palanque, sacramentando a polarização política que há anos corrói o país, alimentando rancores e ampliando as fraturas de uma nação que já não consegue se ouvir. Dali em diante, sua isenção virou ficção.

Não bastassem as labaredas domésticas, Barroso ainda viu seu prestígio internacional arder: teve o visto americano cancelado após ser incluído em uma lista de sanções por causa do julgamento do ex-presidente Bolsonaro — um episódio que, dizem, o atingiu mais fundo do que suas meditações permitem admitir.

Mas nem tudo se apaga na biografia do ministro.

Há um lampejo de lucidez que merece registro: o embate com Gilmar Mendes, em 2018.

Naquela sessão histórica transmitida pela TV Justiça, Barroso perdeu a paciência e ganhou aplausos silenciosos de um país inteiro ao dizer que o colega “agia por interesses estranhos à Justiça” e “desmoralizava a Corte”.

E foi além, em um desabafo que virou um dos maiores duelos verbais da história do Supremo: “Me deixa de fora desse seu mau sentimento. Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia. Vossa Excelência não consegue articular um argumento, fica procurando ofender as pessoas. A vida para Vossa Excelência é ofender as pessoas.”

Foi o raro momento em que sua franqueza coincidiu com a verdade — e por isso, talvez, mereça um lugar mais ameno na memória coletiva.

Vai em paz, ministro. Que o retiro e a aposentadoria lhe tragam a serenidade que faltou à toga — e que, entre um mantra e um poema, o senhor encontre o equilíbrio que o barulho da política jamais lhe deu.

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4 Comentários

  1. A saída do Manoel corresponde, na prática, ao impeachment que o regime impede a mera formalização óbvia de um fato clamado pelo povo, segundo as pesquisas, mas as pressões imponderáveis internas e externas fizeram seu papel e o expulsaram de lá. Ele foi o autor intelectual deste neoconstitucionalismo que enlouqueceu o estado de direito no Brasil, pois ele é um homem sem limites morais, éticos e, muito menos, legais. Ele é o Rolando Lero do bordel. Ele tem certeza de que a serpente lhe revelou uma verdade sobre ele poder ser como Deus. Ou melhor, que ele é o seu próprio deus.

  2. Esse não é o mesmo ministro do STF que abandonou a isenção da toga e, atravessando a praça, foi fazer lobby no legislativo contra a transparência das urnas e respectivas apurações de votos?

  3. Nenhum tribunal pode ser um clube de amigos, muito menos o STF. O critério para indicar alguém para a vaga sempre foi de escolher alguém entre juristas de “notável saber jurídico e reputação ilibada” – (são expressões que estão na Lei Orgânica da Magistratura e são virtudes exigidas de todos os juízes). Já tivemos ministros que preenchiam esses requisitos e eram até aplaudidos pelos passageiros quando entravam num avião de carreira. Exemplos: Aliomar Baleeiro, Paulo Brossard, Sepúlveda Pertence, Sidney Sanches, Teori Zavascki, Ayres Brito, Moreira Alves e muitos outros.

  4. Os togados, quase todos, giraram em 180° em suas opiniões, que estão gravadas em vídeo e o motivo…$$$, todos sabemos… acredito em um momento em que todos estaremos ao redor dos muros de JERICÓ para assistir a VITÓRIA sobre o INIMIGO…

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