Opinião

  1. Quando a crise mora dentro da casa

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, tem conversado com colegas na tentativa de retirar a Corte do centro da crise provocada pelo escândalo do Banco Master. Segundo relatos, já procurou praticamente todos os ministros para discutir saídas institucionais e até a criação de um código de conduta.

O gesto mostra preocupação legítima com a imagem do tribunal. Afinal, quando o Supremo entra no noticiário policial-financeiro, não é apenas um ministro que se desgasta: é a própria instituição que paga o preço.

O problema é que o tribunal foi parar no meio da crise justamente por causa das relações de alguns de seus integrantes com personagens centrais do caso. As revelações sobre o empreendimento ligado ao ministro Dias Toffoli e as mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro envolvendo Alexandre de Moraes colocaram o STF dentro da história.

A tentativa de criar um código de conduta pode até ser um bom sinal para a opinião pública. Mas, olhando a situação com certo distanciamento, a solução parece menos sofisticada.

Para tirar o Supremo da crise mais rapidamente, basta tirar aqueles que levaram o Supremo para dentro dela.

  1. Entre Trancoso e o Macallan

Circulou a informação de que Alexandre de Moraes teria frequentado uma luxuosa casa de R$ 300 milhões alugada pelo banqueiro Daniel Vorcaro em Trancoso, na Bahia. A propriedade, segundo relatos, teria 40 mil metros quadrados, 12 suítes e cinco bangalôs.

O gabinete do ministro reagiu rapidamente e negou a informação de forma categórica, afirmando que Moraes jamais esteve na mansão, onde aconteciam festas pra lá de nababescas, nem realizou qualquer viagem particular com o banqueiro.

O episódio poderia encerrar ali, não fosse um detalhe curioso.

Hoje já se conhecem os bastidores da famosa degustação de uísque Macallan realizada no exclusivíssimo George Club, em Londres, oferecida por Vorcaro. A conta da confraternização chegou a US$ 640 mil — cerca de R$ 3,3 milhões.

Entre os convidados estavam Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República Paulo Gonet, o ministro do Superior Tribunal de Justiça Benedito Gonçalves, o presidente da Câmara Hugo Motta e o ex-ministro do Supremo e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.

Trancoso pode até ter sido apenas boato. Mas Londres, ao que tudo indica, estava devidamente aberta para a degustação.

  1. Soberania é quando o Estado manda

O governo dos Estados Unidos avalia classificar facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. A justificativa é direta: essas estruturas atuam no tráfico internacional, expandem sua influência regional e operam como redes criminosas transnacionais.

A reação do governo brasileiro foi de preocupação com a soberania nacional. Avalia-se no Planalto que a classificação poderia abrir espaço para interferências externas.

É um argumento falacioso, que só confirma a conduta leniente do lulopetismo no combate à criminalidade, sempre tratando os bandidos como vítimas da sociedade.

O Brasil convive há décadas com facções que dominam presídios, controlam territórios urbanos, organizam rotas internacionais de tráfico e desafiam o Estado com desenvoltura quase empresarial.

Ainda assim, quando alguém de fora sugere tratar essas organizações com a gravidade que elas demonstram merecer, o debate passa a ser sobre soberania.

Mas soberania, no sentido clássico da palavra, significa algo muito simples: o Estado manda dentro de casa.

Quando quem manda são as facções, o conceito começa a ficar um pouco embaralhado.

  1. O México é o futuro que ninguém quer

O México virou um exemplo inquietante do que acontece quando o crime organizado cresce além da capacidade de reação do Estado.

Cartéis atacam ônibus, empresas e delegacias, incendiam cidades e enfrentam forças policiais com poder de fogo militar.

O resultado é um país onde, em algumas regiões, a autoridade do Estado tornou-se apenas simbólica.

O cenário serve como alerta para o Brasil.

Facções como PCC e Comando Vermelho já operam em escala nacional e internacional, controlam presídios e mantêm redes de tráfico sofisticadas.

Quando organizações criminosas conseguem paralisar cidades e impor medo coletivo, a linha que separa crime organizado de terrorismo começa a desaparecer.

O México mostra o que acontece quando o Estado reage tarde.

  1. Segurança pública também é uma questão federativa

Um dos pré-candidatos do PSD à Presidência da República, o governador do Paraná, Ratinho Júnior, apresentou uma proposta direta para enfrentar o crime no país.

A ideia foi exposta durante um debate entre os presidenciáveis do partido realizado em São Paulo, que reuniu também os governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

Ratinho defendeu que, caso venha a chegar ao Palácio do Planalto, encaminhará uma proposta de emenda constitucional para permitir que os estados legislem com maior autonomia sobre crimes graves, especialmente aqueles contra a vida.

Segundo o governador, o problema central do Brasil não é prender criminosos. As forças policiais fazem isso todos os dias. O problema, afirma, é que o sistema acaba soltando esses mesmos criminosos com rapidez.

Para ilustrar o argumento, citou o caso recente de uma freira de 82 anos assassinada dentro de um convento por um homem que havia acabado de deixar a prisão após uma saída temporária.

Em um país continental, onde a violência assume características distintas em cada região, a proposta toca num ponto pouco discutido.

Talvez a segurança pública brasileira precise menos de discursos nacionais e mais de poder real nas mãos de quem enfrenta o problema no território.

  1. Quando a fé enche estádios

A Igreja Universal do Reino de Deus prepara para a Sexta-feira da Paixão uma demonstração de força raramente vista no campo religioso brasileiro.

A denominação fundada por Edir Macedo alugou nove estádios de futebol pelo país para o evento “Família ao Pé da Cruz”.

A celebração religiosa não é novidade no calendário da igreja. O que chama atenção desta vez é a dimensão do evento — e o recado político implícito.

A Universal é a única igreja brasileira com um partido próprio, o Republicanos. E o distanciamento entre o lulismo e o eleitorado evangélico tornou-se um dos grandes problemas estratégicos do governo.

Em vídeo de convocação, o bispo Renato Cardoso chamou o encontro de “a maior lata de conservas da família”, numa referência irônica ao desfile carnavalesco que satirizou símbolos conservadores ao homenagear Lula na Sapucaí.

O que era para ser deboche acabou virando mobilização.

E, na política brasileira, estádio cheio costuma falar mais alto que carro alegórico.

  1. O eleitor que decide eleições

Pesquisa Genial/Quaest trouxe um dado revelador sobre o cenário político brasileiro.

Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Luiz Inácio Lula da Silva entre os chamados eleitores independentes.

Esse segmento — cerca de 30% do eleitorado — não se identifica nem com o lulismo nem com o bolsonarismo.

É justamente esse território político que desperta o interesse da chamada terceira via.

O PSD trabalha para lançar um candidato competitivo nesse campo, e o nome mais citado nos bastidores é o do governador Ratinho Júnior.

O problema é o tempo.

Se esse eleitorado começar a migrar rapidamente para um dos polos da disputa, a terceira via pode descobrir tarde demais que o relógio político resolveu correr mais rápido.

  1. Cercado por vizinhos

O governo Lula tenta reconstruir pontes diplomáticas com governos de centro-direita na América Latina.

A estratégia tem lógica econômica: comércio e investimentos costumam sobreviver às divergências ideológicas.

Mas no terreno político o cenário é outro.

A ascensão de lideranças conservadoras na região mudou o eixo do debate.

E há um fator externo que ninguém ignora: o presidente Donald Trump certamente entrará em campo para pedir voto para seus aliados nos países onde ainda haverá eleições este ano, como é o caso do Brasil.

Gestos diplomáticos podem até parecer cordiais no presente. Mas, quando o calendário eleitoral se aproxima, a política continental costuma mostrar seu verdadeiro rosto.

  1. De Brasília para o mapa

Articula-se no norte do Mato Grosso a criação de um novo município que poderá homenagear o decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

O projeto idealizado pelo empresário rural Eraí Maggi já ganhou até apelido entre entusiastas: Gilmarlândia.

O nome oficial seria Nova Aliança do Norte, mas a versão popular parece ter capturado melhor o espírito da homenagem.

Nos últimos tempos o Brasil tem desenvolvido uma curiosa tradição de reverenciar figuras públicas ainda em pleno exercício de poder.

Primeiro vieram os enredos carnavalescos transformando políticos em personagens de desfile.

Agora surge uma cidade para homenagear um dos mais poderosos magistrados da suprema Corte.

A política brasileira sempre gostou de gestos grandiosos.

Às vezes, porém, parece que estamos apenas modernizando antigos rituais do Império Romano.

  1. O cooperativismo que move o Paraná

Enquanto Brasília vive seus ciclos políticos, o agronegócio continua produzindo resultados concretos.

A cooperativa central Frimesa apresentou faturamento recorde de R$ 7,04 bilhões em 2025.

O desempenho reflete uma cadeia produtiva robusta que envolve cooperativas como Copagril, Lar, Copacol, C.Vale e Primato, além de milhares de produtores integrados.

Foram mais de 500 mil toneladas de alimentos produzidos e avanço expressivo nas exportações.

Segundo o diretor-presidente Elias Zydek, o resultado é fruto de disciplina produtiva e cooperação entre todos os elos da cadeia.

Enquanto parte do país discute teorias sobre desenvolvimento, o cooperativismo paranaense continua praticando desenvolvimento na vida real.

  1. Exportar é diversificar

Dados organizados pelo IPARDES mostram forte crescimento das exportações paranaenses neste início de 2026.

Vendas para Japão, Singapura e Filipinas mais que dobraram no primeiro bimestre.

Noruega, Polônia e Dinamarca também registraram expansão expressiva.

Com esse desempenho, os seis mercados passaram a responder por mais de 10% das exportações do estado.

Segundo o presidente do instituto, Jorge Callado, um diferencial paranaense está na diversidade de mercados e produtos.

Nos dois primeiros meses de 2026, mercadorias do estado chegaram a 183 destinos diferentes, envolvendo cerca de três mil itens.

Num mundo cada vez mais instável, diversificar deixou de ser estratégia.

Virou condição de sobrevivência.

  1. Missão cumprida — segundo o próprio autor

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, prepara sua saída do cargo para disputar o governo de São Paulo.

Enquanto organiza a desincompatibilização do posto, tem repetido que sua passagem pela Fazenda representaria uma missão cumprida.

É sempre elegante quando alguém faz o próprio balanço.

Especialmente quando esse balanço coincide com um período marcado pela expansão da dívida pública, aumento da carga tributária e sucessivas tentativas de fechar as contas com novos impostos.

Levantamentos apontam que o atual governo promoveu cerca de trinta medidas de aumento ou criação de tributos desde o início do mandato.

Tudo em nome do equilíbrio fiscal.

Se isso é missão cumprida, resta apenas uma curiosidade acadêmica.

Imaginar como seria uma missão fracassada.

  1. Os tempos que vivemos…

Com 11 votos a favor e 10 em branco, a deputada federal trans Erika Hilton (Psol-SP) foi eleita para presidir a Comissão dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A rigor, a bem da verdade, biologicamente falando, é o primeiro homem a comandar o colegiado. Queria até fazer um comentário, mas meu advogado me proibiu.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo