Escárnio

Três meses de silêncio. E então, uma nota.
Quando o escritório da mulher e dos filhos do ministro Alexandre de Moraes finalmente se pronunciou sobre o contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master, o Estadão tinha uma palavra pronta — não como crítica apressada, mas como diagnóstico preciso do que aquela explicação representa: escárnio.
Pode chamar também de desdém, menosprezo, zombaria, ironia, deboche.
O desrespeito deliberado de quem oferece uma versão sabendo que ela não convence, apostando que ninguém ousará dizer em voz alta que o rei está nu.
O jornal dissecou a nota com a frieza de quem não se deixa impressionar por artifícios retóricos, e o resultado é devastador.
Consultou 13 advogados de bancas de elite para aquilatar o valor do contrato, e a conclusão foi unânime: os honorários são absolutamente incompatíveis com o mercado.
O conjunto de atividades descritas — reuniões, pareceres, revisão de políticas internas — dificilmente ultrapassaria R$ 7,8 milhões no total. O contrato assinado, porém, previa remuneração mensal entre R$ 3,6 milhões e R$ 5,8 milhões ao longo de quase dois anos.
Honorários superiores a R$ 100 milhões são raridade no mercado jurídico brasileiro, normalmente associados a disputas fiscais ou operações societárias bilionárias, conduzidas por batalhões de advogados em múltiplos escritórios.
Nada que se assemelhe ao perfil ou ao histórico da banca dos Moraes.
Os números falam por si — mas há outros números igualmente eloquentes. Segundo apuração de O Globo, nunca desmentida, apenas entre 2023 e 2024 o patrimônio de Viviane Barci de Moraes cresceu 232%, saltando de R$ 24 milhões para R$ 79,7 milhões.
O Estadão chama esse movimento de “fenômeno”. A ironia é justa. Fenômenos existem — mas costumam ter explicação. E a explicação oferecida pela advogada, como demonstra o editorial, não resiste à aritmética.
A lógica do caso é implacável na sua simplicidade. Ou Viviane de Moraes se transformou subitamente na advogada mais disputada do Brasil — quiçá do mundo —, ou todos os brasileiros estão autorizados a suspeitar que o contrato comprou serviços inconfessáveis.
Não há terceira opção que o senso comum possa aceitar.
O contrato, porém, não existe no vácuo. Ele compõe o que o Estadão descreve como um mosaico de indícios: encontros pessoais entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e o ministro Alexandre de Moraes; mensagens interceptadas pela Polícia Federal tratando de interesses do banco — inclusive no dia da prisão do banqueiro —; e contatos institucionais sensíveis, como junto ao Banco Central.
Nenhum desses elementos, tomado isoladamente, configura crime. Mas o conjunto forma uma base objetiva que, em qualquer república que se preze, demandaria investigação imediata.
O mesmo raciocínio se aplica aos vínculos do ministro Dias Toffoli com estruturas financeiras ligadas a Vorcaro e às suas decisões judiciais como relator do caso Master.
O editorial do Estadão toca num ponto que vai além do escândalo em si: a seletividade na aplicação da lei.
O ministro Alexandre de Moraes já tratou o apagamento de mensagens em celular como ocultação de provas em processos recentes.
Agora, há indícios de que o próprio ministro tenha adotado a mesma conduta nas mensagens trocadas com Vorcaro. A assimetria é gritante — e o jornal não a deixa passar em silêncio.
Se fossem aplicados ao ministro os mesmos critérios que ele mesmo utilizou contra outros, a situação seria de gravidade incontornável.
A responsabilidade de investigar caberia, antes de tudo, ao Ministério Público. Mas também aqui os princípios se revelam elásticos.
O procurador-geral Paulo Gonet, amigo e apadrinhado de Moraes, já demonstrou, em outros episódios, zelo incomum — como no caso do empresário investigado após supostamente hostilizar o ministro num aeroporto, ou do ex-assessor que, ao expor evidências de manipulações processuais, foi convertido em réu em vez de ouvido como testemunha.
O Estadão nomeia com precisão o que está em jogo: a percepção de que a lei pode variar entre sonolenta e draconiana conforme a posição institucional de quem está sob suspeita.
Pela lógica constitucional, o poder emana do povo, e quem o exerce está a seu serviço. Mas há autoridades que inverteram essa equação, tratando o poder como propriedade particular e os cidadãos como serviçais.
É uma perversão da ordem republicana — e o editorial não hesita em chamá-la pelo nome.
Vale lembrar que este editorial não vem de um veículo de oposição sistemática ao STF. Vem do Estadão — como vieram, nas últimas semanas, coberturas contundentes do Globo, da Folha e de outros pilares da grande imprensa brasileira, que por anos manteve uma relação de deferência silenciosa diante dos excessos do Tribunal.
A mesma imprensa que, enquanto o STF perseguia adversários políticos, enquadrava o ex-presidente Jair Bolsonaro na narrativa do suposto golpe e usurpava prerrogativas dos demais poderes, preferiu o conforto da omissão.
Tarde — mas finalmente. O jornalismo independente que o Brasil sempre precisou começa, aos poucos, a se reencontrar consigo mesmo.
E o fecho, inevitavelmente, pertence à própria advogada.
Em nota oficial, Viviane Barci de Moraes esclareceu que os serviços prestados ao Banco Master — instituição cujo dono foi preso duas vezes pela Polícia Federal, acusado de provocar uma das maiores fraudes da história financeira brasileira, com rombo estimado em cinquenta bilhões de reais — concentraram-se na implementação (eis uma piada pronta) de mecanismos de compliance e na revisão do código de ética e conduta da instituição.
Difícil imaginar consultoria mais indicada.
Afinal, quem melhor do que o escritório da esposa do magistrado mais poderoso do país para ensinar um banqueiro mafioso a ter ética?
O resultado, como se sabe, foi exemplar.











