Opinião

É obrigatório concordar com tudo?

Uma simples e inofensiva opinião emitida pelo apresentador Ratinho em seu programa no SBT foi suficiente para deflagrar uma acirrada polêmica nacional.

Ao questionar a escolha da deputada federal Erika Hilton – uma mulher trans – para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara, ele fez o que, em qualquer democracia, deveria ser trivial: levantou uma dúvida e proferiu um comentário.

Para começo de conversa, deixemos as hipocrisias de lado: Erika Hilton, embora se declare mulher, veio ao mundo como homem.

Com todo o respeito que lhe é devido, trata-se de uma pessoa do gênero masculino, que construiu sua trajetória pública em São Paulo, ganhando notoriedade como travesti quando ainda se chamava Felipe Santos Silva.

Já com o nome de Erika Hilton elegeu-se vereadora, tornou-se uma das vozes mais conhecidas da pauta identitária no país e hoje ocupa uma cadeira no Congresso Nacional.

Seja como for, é um direito dele (ou dela) optar pela orientação sexual que melhor lhe convém. Mas, fisiologicamente falando, ela é um homem.

Sua eleição para comandar a dita comissão reacendeu uma discussão que, longe de ser irrelevante, envolve conceitos distintos – e, muitas vezes, tensionados – de identidade, representação e experiência.

A reação, no entanto, foi tudo menos banal.

Transformou-se rapidamente em controvérsia, acusações e tentativas de enquadramento moral.

O episódio, que poderia ter sido apenas mais um capítulo do debate político cotidiano, revelou algo mais profundo – e mais preocupante – sobre o momento que vivemos.

Porque, no fundo, o problema já não é mais sobre concordar ou discordar da opinião expressa. É sobre algo anterior a isso: ainda é permitido questionar?

O comentário feito não partiu de uma ofensa direta, nem de um ataque pessoal.

Foi um questionamento legítimo sobre representatividade, sobre experiência vivida, sobre a pertinência de uma escolha institucional. Um questionamento que pode – e deve – ser debatido.

E aqui é preciso dizer com clareza: há quem considere esse tipo de escolha, no mínimo, estranho.

Estranho não como ofensa, mas como percepção de desalinhamento entre a natureza da função e o perfil de quem a ocupa.

Um colegiado voltado aos direitos das mulheres, para muitos, remete à vivência feminina em sua dimensão histórica, social e biológica.

É justamente essa percepção que alimenta a polêmica – e que foi verbalizada.

O que se viu, porém, foi a tentativa de deslocar a crítica para o terreno da interdição. Como se determinadas perguntas, por si só, já não pudessem mais ser feitas.

É nesse ponto que a reflexão deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural.

O escritor inglês G. K. Chesterton alertava que chegaria o tempo em que seria necessário provar que a grama é verde e que o céu é azul.

A frase, que parecia hiperbólica, ganha hoje contornos curiosamente atuais. Em determinados ambientes, não apenas se contesta o óbvio – passa-se a vigiar quem ousa afirmá-lo.

Nesse caso, chegou o tempo em que se tornou proibido dizer que um homem é um homem e que uma mulher é uma mulher.

E quando o óbvio se torna interditado, o debate deixa de ser livre para se tornar condicionado.

A reação nas redes sociais, por sua vez, trouxe um elemento que não pode ser ignorado: longe de um consenso condenatório, houve amplo apoio ao direito de manifestação e ao próprio questionamento levantado.

Não se trata de negar direitos, nem de desrespeitar trajetórias individuais.

Trata-se de reconhecer que direitos convivem com debate – e que o debate, por definição, pressupõe a possibilidade de discordância.

Sem isso, o que resta não é diálogo, mas adesão.

Ao longo dos últimos anos, a cultura pública tem demonstrado sinais de estreitamento.

O humor se retraiu, a linguagem se tornou cautelosa, e a crítica passou a ser acompanhada de um cálculo permanente de risco.

Quando a sociedade passa a punir mais a pergunta do que a resposta, algo se desloca.

E esse deslocamento não ocorre apenas no campo cultural. Ele alcança o espaço político, institucional e, em última instância, o próprio conceito de liberdade.

Porque a liberdade de expressão não se mede pela proteção ao consenso, mas pela tolerância ao dissenso.

O episódio recente, mais do que uma polêmica isolada, funciona como um termômetro.

No limite, o dilema é elementar — e talvez por isso tão incômodo: se até o que parece estranho (ou bizarro, para dizer pouco) já não pode mais ser questionado, o que resta do debate?

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