OPINIÃO

Definitivamente, Lula não precisa de inimigos

Se a oposição estivesse em busca de munição, bastaria sentar e assistir ao que se passa dentro do Partido dos Trabalhadores.

Na última terça-feira (17), em um debate no Rio entre os quatro candidatos à presidência nacional da sigla, o que era para ser uma eleição interna civilizada revelou-se um campo minado de acusações, recalques e confissões envergonhadas.

Foi uma lavação de roupa suja digna das melhores reuniões de condomínio.

Romênio Pereira, Valter Pomar e Rui Falcão – três históricos da agremiação – não pouparam críticas ao governo Lula. A frase de Romênio, “ou o governo muda ou o povo muda de governo”, resume a gravidade do momento. E o mais interessante: não foi dita por um analista isento, mas por um integrante da cúpula petista. Não se trata, portanto, de “narrativas golpistas”, mas de um alarme vindo de dentro da casa.

Valter Pomar foi direto ao ponto: o PT está perdendo sua base social. Rui Falcão, aquele que já presidiu o partido três vezes, acusou o Planalto de “modorra e alheamento”. Quando até a velha guarda começa a escrever o obituário do lulismo, é porque o velório já começou. E não há mais paninho quente que dê conta da febre.

O único que tentou apagar o incêndio com baldinho d’água foi Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara e preferido de Lula para ocupar o cargo. Tentou bancar o bombeiro institucional, defendendo o governo como pôde, mas parecia mais um funcionário apagando fogo com borrifador.

Alegou que criticar Lula ajuda a oposição — como se a oposição estivesse à altura da autossabotagem que o próprio PT está promovendo.

E se as críticas já não fossem suficientes, ainda teve o momento “vale tudo”. Pomar acusou o cacique fluminense Washington Quaquá de “promiscuidade com milicianos” e “enriquecimento incompatível com a atividade política”. Quaquá, fiel escudeiro de Edinho, respondeu à altura de sua elegância habitual: chamou Pomar de “vagabundo” e “caluniador” num grupo de mensagens. Um debate de ideias, como se vê.

A verdade é que a guerra interna no PT está mais virulenta do que qualquer confronto com adversários externos. E talvez esteja aí o segredo: o partido sempre foi um aglomerado de tendências, correntes e vaidades, contidas apenas enquanto Lula exercia sua liderança incontestável sobre a companheirada.

Mas agora, no terceiro mandato, o encantamento acabou. E o que se vê é um Lula isolado, um governo errático e um partido que, longe de remar junto, já começa a ensaiar o abandono da embarcação — ou ao menos, cada qual tentando salvar o seu bote.

Essa fragmentação partidária, aliás, não é um raio em céu azul. É só o reflexo do que já se vê dentro do próprio Palácio do Planalto, onde petistas dividem trincheiras e disputam território como se estivessem em uma guerra de sucessão.

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, sabotam sistematicamente as decisões do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Por sua vez, Rui Costa e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, se alinham para confrontar a própria Gleisi. É um governo de facções, e o partido apenas reflete o que se tornou o núcleo duro do poder: um ringue.

Como é que se pode esperar que um partido que expressa tamanha união e solidariedade entre seus líderes — com esse nível elevado de entendimento mútuo, recheado de xingamentos — consiga governar um país com um mínimo de decência e competência?

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