OPINIÃO

Uma carta que o Brasil precisava ler

Há documentos que não precisam de apresentação elaborada. Chegam com a força de quem diz, em voz alta, o que milhões sussurram em silêncio. É o caso da carta que o pesquisador e escritor Roberto Motta publicou na Gazeta do Povo, endereçada ao candidato da direita à Presidência da República.

A escolha do destinatário não é capricho ideológico — é lucidez. As propostas que Motta defende ao longo do texto, da segurança pública ao corte de gastos, do fim do populismo econômico à redução da carga tributária, são pautas que a esquerda brasileira historicamente refuta, vota contra e, quando no poder, sistematicamente desfaz.

Escrever ao candidato da esquerda seria, como ele bem sabe, tempo perdido.

Uma carta, aliás, que não é, a rigor, de um homem para um político. É de um país para si mesmo.

Motta não é um articulista de fim de semana. É autor de quatro livros — entre eles A Construção da Maldade: Como Ocorreu a Destruição da Segurança Pública Brasileira —, pesquisador dedicado ao tema que mais envergonha o Brasil diante do espelho: a violência endêmica que corrói vidas, famílias e oportunidades, enquanto o Estado debate a melhor forma de proteger quem a provoca.

Dessa autoridade fala Motta. E fala com clareza cirúrgica.

A carta abre pelo tema que, nas palavras do próprio autor, deve vir “primeiro e acima de tudo”: a segurança pública. O diagnóstico é duro, mas não é novo para quem acompanha o debate com seriedade.

Desde os anos 1980, argumenta Motta, opera no Brasil um projeto deliberado de desmonte da segurança pública, de matriz ideológica marxista, que progressivamente instalou no sistema de Justiça a ideia de que o criminoso é vítima — e a vítima, um detalhe processual.

O garantismo, o abolicionismo penal, a chamada criminologia crítica: doutrinas que, nas universidades e nos tribunais, foram transformando o aparato jurídico num escudo para o crime organizado e numa espada contra o cidadão comum.

Não há brasileiro que ame este país — independentemente de onde se posicione no tabuleiro eleitoral — que possa discordar desse diagnóstico.

A insegurança não é ideológica. Ela invade casas, interrompe trajetórias, fecha comércios e expulsa investimentos com a mesma indiferença com que atravessa bairros ricos e periferias.

O medo é democrático, ainda que suas soluções sejam disputadas.

Motta propõe duas frentes concretas: uma reforma legislativa que recoloque a vítima no centro do sistema penal, enfrentando o que ele chama, sem eufemismo, de “lobby pró-bandido infiltrado nos Três Poderes”; e um programa emergencial de reforma do sistema prisional, com a retomada do controle das cadeias — hoje nas mãos das facções — e a construção de um milhão de novas vagas no padrão da ONU. O custo? Menor do que o Brasil já desperdiçou na refinaria Abreu e Lima, obra-símbolo do voluntarismo estatal que consome fortunas sem entregar resultados.

São cem bilhões de reais e uma refinaria ainda inacabada de um lado. Do outro, a possibilidade concreta de um país onde se possa viver sem medo. A comparação, por si só, é um veredicto.

Do crime, Motta avança para a economia — não como desvio de rota, mas como continuidade natural.

Porque a sobrevivência do brasileiro médio, sua capacidade de pagar as contas, comprar comida e oferecer uma vida digna à família, depende de um Estado que saiba o seu lugar.

E o seu lugar, segundo o autor, não é o de protagonista da economia, mas o de árbitro: imparcial, contido, funcional. Nada mais, nada menos.

A crítica ao populismo econômico vem acompanhada de uma imagem que Margaret Thatcher imortalizou e que Motta recupera com pertinência: a sociedade precisa de uma escada e de uma rede de proteção. A escada para quem quer subir pelo próprio esforço. A rede para amparar quem genuinamente não pode cuidar de si.

O que não se tolera — e o autor é direto — é transformar a rede num berço para quem simplesmente prefere não subir. É nesse ponto que o assistencialismo crônico deixa de ser compaixão e passa a ser, na prática, um instrumento de controle eleitoral.

A carta não poupa o aparelho estatal. Motta descreve uma máquina pública inchada, cara e perdulária, cujos beneficiários diretos há

décadas resistem a qualquer tentativa séria de enxugamento. O debate sobre supersalários e penduricalhos, lembra ele, data dos tempos de Fernando Collor — e desde então apenas se aprofundou.

A retórica do corte virou ritual. Os cortes, raridade.

Por isso, o autor vai além das palavras e propõe gestos. Reduzir carros oficiais. Eliminar viagens internacionais no início do mandato. Vender os jatinhos e o avião presidencial. Proibir megaeventos bancados com dinheiro público.

A lista pode parecer simbólica — e em parte é. Mas símbolos governam imaginários. E um presidente que começa governando com austeridade comunica, antes de qualquer reforma estrutural, que o dinheiro público é dinheiro de quem trabalha. Essa mensagem vale mais do que qualquer plano de cem dias.

As metas que Motta propõe são ousadas: redução de 25% nas despesas do Estado e de igual proporção na carga tributária ao longo do mandato. O Brasil vive, nas palavras do autor, uma “selva tributária” — construída ao longo de décadas e agravada pela mais recente reforma que prometia simplificar e entregou novos labirintos.

Cada centavo que o Estado arrecada, lembra Motta, é um centavo retirado do orçamento de uma família. Essa equação simples é o que os tecnocratas raramente enxergam e o contribuinte sente todo mês na nota fiscal.

No final, a carta converge para uma conclusão que tem o mérito da modéstia: para ser um bom presidente, não é preciso resolver tudo.

Basta, diz o autor, dar ao brasileiro tranquilidade para viver e reduzir o que ele paga de impostos. Quem conseguir isso terá feito mais do que a maioria dos que passaram pelo Palácio do Planalto nas últimas décadas.

É uma carta assinada por um homem. Mas ressoa com a voz de uma maioria que não costuma aparecer nas pesquisas de opinião sobre “democracia” ou “valores sociais” — mas aparece, inevitavelmente, nas urnas.

O Brasil conservador e trabalhador, aquele que acorda cedo, paga seus impostos, respeita as regras e exige, em troca, um mínimo de segurança e um Estado que não o trate como fonte inesgotável de recursos para financiar sua própria ineficiência.

Esse Brasil leu a carta de Roberto Motta e se reconheceu nela.

Resta saber se o candidato também vai ler.

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