Opinião

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe

As pesquisas mais recentes sobre o cenário político e eleitoral brasileiro revelam algo que começa a ganhar contornos cada vez mais claros.

Trata-se de um fenômeno clássico da política: fadiga de material. A expressão, tomada emprestada da engenharia, descreve o momento em que uma estrutura passa a sofrer desgaste acumulado após anos de tensão. Na política, ocorre efeito similar. Lula ainda aparece, embora com margens mínimas, na liderança das sondagens de intenção de voto, mas a situação ao redor já não é a mesma.

Os índices de desaprovação do seu terceiro mandato presidencial superam a aprovação, o número de eleitores que preferem que ele não seja candidato é bem maior que o contingente que ainda gostaria de ver seu nome na urna eletrônica e as simulações de segundo turno mostram adversários cada vez mais competitivos.

A verdade é que o país cansou do Lula e do PT.

Esse quadro não nasce de um único fator. Ele é resultado de um conjunto de percepções que as pesquisas vêm captando de forma persistente. Há o desgaste natural de governos longos, mas há também três temas que pesam de maneira decisiva no humor do eleitor: o custo de vida, a segurança pública e a volta da corrupção.

Na economia, o governo insiste em destacar a queda da inflação e o baixo desemprego. No cotidiano das famílias, porém, a realidade é outra: as coisas continuam caras. A inflação pode recuar nos índices técnicos, mas o consumidor percebe no bolso que o seu poder aquisitivo vem caindo mês a mês.

A segurança pública compõe o outro lado desse mal-estar. O crescimento da violência e o avanço das facções criminosas alimentam um sentimento de insegurança que atravessa praticamente todas as pesquisas de opinião. Historicamente, a esquerda brasileira tem dificuldade em abordar esse assunto com clareza, presa muitas vezes ao velho dilema ideológico de explicar o crime mais como fenômeno social do que como problema concreto que exige enfrentamento imediato. No debate eleitoral, essa hesitação costuma cobrar seu preço.

Quanto à corrupção, estão aí os escândalos do INSS e do Banco Master, onde o governo e seus aliados no Congresso e no Judiciário estão envolvidos até a medula.

É nesse ambiente que surge a entrevista do sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida à newsletter Jogo Político. Não é um analista distante do campo progressista. Almeida é, há anos, uma das vozes que setores da própria esquerda costumam ouvir com atenção. Antes do lançamento de seus livros mais recentes, foi recebido em Brasília por Lula e por ministros e dirigentes petistas influentes.

Talvez por isso suas conclusões chamem tanto a atenção. Sem rodeios, ele afirma que “neste momento Lula é favorito para perder”.

O diagnóstico parte de um indicador que o sociólogo acompanha há anos: o percentual de avaliação “ótimo ou bom” de um governo. Pela experiência das eleições brasileiras, presidentes que chegam à disputa com menos de 35% nesse indicador tendem a enfrentar enorme dificuldade para vencer. Lula, segundo Almeida, terminou o último ano com cerca de 30% e os levantamentos mais recentes nas mãos do próprio governo apontariam números ainda menores, entre 25% e 26%.

Outro ponto destacado por ele é a diferença entre indicadores econômicos e percepção social. O governo comemora estatísticas favoráveis, mas isso não significa automaticamente melhora percebida pelo eleitor. A inflação pode cair, mas a sensação de carestia permanece quando o salário não permite comprar mais do que antes. Em política, percepção costuma pesar mais que planilha.

A disputa contra o senador Flávio Bolsonaro também aparece na análise do sociólogo. Segundo ele, a eleição tenderia a ser uma disputa centrada na rejeição. Venceria quem fosse menos rejeitado pelo eleitorado. Nesse contexto, repetir a estratégia de rotular adversários como extremistas ou fascistas, fórmula utilizada pela esquerda em campanhas recentes, teria eficácia limitada.

O cientista político também observa que escândalos como o chamado Caso Master, ao atingir diferentes atores do sistema político, acabam reforçando na opinião pública a velha percepção de que “todo político é igual”. E, quando esse sentimento se espalha, quem ocupa o governo costuma pagar o preço maior.

Se o cenário permanecer assim, Almeida sugere que apenas resultados econômicos tangíveis poderiam alterar o quadro. Comunicação política não bastaria. O eleitor precisaria sentir mudanças concretas na própria vida — algo imediato, visível, palpável. Em termos práticos, o sociólogo afirma que restaria ao presidente recorrer a medidas de forte impacto econômico imediato: gastar mais, baixar juros, produzir efeitos rápidos no bolso do eleitor.

A formulação chega a ser constrangedora. Porque aquilo que ele descreve como eventual caminho para salvar a reeleição é precisamente o método que tem marcado grande parte do terceiro mandato de Lula. Mais gasto, mais pressão política por juros menores, mais intervenções com efeitos imediatos — exatamente o cardápio que já vem sendo servido.

A sugestão, portanto, soa menos como receita e mais como constatação involuntária de um paradoxo: pedir mais populismo econômico a um governo que já opera em modo populista permanente. E isso num momento em que o país observa, com crescente apreensão, a deterioração das contas públicas, o avanço da dívida nacional e um horizonte fiscal que vai ficando cada vez mais turvo.

A parte mais reveladora da entrevista, porém, surge quando o sociólogo volta o olhar para dentro do próprio campo ideológico.

Almeida ironiza a ideia de que a esquerda realmente escuta suas análises. Diz que, na prática, parece que muitos sequer leem o que ele escreve. E critica duramente aquilo que considera uma cartilha ideológica desconectada do eleitor médio brasileiro — posições rígidas sobre privatizações, debates identitários mal calibrados e bandeiras que ampliam a distância entre discurso político e percepção popular.

Em determinado momento, resume essa orientação em uma palavra dura: insana.

Talvez seja justamente esse o aspecto mais significativo de toda a conversa. Não é um adversário quem aponta as fragilidades do governo. É alguém que circula dentro do próprio universo progressista e conhece por dentro sua lógica política.

Quando alertas assim começam a surgir dentro da própria casa, raramente são apenas opinião. Muitas vezes já são diagnóstico.

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