Mais um prego no caixão

Foi uma derrota acachapante. Fragorosa. Emblemática. E, acima de tudo, simbólica. A derrubada, pelo Congresso Nacional, do decreto do governo Lula que elevava o Imposto sobre Operações Financeiras, o agora famoso IOF — um tributo regulatório transformado em instrumento desesperado de aumento de receita — é muito mais do que uma votação perdida. É o retrato em alta resolução de um governo esfarelado, sem sustentação, sem comando e sem noção do tempo histórico em que está inserido.
A proposta, maquiada de ajuste fiscal, mas transbordando de voracidade arrecadatória, atingia em cheio todos os setores da economia, penalizando diretamente o contribuinte, o investidor e o consumidor final. E tudo isso num país já sufocado por uma das maiores cargas tributárias do mundo, onde a inflação teima em resistir, os juros são pornográficos e a confiança é artigo em extinção.
Não colou. A reação da sociedade foi imediata. Entidades do setor privado, especialistas, parlamentares e — o mais importante — a população cansada de pagar a conta de um Estado perdulário e inchado, levantaram a voz. O Congresso ouviu e respondeu. Na Câmara, foram 383 votos contra 98. No Senado, a derrota do governo foi tamanha que veio no constrangido silêncio do voto simbólico. Para quem se guia pela política real, o placar foi só a cereja.
Mas o dado mais eloquente de todos talvez seja outro: boa parte dos votos que sacramentaram a derrota partiu justamente de parlamentares que integram a chamada base governista — incluindo partidos que comandam ministérios e ocupam cargos no primeiro escalão. Ou seja, o governo sequer conseguiu segurar seus próprios votos. Uma desmoralização completa. Uma perda de autoridade que ultrapassa a aritmética e invade o campo da humilhação política.
A base governista — ou o que restou dela — viu-se impotente. O Planalto tentou de tudo: protelou, recuou, negociou, apelou. Não funcionou. Deputados irritados com o atraso das emendas deram o troco. Senadores aproveitaram a deixa para fritar inimigos internos, como o ministro Alexandre Silveira, desafeto de Davi Alcolumbre. Mas nem os bastidores maquiavam o essencial: a proposta era indefensável.
Desde Fernando Collor, há mais de 30 anos, um decreto presidencial não era derrubado dessa forma. O feito histórico ajuda a compor o painel atual: um governo sem ascendência sobre o Legislativo, sem credibilidade na opinião pública e sem direção econômica clara. Lula, aquele mesmo que se dizia o grande maestro da política, virou um solista desafinado, incapaz de reger até a própria claque.
O pano de fundo é indigesto. A rejeição pessoal ao presidente sobe a cada pesquisa. Adversários da direita já o superam em intenções de voto para 2026. A sensação de desgoverno é agravada por escândalos de corrupção que pipocam em diversas áreas da administração, negócios suspeitos em contratos públicos e relações promíscuas com empresários amigos e ONGs que orbitam o poder com fome de verba e ausência de controle.
A política externa patina entre gafes diplomáticas e alinhamentos vergonhosos com o que há de pior no planeta: Irã, Hamas, Hezbollah, ditaduras latino-americanas e todo o balaio da obscuridade ideológica. Internamente, o discurso bélico contra o agronegócio e o sistema financeiro só ajuda a elevar o risco-país — e, por tabela, os juros, a inflação e o custo de vida.
O país estica o pescoço por alguma esperança. Mas o governo insiste em fingir que está tudo bem, que a gastança é virtuosa, que aumentar imposto é justiça social. Tudo ao contrário. O Congresso, mesmo com suas contradições, foi nesta semana o porta-voz de um Brasil exausto. E deu o recado com a contundência de quem já perdeu a paciência.
No fim, restou a imagem patética de um presidente acuado, confrontando o Congresso como um jogador de truco que blefa sem ter carta. Não convence mais. Não assusta mais. Não engana mais. O rei está nu.










Parabéns Caio 👏👏👏 falou tudo, palavras certeiras e muita propriedade no ponto de vista👍
TFA
Ainda há esperança