Quando os gigantes tropeçam

Não costuma ser bom sinal quando dois colossos do setor corporativo brasileiro pedem socorro na mesma semana. Na terça-feira 10 de março, a Raízen — controlada por Cosan e Shell, maior produtora mundial de etanol de cana — protocolou pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, o maior processo do tipo já registrado no país, superando com folga os R$ 21,9 bilhões do Grupo InterCement em 2024. No dia seguinte, foi a vez do Grupo Pão de Açúcar, dono das redes Pão de Açúcar e Extra, obter da Justiça de São Paulo o deferimento de sua própria recuperação extrajudicial, que abrange R$ 4,5 bilhões em passivos sem garantia.
Dois pedidos em quarenta e oito horas, dois setores distintos, um mesmo diagnóstico de fundo: a asfixia provocada pelos juros mais altos em quase duas décadas.
A recuperação extrajudicial, convém explicar, não se confunde com a judicial. É um instrumento mais cirúrgico, negociado diretamente com credores financeiros — bancos e detentores de debêntures —, sem intervenção direta do juiz na gestão do negócio. Ambas as empresas asseguram que fornecedores, funcionários e clientes permanecem fora do escopo. Na prática, porém, o sinal emitido ao mercado é inequívoco: mesmo companhias de porte continental já não conseguem carregar o peso de suas dívidas no ambiente monetário vigente.
E não são casos isolados. Levantamento da consultoria RK Partners, especializada em reestruturação de passivos, analisou 282 empresas com ações listadas na bolsa de valores e concluiu que quase 25% delas já não geram caixa suficiente sequer para pagar os juros de suas próprias dívidas. Um quarto das companhias abertas do país opera, portanto, sob pressão financeira severa — e a parcela do esforço produtivo que se destina a alimentar o serviço da dívida só cresce.
As causas particulares de cada caso existem e merecem registro. O GPA acumula erros de governança e decisões estratégicas questionáveis — a cisão do Assaí e do grupo colombiano Éxito reduziu sua escala e diversificação, e desde 2023 a rede fechou 39 lojas. A concorrência dos atacarejos — Atacadão, Assaí, Grupo Mateus — corroeu fatias de mercado. No caso da Raízen, eventos climáticos severos derrubaram a produtividade da cana em cerca de 30%, investimentos de longo prazo como o etanol de segunda geração consumiram caixa sem retorno imediato, e a empresa queimou quase R$ 2 bilhões apenas no terceiro trimestre da safra 2025/26. São histórias distintas, com protagonistas distintos — mas o vilão comum é um só.
A taxa Selic encerrou 2025 em 15% ao ano, o patamar mais alto desde meados da década passada. É uma taxa que, mantida por tempo prolongado, funciona como ácido sobre o balanço das companhias alavancadas. Muitas delas se endividaram nos anos de juro baixo, entre 2020 e 2021, para expandir operações ou alongar passivos — e a reversão brusca da política monetária transformou o que parecia prudência financeira em armadilha de caixa. No caso do GPA, os juros consumiam quase R$ 1 bilhão por ano. Para a Raízen, cada ponto percentual adicional da Selic amplifica o custo de um passivo que já soma quase R$ 100 bilhões, incluídas as dívidas entre empresas do próprio grupo.
E por que os juros permanecem nessa altitude? A resposta passa, inevitavelmente, pela porta da política fiscal. A dívida bruta do governo geral encerrou 2025 em 78,7% do PIB — sete pontos percentuais acima do início do mandato —, e a projeção do próprio Tesouro Nacional aponta para 83,6% em 2026, com tendência de alta nos anos seguintes. A Instituição Fiscal Independente do Senado calcula que seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB para estabilizar essa trajetória — algo que o governo não produz e sequer projeta produzir. O déficit primário acumulado em 2025 já superava o dobro da meta fiscal. As despesas com juros alcançaram R$ 1 trilhão, ou quase 8% do PIB.
Há, nesse quadro, uma circularidade perversa que merece ser dita com clareza: o descontrole dos gastos públicos alimenta a percepção de risco fiscal, que pressiona os juros de longo prazo, que obriga o Banco Central a manter a Selic em patamares estratosféricos, que encarece o crédito para empresas e famílias, que deprime o investimento e o consumo, que por sua vez reduz a arrecadação e alimenta novamente o déficit.
O governo gasta mais do que arrecada, arrecada mais por meio de aumentos contínuos de impostos para financiar despesas crescentes — e ainda assim não consegue fechar a conta. A roda gira, e quem paga a fatura é o setor produtivo.
Quando uma Raízen, que distribui combustíveis em milhares de postos e emprega dezenas de milhares de trabalhadores, precisa suspender o pagamento de seus credores por 90 dias para não colapsar — e quando, na mesma semana, o maior grupo supermercadista do país faz o mesmo —, o que se tem não é um problema de gestão empresarial. É um sintoma macroeconômico.
É o som que faz uma economia cujas engrenagens rangem sob o peso de uma política fiscal que há anos trocou responsabilidade por populismo, e que agora apresenta aos brasileiros a conta desse descuido. Durma-se com um barulho desses.










