OPINIÃO

O melancólico ocaso de um falso messias

Quando até a The Economist — tantas vezes saudada, ou jocosamente apelidada de The Communist por seus flertes com teses progressistas — desiste do Lula, é porque o buraco não tem mais tapete que o esconda.

A influente revista britânica publicou um editorial devastador sobre o presidente brasileiro, com críticas tão frontais que dispensam traduções políticas ou amenidades diplomáticas.

Não foi uma análise corriqueira: foi o que se pode chamar, sem exagero, de uma pá de cal — ou, talvez, a missa de corpo presente do projeto lulista no Brasil e no mundo.

O texto é um inventário preciso e humilhante do fracasso geopolítico, institucional e popular do terceiro mandato do petista, marcado por um isolacionismo desastrado, uma retórica anticapitalista anacrônica e uma sucessão de escolhas que envergonham o Brasil no cenário internacional.

Um editorial que, se tivesse partido de um jornal conservador, seria classificado como panfleto de direita. Mas vindo da Economist — que já celebrou o “Lulinha paz e amor” e que tem histórico de indulgência com a esquerda global — soa como veredicto terminal.

A começar pela aversão explícita do petista ao Ocidente, estampada na preferência do Itamaraty por Xi Jinping, Putin e, mais recentemente, os aiatolás iranianos. A revista classifica como “agressivo” o tom da diplomacia brasileira ao condenar os EUA por ataques a instalações iranianas, sem demonstrar igual repúdio ao regime teocrático que financia o terrorismo e persegue mulheres. O Brasil, antes ponte entre os mundos, tornou-se, segundo a publicação, “cada vez mais hostil ao Ocidente”.

O distanciamento de Donald Trump, presidente da maior economia do mundo, é sintomático. Lula não fez “nenhum esforço para estreitar laços com os Estados Unidos” desde que Trump assumiu o poder, em janeiro de 2025.

Os dois nem sequer se cumprimentaram. Lula prefere os abraços calorosos de Xi, os tapinhas gelados de Putin e os afagos retóricos do Foro de São Paulo. Para a Economist, o Brasil virou uma economia emergente geograficamente irrelevante, politicamente inerte e diplomática apenas no nome.

Lula parece viver num tempo paralelo, celebrando vitórias que não existem, propondo mediações de paz que ninguém solicita, oferecendo prestígio que já não possui. Foi à Rússia no mês passado para tentar convencer Putin a aceitar o Brasil como mediador na guerra da Ucrânia. Ninguém lhe deu ouvidos. Ninguém.

Na América do Sul, a coisa é pior: rompeu com Javier Milei por puro capricho ideológico, ignorando que a Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil. Estendeu tapetes vermelhos à Venezuela de Nicolás Maduro, enquanto sua retórica sobre democracia permanece travestida de indignação seletiva.

Internamente, o cenário é igualmente desolador. A popularidade despenca — 57% de desaprovação, segundo o levantamento da Genial/Quaest, o maior índice de rejeição desde a redemocratização entre presidentes com menos de dois anos de mandato. A Economist associa o fenômeno ao avanço evangélico, à guinada conservadora da sociedade e, principalmente, à marca indelével de corrupção que acompanha o PT como uma sombra incurável. Um partido identificado com sindicatos estagnados, com pobres dependentes de esmolas e com uma elite partidária que se especializou em negócios públicos privados.

A reportagem destaca ainda a perda de controle de Lula sobre o Congresso, apontando como sinal da fraqueza presidencial a derrubada do decreto que aumentaria o IOF — feito inédito em três décadas.

E não só o Congresso o despreza: parte dos partidos de centro e da direita moderada, que no segundo turno de 2022 embarcaram na canoa furada da “Frente Ampla” — horrorizados com o estilo de Bolsonaro, mas encantados com o verniz democrático prometido por Lula —, hoje se sentem traídos.

Compraram o produto de “governo de união nacional”, mas receberam um PT raiz, dominando ministérios, aparelhando autarquias e alijando aliados ao papel de figurantes decorativos.

Nada de conciliação: o velho Lula sindicalista voltou com força, raivoso, batendo no setor produtivo, agredindo o agronegócio, demonizando empresários, retomando a luta de classes e colocando pobres contra ricos no discurso do “nós contra eles”.

A tal “união nacional” se revelou, como sempre, uma balela cínica — e a base de apoio desidrata, enojada.

E há uma profecia clara no editorial: “Se Bolsonaro escolher um sucessor e a direita se unir em torno do ungido antes de 2026, a presidência será deles.” Ou seja, mesmo admitindo a possível prisão do ex-presidente, a Economist constata que Lula não lidera mais sequer sua própria narrativa, quanto mais o país.

A revista conclui de forma seca, sem afagos nem indulgências: “Lula deveria parar de fingir que tem relevância internacional e se concentrar em questões mais próximas.” Tradução livre: o tempo do messias acabou — e ele ainda não percebeu.

Se fosse apenas Lula o atingido, estaríamos rindo. Mas o que se perde, junto com sua credibilidade, é o respeito ao Brasil. Quando até a Economist joga a toalha, é porque já não há mais disfarce possível: o rei está nu, sem plateia e sem aplausos.

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